A música lírica foi o ponto de encontro entre diferentes tradições culturais em São Paulo no fim de setembro. No dia 27, a Ópera Nacional da China apresentou no Sesc Pinheiros a “Gala de Ópera”, espetáculo que reuniu obras do repertório clássico ocidental, peças chinesas e a participação de artistas brasileiros. A apresentação integrou a programação do Ano da Cultura Brasil-China 2026 e encerrou, em São Paulo, uma passagem da companhia pelo país que também incluiu apresentações no Rio de Janeiro e em Recife.
Realizado no Teatro Paulo Autran, o concerto reuniu cerca de mil pessoas, segundo o Consulado-Geral da China em São Paulo. O programa foi construído a partir de diferentes tradições do canto lírico, colocando lado a lado trechos de obras de compositores ocidentais conhecidos e músicas chinesas. Entre os nomes do repertório estavam obras de Rossini, Mozart, Bizet, Bellini, Johann Strauss, Verdi, Puccini e Jacques Offenbach, além de “Yimeng Mountain”, de Luan Kai.
A proposta também esteve na formação do elenco. A apresentação contou com solistas da Ópera Nacional da China, incluindo sopranos, tenores, mezzo-soprano, barítonos e baixo, acompanhados pelo pianista Qiu Lanxi. O repertório permitiu que a companhia apresentasse ao público brasileiro diferentes possibilidades da tradição vocal chinesa em diálogo com uma linguagem musical familiar aos frequentadores da ópera no Ocidente.
O encontro, porém, não ficou restrito aos artistas chineses. A soprano brasileira Marília Vargas participou do espetáculo e incluiu duas canções brasileiras no programa. Ela também interpretou “I Love You China” ao lado dos cantores chineses, levando ao palco uma participação brasileira dentro de uma apresentação concebida justamente a partir do contato entre repertórios e intérpretes de diferentes origens.
Para os integrantes da companhia chinesa, a passagem pelo Brasil também representou uma oportunidade de conhecer outras referências musicais. O cantor Zhao Yiluan destacou a possibilidade de contato com a produção brasileira e afirmou que a música funciona como uma ponte entre artistas e públicos de diferentes países. A cantora Cai Nan também ressaltou a combinação, no programa, de trechos de óperas ocidentais, canções chinesas e a participação de artistas brasileiros.
Um encontro entre tradições
Mais do que apresentar um repertório estrangeiro ao público brasileiro, o concerto mostrou como a circulação de artistas pode modificar a própria experiência de uma apresentação. A ópera, tradicionalmente associada a repertórios e idiomas específicos, tornou-se neste caso um espaço de sobreposição entre referências chinesas, europeias e brasileiras.
Essa característica aparece na própria seleção musical. Ao lado de árias de obras como Carmen, Tosca, Turandot, O Barbeiro de Sevilha e A Flauta Mágica, o programa incorporou uma obra chinesa contemporânea, criando uma sequência em que diferentes períodos, idiomas e tradições musicais convivem no mesmo palco.
O concerto faz parte de uma agenda mais ampla de intercâmbio cultural entre os dois países ao longo de 2026. A iniciativa foi estabelecida para ampliar a circulação de manifestações artísticas e o contato entre os públicos brasileiro e chinês, com atividades em diferentes áreas da cultura. A apresentação da Ópera Nacional da China se somou, assim, a outras ações realizadas ao longo do ano, que incluem música, literatura, cinema, artes visuais e outras formas de cooperação cultural.
A presença da companhia em São Paulo também se insere em uma sequência de atividades musicais chinesas no Brasil durante o ano. Em setembro, por exemplo, a China NCPA Orchestra realizou apresentações no país em parceria com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), ampliando a presença de grupos musicais chineses em importantes espaços da cena brasileira.
No caso da Ópera Nacional da China, entretanto, o aspecto mais significativo da passagem pelo país está justamente no encontro entre repertórios. Ao colocar no mesmo programa obras reconhecidas da tradição lírica ocidental, música chinesa e participação brasileira, a apresentação mostra que o intercâmbio cultural não depende apenas da tradução de uma obra ou da apresentação de uma tradição para um público estrangeiro. Ele também acontece quando músicos diferentes dividem o palco e constroem uma experiência comum a partir de linguagens musicais distintas.
Em São Paulo, essa experiência ganhou uma dimensão concreta: uma companhia chinesa apresentou sua leitura do repertório lírico diante de um público brasileiro, enquanto uma artista do país incorporou músicas brasileiras ao programa. O resultado foi menos uma apresentação de uma cultura para outra e mais um encontro entre tradições que encontraram na música um terreno comum.



