China mantém juros estáveis e aposta em estímulos fiscais para conter desaceleração

A China manteve inalteradas suas taxas de referência para empréstimos pelo 15º mês consecutivo, mesmo diante de novos sinais de desaceleração da atividade econômica. A Loan Prime Rate (LPR) de um ano permaneceu em 3%, enquanto a taxa de mais de cinco anos, usada como referência para parte dos financiamentos imobiliários, continuou em 3,5%. A decisão, anunciada nesta quinta-feira (20), estava dentro das expectativas do mercado.

À primeira vista, a decisão parece contraditória. Se a economia perde força, por que o banco central não reduz os juros para estimular empresas e consumidores?

A resposta ajuda a entender uma característica importante da economia chinesa: juros mais baixos não são necessariamente a ferramenta mais eficaz quando o principal problema é a falta de disposição para gastar, investir ou tomar novos empréstimos.

Os dados divulgados em agosto mostraram enfraquecimento de alguns indicadores em julho. A produção industrial cresceu 4,5% em relação ao mesmo mês do ano anterior, abaixo do ritmo registrado em junho, enquanto as vendas no varejo avançaram apenas 0,6%. O investimento em ativos fixos também recuou nos primeiros sete meses do ano. Ao mesmo tempo, a demanda interna continua pressionada pela crise prolongada do mercado imobiliário e pela cautela de consumidores e empresas.

O problema não é apenas o preço do dinheiro

Em economias nas quais empresas e famílias estão dispostas a gastar, uma redução dos juros pode estimular a tomada de crédito. Financiamentos ficam mais baratos, empresas podem investir e consumidores podem antecipar compras. Mas esse mecanismo tem limites quando a confiança está baixa.

A China enfrenta justamente esse desafio. Mesmo com taxas de empréstimo já reduzidas em relação aos níveis de anos anteriores, a demanda por crédito enfraqueceu. Entre janeiro e julho, os novos empréstimos bancários somaram 10,4 trilhões de yuans, queda de 19% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados analisados pela Reuters. O comportamento das famílias também revela cautela: em vez de ampliar o endividamento, muitos consumidores continuam aumentando suas reservas financeiras.

Nesse cenário, cortar juros novamente poderia ter um efeito menor do que em outros momentos. Se uma família adia a compra de um imóvel por insegurança em relação à renda ou ao futuro do mercado, uma pequena redução na taxa do financiamento pode não ser suficiente para mudar sua decisão. O mesmo vale para empresas que não enxergam demanda suficiente para justificar novos investimentos.

É uma diferença importante: uma economia pode ter crédito barato e, ainda assim, pouca procura por crédito.

Os limites para novos cortes

Outro fator é a situação dos bancos chineses. As instituições financeiras vêm operando com margens de lucro próximas de mínimas históricas, o que reduz o espaço para cortes sucessivos nas taxas de empréstimo.

A margem líquida de juros dos bancos comerciais era de 1,41% no segundo trimestre, segundo dados citados pela Reuters. Embora tenha apresentado pequena melhora em relação ao trimestre anterior, o indicador permanece em nível baixo. Uma nova redução das taxas poderia aumentar a pressão sobre a rentabilidade do sistema bancário, especialmente se o custo de captação não caísse na mesma proporção.

Há ainda uma questão técnica. A LPR não é definida de forma isolada: ela está ligada ao conjunto de taxas e condições de financiamento estabelecidas pelo Banco Popular da China e pelas instituições que participam de sua formação. Com outras taxas de política monetária mantidas estáveis, não havia um sinal claro de que a LPR deveria cair neste momento.

Isso não significa que a política monetária chinesa tenha abandonado uma postura de apoio à economia. O banco central afirmou que continuará adotando uma orientação monetária relativamente flexível e poderá introduzir novas medidas quando considerar necessário. A diferença é que Pequim, por enquanto, não vê urgência em utilizar um corte generalizado de juros como principal resposta à desaceleração.

Pequim aposta mais na política fiscal

É nesse ponto que entra a principal alternativa: em vez de depender exclusivamente de juros mais baixos, o governo chinês pode atuar diretamente por meio da política fiscal.

Na prática, isso significa acelerar gastos públicos, antecipar investimentos e utilizar recursos orçamentários para estimular setores considerados estratégicos. Autoridades chinesas indicaram que pretendem acelerar a execução de projetos de infraestrutura já aprovados e ampliar medidas de apoio à economia no segundo semestre.

A diferença entre as duas estratégias é simples. Um corte de juros tenta tornar o crédito mais atraente e espera que empresas e consumidores respondam a esse estímulo. O gasto público, por outro lado, injeta recursos diretamente na economia por meio de investimentos, programas e subsídios.

Para Pequim, essa segunda opção pode oferecer maior controle sobre o destino dos recursos em um momento no qual a demanda privada continua fraca.

A estratégia também inclui instrumentos mais específicos. Em vez de apenas reduzir o custo do crédito para toda a economia, o governo e o banco central têm utilizado mecanismos direcionados para setores determinados, como serviços, tecnologia e outras áreas consideradas prioritárias. A intenção é estimular atividades selecionadas sem recorrer necessariamente a uma nova rodada ampla de expansão do crédito.

O que isso diz sobre a economia chinesa

A manutenção dos juros revela que o desafio da China não é simplesmente a falta de dinheiro disponível no sistema financeiro. O problema central está na transmissão desse dinheiro para a economia real.

Durante décadas, o crescimento chinês foi impulsionado por investimentos em infraestrutura, expansão industrial, urbanização e mercado imobiliário. Parte desses motores agora apresenta limites. O setor imobiliário continua em ajuste, a demanda interna permanece moderada e o investimento privado enfrenta um ambiente de maior cautela.

Ao mesmo tempo, a economia chinesa não está paralisada. Setores ligados à indústria, tecnologia e exportações continuam desempenhando papel importante, embora a desaceleração recente tenha mostrado que esse desempenho não elimina a fragilidade da demanda doméstica.

A decisão de manter a LPR em 3% e 3,5%, portanto, não deve ser interpretada simplesmente como uma escolha de “não estimular” a economia. Ela indica uma mudança na combinação de instrumentos utilizada por Pequim.

Em vez de responder automaticamente à desaceleração com novos cortes de juros, as autoridades parecem avaliar que o próximo impulso pode depender mais da política fiscal, da execução de investimentos já planejados e de medidas direcionadas a setores específicos.

Para o leitor brasileiro, a comparação pode ajudar: baixar os juros é como tornar um empréstimo mais barato; gastar diretamente em projetos, oferecer subsídios ou apoiar setores específicos é decidir onde parte do estímulo será aplicada. A China pode utilizar as duas estratégias, mas a decisão desta semana indica que, neste momento, Pequim não vê um novo corte generalizado de juros como sua ferramenta prioritária.

O movimento também não elimina a possibilidade de futuras reduções. Se a desaceleração se aprofundar ou se os estímulos fiscais não forem suficientes para fortalecer a demanda, o banco central ainda dispõe de instrumentos monetários para agir. Por enquanto, porém, a mensagem é diferente: diante de uma economia em que crédito mais barato não garante automaticamente mais consumo e investimento, o desafio deixou de ser apenas reduzir o custo do dinheiro e passou a ser criar condições para que famílias e empresas queiram utilizá-lo.

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