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Para além do que é visto

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Para além do que é visto

Poderiam falar um pouco sobre a produção da minhwa hoje?
Prof. Song Chang-su: Atualmente, a produção e as atividades relacionadas à minhwa na Coreia podem ser resumidas em uma tendência de expansão conjunta entre a minhwa de reprodução, que recria fielmente os ícones tradicionais, e a minhwa criativa/contemporânea, que reinterpreta cores, composições e temas de forma moderna. Grande parte das atividades ocorre por meio de associações e organizações que promovem concursos, exposições coletivas e mostras temáticas, funcionando como plataformas para descoberta de novos artistas, formação de redes e consolidação de trajetórias. Nos últimos anos, a minhwa também tem ultrapassado o âmbito de atividades isoladas, como exposições e premiações, expandindo-se para a produção de produtos culturais, colaborações com marcas e criação de conteúdo. É perceptível uma diversificação no portfólio dos artistas, que conciliam a exibição de obras em formatos tradicionais, como biombos, quadros e pergaminhos, com projetos de ilustração e design. Além disso, as exposições tendem a se descentralizar, ocorrendo menos em grandes museus e mais em galerias, espaços multiculturais e centros culturais locais, ampliando o ponto de contato com o público no cotidiano. 

O Prof. Song liderou a criação do primeiro curso universitário de minhwa na Coreia do Sul, institucionalizando essa tradição como área acadêmica formal. Qual tem sido o impacto?
Prof. Song Chang-su: Com a abertura do curso de mestrado em minhwa na Dongduk Women’s University, a escolha de especialização por parte dos alunos passou a se dividir, em geral, em duas categorias: a primeira é a demanda por aprender a minhwa tradicional de forma sistemática por meio de aulas regulares, reorganizando desde os materiais e técnicas até a iconografia, enquanto a segunda é a demanda por conectar a tradição à uma interpretação moderna, resultando em criações autorais e individuais, incluindo a expansão de suportes e formatos. O curso propõe superar o modelo tradicional de aprendizagem mestre-aprendiz em ateliês, comum ao gênero da minhwa, a fim de formar artistas que compreendem a historicidade e a identidade da tradição e que são capazes de expandir a arte para a cultura visual e linguagem do século XXI. O corpo discente inclui artistas com experiência prévia em minhwa e também estudantes formados em pintura, design ou artes visuais, o que amplia a diversidade das produções. O currículo combina prática tradicional com estudos sobre materiais como hanji, pigmentos e corantes, conduzindo à reinterpretação contemporânea. O objetivo educacional é dominar a composição, a forma e a coloração baseadas em temas e técnicas tradicionais para consolidar a “base da releitura moderna” e, indo além da reprodução tradicional, expandir para o universo plástico da minhwa contemporânea. Desta forma, os resultados acadêmicos dividem-se em dois eixos: primeiro, o estabelecimento de uma estrutura acadêmica para a minhwa dentro de um currículo sistemático de pós-graduação, superando o foco em aulas particulares ou oficinas; em segundo, o arquivamento desses resultados como produções institucionais, como exposições de conclusão de curso, conectando a base tradicional à expansão moderna.

O Prof. Kim Min é especialista em conservação e restauração de patrimônio cultural, conciliando a prática artística contemporânea com a preservação de técnicas tradicionais. Qual é o reconhecimento e o apoio existentes por parte de órgãos públicos?
Prof. Kim Min: Para que as técnicas tradicionais sejam utilizadas na preservação do patrimônio cultural público, é necessário um sistema institucional que garanta sua transmissão. Áreas como as de pintores tradicionais, copistas e especialistas em dancheong (pintura decorativa tradicional) têm seu profissionalismo reconhecido publicamente por meio de certificações oficiais reconhecidos pelo governo, que lhes permitem atuar diretamente em projetos de preservação e restauração. Além disso, com a realização paralela de projetos públicos, como a investigação e pesquisa de materiais de tecnologia tradicional e o Banco de Artesanato Tradicional (전승공예품은행), pode-se dizer que as técnicas tradicionais estão recebendo apoio estatal tanto como objetos de preservação quanto como ativos tecnológicos utilizáveis.

As empresas privadas sul-coreanas são reconhecidas pelo mecenato corporativo, investindo em arte e cultura dentro e fora do país. Como a minhwa se beneficia disso?
Prof. Song Chang-su: O maior benefício que a minhwa obtém por meio do mecenato corporativo é a expansão da infraestrutura de pesquisa e do seu mercado. Por exemplo, o Museu de Arte da Amorepacific, administrado por uma empresa, realiza exposições de minhwa em larga escala, como a mostra artística “Beyond Joseon Minhwa”, reunindo e exibindo acervos públicos e privados. Ao mesmo tempo, a publicação de catálogos com imagens de alta resolução e comentários eleva o status acadêmico e popular da minhwa. Além disso, ao se unir a marcas e empresas, a minhwa insere-se no mercado cotidiano por meio de produtos licenciados, souvenirs e bens culturais, diversificando as fontes de renda para artistas e instituições. No entanto, ao contrário de arte contemporânea em geral, ainda há pouca oferta de programas de apoio direto ou de formação de artistas, tornando necessário o aumento de investimentos.

A chamada K-Culture, impulsionada por fenômenos globais como o K-pop e os K-dramas, vem projetando a cultura coreana para o mundo. De que maneira essa visibilidade internacional também ajuda a despertar ou aumentar o interesse por tradições mais antigas, como a minhwa? 
Prof. Song Chang-su: A visibilidade internacional da K-Culture transformou a cultura coreana em uma marca familiar para o público estrangeiro, despertando neles o desejo de conhecer a cultura tradicional mais profundamente, expandindo, inclusive, para uma curiosidade pelas artes tradicionais. Na prática, esse interesse traduz-se em uma demanda por exposições, workshops e palestras de minhwa, a essência da arte tradicional coreana, no exterior. Isto também contribuiu para que instituições públicas, como os Centros Culturais Coreanos, realizem projetos destinados à promoção da cultura tradicional além da cultura pop.

Em um momento em que a Coreia do Sul amplia sua influência cultural global, inclusive em plataformas como a Netflix, qual é o papel das artes tradicionais na construção dessa narrativa cultural contemporânea? A minhwa pode ser vista como parte dessa estratégia de valorização da identidade coreana no cenário internacional?
Prof. Song Chang-su: Com a expansão global do conteúdo coreano (K-content) por meio de plataformas como a Netflix, as artes tradicionais contribuem no aprofundamento da narrativa cultural contemporânea, adicionando a estética das raízes e da identidade coreana a essa popularidade. Os elementos tradicionais ajudam a ir além da tendência passageira, apresentando e explicando a essência coreana e despertando a curiosidade do público estrangeiro. A minhwa pode, sim, ser considerada parte dessa estratégia de valorização e redescoberta da identidade coreana, sendo frequentemente apresentada em exposições internacionais dentro do contexto da arte tradicional coreana.

De alguma maneira o mercado arquitetônico ou imobiliário se utiliza dessa prática cultural?
Prof. Song Chang-su: Ainda não se pode dizer que a minhwa esteja estabelecida como uma palavra-chave padrão no marketing imobiliário. No entanto, existem casos em que a minhwa é utilizada indiretamente em uma tendência de integrar iconografia e padrões tradicionais à ambientação de espaços. Um exemplo representativo é a crescente curadoria de obras em saguões de edifícios residenciais e comerciais, organizados como pequenas galerias de arte, onde obras de minhwa são exibidas em exposições permanentes ou rotativas.

“A IA deve servir como um catalisador para ampliar o interesse pela tradição e levar as pessoas em direção às obras reais.”

A arte coreana também é reconhecida por integrar inovações às obras. De que maneira a minhwa pode se beneficiar de tecnologias como a digital?
Prof. Song Chang-su: Com o uso da tecnologia digital, a minhwa pode se expandir para além do papel, tornando-se um conteúdo acessível para visualizar, aprender, exibir e distribuir. Assim como em um museu, é possível apresentar as cores e os símbolos da minhwa através de experiências imersivas com telas gigantes e cenografia espacial, ou ainda utilizar Realidade Aumentada para projetar elementos da minhwa no espaço real, permitindo que o público participe e interaja diretamente. Em exposições no metaverso, a acessibilidade pode ser ampliada por meio de um aprendizado lúdico, como montar sua própria composição de Chaekgeori (estilo que apresenta estantes de livros) com adesivos digitais. Além disso, a IA generativa auxilia no esboço de ideias ao permitir experimentos rápidos e repetitivos com iconografia, composição e cores. Já a arte midiática, que combina 3D, IA e grandes instalações de mídia, traduz a minhwa para a linguagem das exposições modernas a fim de ampliar o contato com o público jovem. Por fim, no exterior, a minhwa pode se desenvolver como uma linguagem visual que explica a identidade coreana por meio de exposições online, virtuais e em centros culturais, reduzindo as barreiras de entrada para diversos públicos.

Que tipos de vantagens e desafios a arte folclórica enfrenta em tempos da chamada Inteligência Artificial?
Prof. Kim Min: Acredito que a era da IA traz, simultaneamente, oportunidades e desafios para a arte popular. A IA é uma ferramenta extremamente eficaz em termos de registro, preservação, tradução, educação e acessibilidade. Tornou-se possível organizar e compartilhar mais rapidamente informações sobre técnicas de fabricação e culturas tradicionais que antes estavam limitadas a certas regiões, além de ter criado um ambiente onde as gerações mais jovens podem se aproximar da arte popular com mais facilidade. Há vantagens claras, especialmente no acúmulo e na disseminação digital de materiais culturais tradicionais que corriam o risco de desaparecer. No entanto, a tradição não se completa apenas no nível do conhecimento da informação. Uma transmissão viva só é possível quando acompanhada pelo processo de manusear materiais tradicionais, dominar técnicas ancestrais e vivenciar diretamente a presença física e o sentido corporal de onde ela se originou. Nesse sentido, embora o contato com a tradição por meio da IA possa ser um ponto de partida, ele não significa, por si só, uma compreensão suficiente da tradição. Pelo contrário, vejo que a IA deve servir como um catalisador para ampliar o interesse pela tradição e levar as pessoas em direção às obras reais, aos locais de origem e aos processos de criação.

Em um mundo cada vez mais globalizado, no qual a internet permite a qualquer pessoa conectada visualizar obras de qualquer lugar do mundo sem sair do sofá, qual é a importância de visitar uma exposição, olhar de perto uma obra e conhecer a biografia e o portfólio de um artista?
Prof. Kim Min: Na era digital, a apreciação online tem vantagens claras. De fato, museus de renome mundial fornecem centenas de milhares de imagens em acesso aberto, ampliando o ambiente onde qualquer pessoa pode ter contato com as obras de casa. No entanto, a experiência de ver uma exposição pessoalmente ainda é difícil de substituir. Através da tela, vê-se a imagem; porém, no local da exposição, leem-se simultaneamente informações materiais como o tamanho da obra, a espessura da camada de pigmentos, a textura do papel e da seda, o reflexo e a refração da luz que mudam conforme a posição de quem observa e a velocidade da pincelada. Especialmente em gêneros como a minhwa, onde a cor, a textura e o ritmo da tela são cruciais, a densidade e a respiração da obra são frequentemente transmitidas apenas quando se vê o objeto real. Além disso, uma exposição não é apenas o ato de ver uma única obra, mas também um processo de compreensão da vida do artista e do seu mundo de trabalho dentro de um contexto. As exposições em museus ajudam a interpretar as obras de forma nova por meio de explicações, fluxo de movimento, justaposição e contexto histórico. A mesma obra pode ser lida com um significado completamente diferente dependendo do contexto da exposição em que é colocada. Portanto, pode-se dizer que ver uma exposição pessoalmente não é consumir uma imagem, mas encontrar a obra e o artista de forma tridimensional.

A minhwa é uma arte onde a textura e as camadas criadas pelos materiais são tão importantes quanto a imagem final.”

Além de visitarem a exposição, o que vocês sugeririam para quem tem interesse em se aprofundar na minhwa?
Prof. Kim Min: Eu sugeriria, primeiro, mudar um pouco a maneira de observar as pinturas. Ao olhar para temas familiares como o tigre, as estantes de livros ou as pinturas de flores e pássaros, não pare apenas no “é bonito”. Se você observar porque esses temas foram repetidos, quais símbolos eles contêm e quais desejos e visões de mundo foram expressos na tela, a leitura será muito mais rica. Como a minhwa é, ao mesmo tempo, uma pintura decorativa e uma linguagem de anseios e preces da vida cotidiana, compreender a iconografia e os símbolos torna a obra muito mais próxima. Em segundo lugar, recomendo atividades para vivenciar diretamente os materiais e as técnicas. Mesmo que seja uma aula de experiência curta, o nível de apreciação muda apenas ao tentar desenhar uma linha sobre o papel hanji ou ao verificar visualmente a diferença entre os pigmentos em pó e os pigmentos minerais. Isso ocorre porque a minhwa é uma arte onde a textura e as camadas criadas pelos materiais são tão importantes quanto a imagem final.

Vocês conhecem algo sobre a arte folclórica brasileira?
Prof. Kim Min: Na verdade, antes desta visita ao Brasil, meu conhecimento sobre a arte folclórica brasileira era limitado. No entanto, ao conhecer a exposição “Living, Weaving” no MASP (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand) e visitar a Catedral da Sé em São Paulo, minha percepção mudou profundamente. A exposição no MASP deixou uma impressão profunda, não por ser a arte folclórica nativa brasileira em si, mas por mostrar, através da tradição da tecelagem dos povos originários da América Latina, como a vida, as estações, a terra e a memória são gravadas sobre as fibras. Já a Catedral da Sé, embora baseada no estilo das catedrais europeias, incorporou em seu interior motivos da flora e fauna brasileiras, como ramos de café, abacaxis e tatus, demonstrando simbolicamente como estilos estrangeiros e a identidade local coexistem e se transformam. Ao experienciar esses dois lugares juntos, o que senti foi que a cultura visual folclórica e histórica do Brasil, em vez de ser explicada por uma única tradição, é o resultado complexo formado pela junção de diferentes culturas e memórias. Esta visita foi uma oportunidade preciosa que me fez compreender a arte folclórica brasileira não como mera informação, mas por meio de emoção e experiência reais.

Fonte: conexaoasia.com.br
https://conexaoasia.com.br/para-alem-do-que-e-visto/

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