O Brasil se tornou, no primeiro semestre de 2026, o principal destino das exportações chinesas de veículos de nova energia (NEVs), superando a Bélgica, segundo dados da Associação Chinesa de Carros de Passageiros (CPCA). Entre janeiro e junho, as exportações chinesas dessa categoria para o mercado brasileiro alcançaram 299.803 unidades, alta de 158% em relação ao mesmo período de 2025.
O resultado coloca o mercado brasileiro em uma posição de destaque na expansão internacional da indústria automotiva chinesa. No mesmo período, a China exportou 2,42 milhões de veículos de nova energia, crescimento anual de 70%. Considerando todas as categorias de automóveis, o Brasil recebeu 410.825 veículos chineses entre janeiro e junho e ocupou a segunda posição entre os destinos, atrás apenas da Rússia. Em 2025, o país havia aparecido na quinta colocação desse ranking.
O avanço das vendas ocorre em paralelo a uma mudança na estratégia das montadoras chinesas. Em vez de depender exclusivamente do envio de veículos produzidos na China, empresas do setor passaram a estabelecer unidades industriais no Brasil, aproximando a produção dos consumidores e incorporando fornecedores e outras atividades ao mercado local.
A transformação é particularmente visível com a instalação de fábricas da BYD e da Great Wall Motor (GWM). Em Camaçari, na Bahia, a BYD iniciou em março de 2024 as obras de seu complexo industrial dedicado a veículos de nova energia. Segundo a fonte industrial citada pela Xinhua, em julho de 2026 o empreendimento alcançou a marca de 100 mil veículos de nova energia produzidos e contava com 5.500 funcionários.
A GWM, por sua vez, inaugurou em agosto de 2025 sua primeira fábrica nas Américas, em Iracemápolis, no interior de São Paulo. A unidade iniciou a produção com modelos híbridos e veículos equipados com motores a combustão e possui capacidade anunciada de 50 mil unidades por ano. A montadora também anunciou um centro de pesquisa e desenvolvimento para a América Latina.
O movimento não se restringe às duas empresas. Em novembro de 2025, a Renault, da França, e a Geely, da China, anunciaram um investimento de R$ 3,8 bilhões no Paraná, com uma parceria voltada à pesquisa, ao desenvolvimento e à produção de veículos de nova energia, segundo os dados apresentados pela Xinhua.
A presença industrial chinesa também altera a natureza da relação comercial no setor automotivo. A expansão deixa de estar concentrada apenas na importação de veículos prontos e passa a envolver produção, tecnologia, empregos e fornecedores. Essa mudança é apontada por Cui Dongshu, secretário-geral da CPCA, como um dos fatores que contribuíram para o crescimento das exportações chinesas de NEVs para o Brasil.
O contexto brasileiro também apresenta desafios para a continuidade desse crescimento. Desde 2024, o governo federal vem retomando gradualmente a cobrança do imposto de importação sobre veículos elétricos e híbridos. Segundo o cronograma citado na reportagem da Xinhua, a alíquota para veículos eletrificados importados chegou a 35% em julho de 2026. Para modelos semidesmontados, a tarifa passou igualmente a 35%, enquanto veículos desmontados permanecem com alíquota reduzida até o fim do ano, antes de uma nova elevação prevista para janeiro de 2027.
As novas condições tornam a produção local ainda mais relevante para as montadoras que pretendem ampliar sua participação no mercado brasileiro. A estratégia permite às empresas reduzir a dependência das importações de veículos completos e, ao mesmo tempo, estabelecer uma presença industrial de longo prazo.
Os números, contudo, mostram que a expansão chinesa enfrenta um cenário de competição cada vez mais amplo. Em junho, o crescimento anual das vendas de veículos de nova energia de marcas chinesas no mercado brasileiro foi de 2%, segundo os dados apresentados na reportagem, enquanto mercados como Bélgica e Reino Unido registraram taxas superiores a 100%. O desempenho indica que a posição alcançada pelo Brasil no primeiro semestre não elimina os desafios para a manutenção desse ritmo.
Para Liu Yan, especialista da Aliança para a Inovação e o Desenvolvimento Internacional das Montadoras Chinesas, a expansão internacional do setor exige uma estratégia que vá além da exportação de produtos. A construção de ecossistemas industriais e a adaptação das marcas aos mercados locais passam a integrar a estratégia das empresas chinesas em sua internacionalização.
A avaliação também encontra respaldo na experiência brasileira. O país reúne um mercado automotivo de grande escala e uma matriz energética considerada relativamente limpa, além de competências em áreas como biocombustíveis. Carlos Augusto Serra Roma, diretor técnico da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), afirmou que a combinação dessas características com a capacidade industrial e tecnológica chinesa abre espaço para ampliar a cooperação em tecnologias de baixo carbono.
A trajetória dos veículos de nova energia chineses no Brasil, assim, passa a combinar comércio e industrialização. O crescimento das importações abriu espaço para uma presença mais permanente das montadoras, enquanto a instalação de fábricas cria novas possibilidades de integração entre empresas chinesas e a economia brasileira.
Mais do que ampliar a quantidade de veículos vendidos, a evolução do setor aponta para uma relação econômica que incorpora produção local, pesquisa, tecnologia e formação de cadeias industriais. O desempenho do primeiro semestre de 2026 coloca o Brasil no centro dessa transformação e reforça o peso dos veículos de nova energia como uma das áreas de maior aproximação entre os mercados brasileiro e chinês.











