A China e a África do Sul discutiram novas possibilidades de cooperação no setor energético, com atenção à expansão da geração de eletricidade, modernização das redes de transmissão e desenvolvimento de energias de menor emissão. O tema esteve no centro de uma reunião realizada em Pequim entre o vice-diretor da Administração Nacional de Energia da China, Wang Jianbo, e o ministro de Eletricidade e Energia da África do Sul, Kgosientsho Ramokgopa, durante uma missão sul-africana voltada à atração de investimentos e parceiros tecnológicos para o setor.
Segundo a Administração Nacional de Energia da China, Wang Jianbo afirmou que a energia é uma área prioritária da cooperação bilateral e que Pequim está disposta a ampliar o intercâmbio com a África do Sul em planejamento energético, energia limpa, redes elétricas e inovação tecnológica. O dirigente também mencionou os mecanismos de cooperação intergovernamental existentes e plataformas como a Iniciativa do Cinturão e Rota e o BRICS como instrumentos para aprofundar as relações entre os dois países.
Ramokgopa, por sua vez, apresentou o Plano Integrado de Recursos 2025 da África do Sul, documento que estabelece as diretrizes para a expansão do sistema elétrico do país. O ministro afirmou que as novas energias estão entre as prioridades do desenvolvimento futuro e que Pretória pretende ampliar a cooperação com a China em políticas públicas, planejamento, investimentos e intercâmbio técnico.
A reunião ocorreu durante uma missão oficial sul-africana à China, realizada entre os dias 3 e 6 de agosto, que incluiu encontros com empresas e instituições ligadas ao setor elétrico. A agenda teve como objetivo apresentar as necessidades da África do Sul e buscar parceiros para projetos relacionados à geração, transmissão, energias renováveis e fabricação de equipamentos destinados à infraestrutura elétrica.
O planejamento sul-africano prevê uma expansão significativa da capacidade do sistema. De acordo com o Plano Integrado de Recursos 2025, o país deverá ampliar a participação das fontes renováveis e adicionar novas linhas de transmissão para acompanhar o crescimento da geração. O documento prevê cerca de 14.500 quilômetros de novas linhas de transmissão até 2034, em um esforço para conectar áreas com potencial de geração aos principais centros consumidores.
A expansão da transmissão é considerada uma das principais necessidades do sistema energético sul-africano. O crescimento da geração renovável em regiões com grande potencial solar e eólico exige investimentos simultâneos em redes capazes de transportar a eletricidade para outras partes do país. Nesse contexto, a cooperação com fabricantes estrangeiros é apresentada pelo governo sul-africano como uma possibilidade para acelerar a construção da infraestrutura necessária.
Durante a missão à China, seis fabricantes de equipamentos originais demonstraram interesse em participar da expansão da rede elétrica sul-africana. Segundo o governo da África do Sul, três empresas chinesas também manifestaram compromisso de avançar na instalação de capacidade produtiva no país para equipamentos como transformadores, cabos e torres de transmissão. Os anúncios, porém, ainda fazem parte de um processo de estruturação de investimentos e não representam, por si só, a conclusão de projetos industriais.
A possibilidade de produção local é um dos elementos de maior interesse para Pretória. Além de ampliar a infraestrutura elétrica, o governo sul-africano busca utilizar os novos investimentos para fortalecer a capacidade industrial nacional, criar oportunidades para empresas locais e desenvolver conhecimentos técnicos relacionados à fabricação e manutenção de equipamentos utilizados no sistema de transmissão.
A agenda bilateral também avançou em outras áreas da transição energética. Durante a visita, foi anunciado um acordo entre o National Radioactive Waste Disposal Institute, da África do Sul, e a China National Nuclear Corporation para cooperação em tecnologias relacionadas ao armazenamento e à disposição de resíduos radioativos. O entendimento prevê intercâmbio de conhecimentos e experiências entre as instituições.
Outro projeto discutido envolve a produção de hidrogênio verde. A empresa sul-africana Sasol e a chinesa Envision avançaram em uma iniciativa para desenvolver um sistema de hidrogênio verde em Sasolburg, com perspectiva de utilização do produto na produção de e-metanol e, posteriormente, em combustíveis sustentáveis para a aviação. O projeto amplia o escopo da cooperação energética para além da geração e transmissão de eletricidade.
A aproximação ocorre em um momento em que a África do Sul procura acelerar a transformação de seu sistema energético e reduzir as limitações de infraestrutura que dificultam a expansão da geração. Para a China, a cooperação abre espaço para a participação de empresas de equipamentos, tecnologia e energia em um mercado que deverá demandar investimentos expressivos nos próximos anos.
Apesar dos avanços registrados durante a missão, os resultados anunciados até o momento devem ser tratados como parte de um processo de prospecção, negociação e estruturação de projetos. A eventual instalação de fábricas, participação de empresas chinesas em empreendimentos de transmissão ou realização de novos investimentos dependerá da formalização dos acordos e da conclusão das etapas necessárias para cada projeto.
A reunião entre Wang Jianbo e Ramokgopa, portanto, insere-se em uma agenda mais ampla de cooperação entre China e África do Sul, na qual energia, tecnologia e desenvolvimento industrial aparecem como áreas de interesse comum. A expansão das redes elétricas e das fontes renováveis poderá se tornar um dos principais campos para o aprofundamento da parceria bilateral, enquanto Pretória busca combinar capital e tecnologia estrangeiros com o fortalecimento de sua própria capacidade produtiva.



