Safra recorde de café amplia espaço para o Brasil no mercado chinês

A produção brasileira de café deve alcançar 67,6 milhões de sacas de 60 quilos em 2026, a maior marca da série histórica da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O resultado ocorre em um momento de crescimento da demanda mundial e de expansão do mercado chinês, que vem aumentando as compras do produto brasileiro e abrindo espaço para cafés de maior valor agregado.

O terceiro levantamento da Conab, divulgado em 24 de setembro, estima uma produção 19,6% superior à de 2025. A área em produção deve crescer 5,1%, para 1,95 milhão de hectares, enquanto a produtividade média nacional deve avançar. O café arábica responde pela maior parcela da produção, com estimativa de 48,2 milhões de sacas, alta de 33% sobre o ciclo anterior.

O aumento da oferta brasileira ocorre depois de um período de menor disponibilidade do grão no mercado externo. Segundo a Conab, o Brasil exportou 3,8 milhões de sacas em agosto, alta de 43,2% em relação ao mesmo mês de 2025. No acumulado de janeiro a agosto, porém, os embarques somaram 24,6 milhões de sacas, queda de 6,6% na comparação anual, refletindo principalmente o desempenho dos primeiros meses do ano.

Os dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) mostram que a China já ocupa um espaço relevante nesse fluxo. Em 2025, o país asiático importou 1,123 milhão de sacas de café brasileiro, aumento de 19,5% em relação ao ano anterior. Com esse resultado, a China entrou pela primeira vez entre os dez principais destinos do café exportado pelo Brasil naquele ano.

O mercado chinês também apresenta características que ampliam as possibilidades para os produtores brasileiros. Relatório do Serviço Agrícola Estrangeiro do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) estima que o mercado de café da China movimentou US$ 42 bilhões em 2024, com consumo superior a 240 mil toneladas. Segundo o levantamento, o consumo cresceu cerca de 150% em uma década e a demanda deve continuar avançando aproximadamente 15% ao ano.

O movimento não se restringe ao café convencional. Em 2026, produtores brasileiros passaram a ampliar iniciativas voltadas ao segmento de cafés especiais no país asiático. Uma missão comercial realizada em abril levou 19 empresários brasileiros a Qingdao e Xangai e gerou US$ 1,34 milhão em negócios já fechados, enquanto outros US$ 108,55 milhões foram projetados para os 12 meses seguintes. O valor projetado não representa vendas já realizadas, mas oportunidades comerciais estimadas a partir da missão.

Também em 2026, a Expocacer, cooperativa de produtores do Cerrado Mineiro, iniciou uma parceria com a empresa chinesa Donna Jannie para comercializar na China microlotes produzidos por mulheres integrantes do programa Elas no Café. O primeiro carregamento deixou o Brasil em junho com destino a Xangai, dentro de uma estratégia voltada ao segmento premium.

A ampliação do acesso ao mercado chinês também avançou no campo regulatório. Em 2025, novas empresas brasileiras foram habilitadas para exportar café à China. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, o café em grão cru é reconhecido pelas autoridades chinesas como produto de comércio tradicional, sujeito aos procedimentos de registro e às exigências sanitárias estabelecidas pela Administração-Geral das Alfândegas da China (GACC).

A aproximação entre os dois mercados ocorre ainda em um ano de maior atenção às relações econômicas e culturais entre Brasil e China. Em setembro, durante a Feira Internacional de Investimento e Comércio da China, em Xiamen, um espaço dedicado à cooperação Brasil-China no âmbito do BRICS apresentou iniciativas relacionadas à cadeia produtiva do café. O projeto reuniu a chinesa Luckin Coffee e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil).

Para o mercado brasileiro, a combinação entre aumento da produção e crescimento da demanda internacional amplia a disponibilidade do produto para exportação. Para a China, a expansão do consumo cria novas possibilidades de fornecimento, desde o café convencional até produtos especiais e de maior valor agregado. A dimensão desse movimento, contudo, dependerá da evolução dos preços internacionais, da demanda chinesa e da capacidade dos exportadores brasileiros de ampliar sua presença no mercado asiático.

A própria Conab aponta que a produção mundial de café também deve atingir recorde na temporada 2026/27, estimada em 189,7 milhões de sacas, enquanto o consumo global deve chegar a 179,7 milhões. A China aparece entre os mercados em expansão citados pela estatal, ao lado de centros tradicionais de consumo como Europa, Estados Unidos e Brasil.

Nesse cenário, a safra recorde brasileira não representa apenas um aumento no volume produzido dentro do país. Ela ocorre simultaneamente à transformação do mercado consumidor chinês e ao avanço de iniciativas comerciais entre os dois países, colocando o café como um dos produtos capazes de conectar produção agrícola, comércio exterior e mudanças nos hábitos de consumo na relação Brasil-China.

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