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terça-feira - 17 março 2026 - 17:20
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Comida como oferenda, mas para “deuses” humanos

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Comida como oferenda, mas para “deuses” humanos

Poderia contar um pouco da sua trajetória na gastronomia que já lhe rendeu até um MasterChef?
Sou formada em Estatística, mas não gostei de trabalhar na área. Meu sonho sempre foi cozinhar. Naquela época, no Brasil, tinha acabado de inaugurar a primeira faculdade de gastronomia, mas meu pai queria que eu estudasse na USP (Universidade de São Paulo). Então me formei em Estatística, mas com um pensamento em mente: “Vou trabalhar, ganhar dinheiro e depois abrir meu restaurante.” Após um ano trabalhando, percebi que estava quase entrando em depressão. Saí do emprego e decidi começar do zero na gastronomia. Nessa época, alguns amigos falaram da inscrição para o MasterChef Brasil. Eu dizia que não tinha perfil, mas quando abriu a segunda temporada, resolvi tentar. Fiz a inscrição, gravei o vídeo, participei e fiquei em terceiro lugar. A partir daí, adquiri muita experiência e comecei a trabalhar profissionalmente com gastronomia. Hoje atuo como consultora, assino cardápios, inclusive para redes de fast food, e já apresentei programas de TV. Fiz muitas coisas nesse percurso.

A comida aproximando culturas…
Com certeza. Essa troca cultural cresceu muito e a alimentação é uma ponte importante para diminuir distâncias. Veja hoje, no dia a dia. Em São Paulo, você encontra comida de praticamente qualquer país. Mas há 10 ou 15 anos não era assim. Se você quisesse pedir algo à noite, basicamente só havia pizza ou hambúrguer. Hoje há comida asiática, africana, espanhola, italiana, tailandesa…

E o que você pode falar sobre o papel simbólico da comida para os chineses?
Para os chineses, celebrar é comer bem. Toda ocasião importante está ligada à comida. Nessas celebrações, sempre há algo para servir de oferenda e pedir proteção para algum deus. Há deus para tudo na China: deus do dinheiro, deus do casamento, deus da saúde, deus das crianças, deus dos animais, deus do o comércio… Todo ramo tem um deus de proteção – lembrando que a ideia de deus não é a mesma daqui; é mais relacionada a pessoas que tiveram vidas heroicas e se tornaram exemplos. É algo mais parecido com o que a religião no Brasil chama de santo.

Pelo pouco que sei, é algo mais ligado ao exemplo, né?
A maioria desses deuses foi composta por pessoas de verdade, gente que existiu e que temos como referência, como exemplos pela vida que tiveram ou por atos heroicos. Depois, quando morreram, viraram “deuses”. A comida faz parte de vários rituais em datas especiais…

Tipo o Ano Novo Chinês, comemorado este ano em 17 de fevereiro, né?
Sim, faz parte de vários rituais e cada região tem suas tradições. No Norte da China come-se o jiaozi (trouxinhas chinesas); já no Sul, come-se o nian gao, bolinho de arroz glutinoso, que simboliza crescimento e prosperidade. No Festival do Barco-Dragão, a gente tem que comer pamonha. Come-se também o zongzi (arroz embrulhado em folha de bambu ou bananeira). No Festival da Lua, o tradicional é o “bolo da lua”. Cada data tem um alimento específico, muitas vezes ligado a oferendas e significados simbólicos. Entre outros exemplos, no Sul, faz-se o mochi como oferenda aos ancestrais, pedindo proteção para o novo ano. E muitas dessas comidas, como o zongzi, têm origem em histórias de rituais em homenagem a pessoas que admiravam. Nesse caso específico, o zongzi está ligado a uma história que remete ao suicídio de um poeta muito admirado que se jogou num rio. Para que os peixes não comessem seu corpo, as pessoas que gostavam dele jogavam arroz na água para os animais se alimentarem dele. Depois, esse gesto virou tradição e homenagem.

Por que a comida tem tanta importância nessas celebrações?
A China passou por guerras e desastres naturais. O maior desejo do povo sempre foi ter o que comer, encher a barriga. Muitas festas coincidem com pausas no calendário agrícola, como o fim da colheita ou a chegada da primavera. O Ano Novo dura cerca de 20 dias. É um período de visitar parentes e participar de muitos banquetes. Sempre há fartura – é melhor sobrar do que faltar. Hoje, com mais prosperidade, as mesas ficaram ainda mais elaboradas. Mas, na minha infância, as comidas eram simples e relacionadas ao que estava disponível localmente.

“Uma pergunta frequente é se chineses comem cachorro. Eu costumo responder perguntando se brasileiros comem tatu.”

Existe alguma etiqueta importante à mesa na China?
Sim. Nunca se deve fincar os kuaizi (os pauzinhos chineses, como os hashis japoneses) na tigela de arroz, pois isso lembra incenso usado em oferendas aos mortos, e pode ser considerado desrespeitoso. Outra coisa comum é o anfitrião servir constantemente o convidado. É um gesto de carinho. Recusar pode parecer indelicado, é preciso fazê-lo com gentileza. A fartura demonstra hospitalidade.

Você sentiu diferença entre a alimentação chinesa e a brasileira?
Sim. Na China consumimos muitos legumes. Aqui no Brasil, tirando São Paulo, senti dificuldade, porque não há muita variedade para o meu hábito. Também percebo diferença na aceitação de miúdos. Na China consumimos praticamente todas as partes do animal. No Brasil, isso é menos comum e, às vezes, há preconceito. Uma pergunta frequente que me fazem é se chineses comem cachorro. Eu costumo responder perguntando se brasileiros comem tatu. São escolhas históricas ligadas à disponibilidade de proteína.

Qual a sua percepção sobre o hot pot ter virado uma febre em São Paulo?
O hot pot moderno vem principalmente da região de Sichuan, conhecida pelo uso de pimenta. Surgiu como comida popular, prática e energética para trabalhadores. Hoje é popular porque é democrático: cada um escolhe o que quer comer, é rápido e informal. Como cozinheira, eu não gosto muito, porque o sabor depende mais do caldo temperado do que da técnica. Mas reconheço que é prático e social.

Se alguém for à China, o que não pode deixar de experimentar?
A China é enorme, depende muito da região. Em Pequim, o pato laqueado é um clássico. Em Xangai, há pratos de porco muito característicos. No Norte, as trouxinhas, jiaozi. No Cantão, o dim sum no café da manhã é uma experiência incrível. Também recomendo visitar mercados e experimentar comidas de rua. A variedade é imensa!

A China mudou muito em pouco tempo. Como você percebe essa evolução na alimentação?
Mudou em tudo: qualidade de vida, educação, nutrição. Antigamente, consumíamos pouquíssima proteína. Hoje a alimentação é muito mais rica e variada. Mas também já se percebem diferenças entre classes sociais na qualidade da alimentação. Isso é uma realidade atual.

Há semelhanças entre a gastronomia chinesa e brasileira?
Sim. No Nordeste brasileiro a mesa também é farta e coletiva, com muitos pratos ao mesmo tempo, isso me lembra bastante a tradição chinesa.

E tem a influência da China nos tradicionais pasteis, tão apreciados nas feiras em São Paulo, não é?
Os pasteis feitos aqui, fazemos lá também na região do Cantão como uma oferenda em formato de uma meia-lua frita com recheio doce. Aqui, já foram adaptados e são servidos também com recheio salgado, como carne ou queijo; e, para facilitar, foram feitos em formato quadrado ou retangular.

O que você destacaria sobre a gastronomia chinesa?
A gastronomia chinesa é muito mais diversa do que se imagina. Não é só hot pot. Existem cozinhas regionais extremamente sofisticadas e também comidas populares incríveis. Hoje, na China, há um crescimento enorme das redes de chá com leite e sobremesas. Em algumas ruas há várias lojas da mesma marca lado a lado. É impressionante a velocidade de expansão e a tecnologia envolvida no serviço. Eu vejo cada vez mais aproximação entre China e Brasil. E a comida é uma das grandes pontes dessa conexão.

Fonte: conexaoasia.com.br
https://conexaoasia.com.br/comida-como-oferenda-mas-para-deuses-humanos/

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