Uma missão formada por seis empresas brasileiras de tecnologia iniciou nesta terça-feira, 22 de setembro, uma agenda de negócios em Xangai voltada a cidades inteligentes, inteligência artificial, mobilidade, sustentabilidade e digitalização de serviços públicos. A iniciativa integra o programa Soft Landing Global – China 2026, promovido pela Softex Global em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
A delegação participa do Tomorrow.City Shanghai, encontro internacional que reúne governos, empresas, universidades e centros de pesquisa no Zhangjiang Science Hall. Segundo a organizadora Fira de Barcelona, a edição de 2026 conta com mais de 180 especialistas e cerca de cem empresas e instituições, com expectativa de superar 5 mil participantes. A missão brasileira segue até 26 de setembro e inclui exposição, painéis, reuniões empresariais e visitas técnicas ao ecossistema de inovação da cidade.
Empresas buscam validar soluções no mercado chinês
A Softex informou que as companhias brasileiras selecionadas atuam em automação de testes, comércio eletrônico entre empresas, análise de desempenho de equipes de tecnologia, atendimento digital para turismo e eventos e software de gestão. O objetivo imediato não é anunciar contratos já fechados, mas testar propostas de valor, compreender demandas locais e estabelecer contato com potenciais clientes, investidores e parceiros.
No primeiro dia, representantes das seis empresas brasileiras e de nove companhias chinesas participaram de apresentações técnicas, reuniões individuais e atividades de relacionamento. Esse formato reduz uma das principais barreiras à internacionalização: a dificuldade de transformar visitas institucionais em conversas comerciais com interlocutores compatíveis. Ainda assim, reuniões e manifestações de interesse não equivalem a vendas, investimento contratado ou entrada efetiva no mercado.
Hamilton José Mendes, diretor do Departamento de Ciência, Tecnologia e Inovação Digital do MCTI, apresentou aspectos do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial. O programa prevê R$ 23 bilhões em investimentos até 2028 em formação de talentos, infraestrutura, inovação e aplicações em serviços públicos. A presença em Xangai também permite comparar prioridades brasileiras com soluções urbanas desenvolvidas na China em transporte, energia, governança digital e uso de dados.
Cooperação pode diversificar a pauta bilateral
A relação econômica entre Brasil e China continua fortemente apoiada em commodities brasileiras e bens industriais chineses. Missões de empresas de software podem ampliar essa pauta ao criar espaço para exportação de serviços, licenciamento de tecnologia, desenvolvimento conjunto e participação em cadeias digitais. Para o Brasil, o ganho potencial está menos no volume imediato de negócios e mais na capacidade de empresas nacionais aprenderem a operar em um mercado de grande escala e alta concorrência.
O processo exige cautela. Produtos digitais precisam ser adaptados a idioma, meios de pagamento, proteção de dados, padrões técnicos e práticas comerciais locais. Parcerias com empresas chinesas podem acelerar essa adaptação, mas dependem de contratos claros sobre propriedade intelectual, hospedagem de dados, suporte ao cliente e divisão de receitas. Empresas brasileiras também devem avaliar custos de presença permanente e requisitos regulatórios antes de assumir compromissos.
Para companhias chinesas interessadas no Brasil, a delegação oferece contato com fornecedores capazes de adaptar soluções a municípios e empresas latino-americanas. Áreas como gestão urbana, atendimento público, mobilidade e eficiência operacional têm demanda crescente no país, especialmente quando projetos combinam tecnologia com capacitação local e integração a sistemas já existentes.
O resultado da missão deverá ser medido após o evento: projetos-piloto, contratos, investimentos e alianças tecnológicas serão indicadores mais concretos do que o número de reuniões. A agenda em Xangai, porém, já sinaliza uma tentativa de inserir pequenas e médias empresas brasileiras em uma dimensão ainda pouco explorada da relação bilateral — a internacionalização de tecnologia produzida no Brasil.



