A China pretende concluir até o fim de 2028 um novo mapa geológico de toda a superfície de Marte, combinando dados de diferentes missões espaciais com inteligência artificial para reconstruir a evolução do planeta e orientar sua próxima grande etapa de exploração. O trabalho está diretamente ligado à missão Tianwen-3, que tem lançamento previsto para aproximadamente 2028 e pretende coletar amostras marcianas e levá-las de volta à Terra por volta de 2031.
O projeto foi apresentado em 28 de setembro por Hou Zengqian, acadêmico da Academia Chinesa de Ciências e cientista-chefe da Tianwen-3, durante um simpósio realizado pelo Instituto de Geologia da Academia Chinesa de Ciências Geológicas. A proposta prevê a elaboração de um mapa geológico global de Marte em escala de 1:5 milhões, além de um mapa muito mais detalhado, em escala de 1:50 mil, da região escolhida para o pouso da futura missão. Também serão produzidos atlas temáticos sobre diferentes características do planeta.
Mais do que representar visualmente a superfície marciana, o trabalho pretende organizar em uma mesma base informações sobre diferentes aspectos físicos do planeta. Os pesquisadores vão combinar imagens obtidas por sondas em órbita, dados espectrais, medições de radar, informações gravitacionais e registros do campo magnético. A intenção é construir uma base de dados capaz de relacionar estruturas geológicas que aparecem em diferentes escalas, desde minerais identificados localmente até grandes unidades tectônicas.
A inteligência artificial terá papel central nessa etapa. Segundo os pesquisadores chineses, modelos de grande escala serão alimentados também com conhecimentos e regras desenvolvidos por geólogos, de modo a tornar os resultados interpretáveis. Técnicas de análise em diferentes escalas deverão permitir que o sistema identifique características locais e, a partir delas, contribua para a interpretação de estruturas geológicas maiores. O projeto é apresentado pelos pesquisadores como o primeiro mapa geológico inteligente de Marte.
O que a água revela sobre Marte
Uma das principais razões para a elaboração do novo mapa é compreender melhor a presença de água no passado marciano. Dados coletados pelo rover chinês Zhurong, que pousou em Marte em 2021 durante a missão Tianwen-1, trouxeram novas evidências sobre períodos em que a água esteve presente na superfície do planeta.
Segundo os pesquisadores chineses, os dados indicam que um grande oceano antigo ainda existia em Marte há cerca de 3,5 bilhões de anos, enquanto possíveis episódios de inundações de curta duração teriam ocorrido aproximadamente 1,6 bilhão de anos atrás. Essas descobertas serão incorporadas ao novo mapa para ajudar a reconstruir a evolução climática e geológica do planeta.
Outra pesquisa divulgada em janeiro de 2026, baseada em dados do próprio Zhurong, indicou que a atividade relacionada à água pode ter persistido em Marte por mais tempo do que se imaginava. Pesquisadores encontraram evidências de um ambiente sedimentar aquático na região explorada pelo rover e estimaram que atividades aquosas significativas ainda poderiam ter ocorrido há aproximadamente 750 milhões de anos. O estudo foi publicado na revista National Science Review.
Essas informações são importantes porque a história da água está diretamente relacionada a uma das principais perguntas da exploração de Marte: o planeta já apresentou condições capazes de sustentar vida?
A busca por possíveis sinais de vida é justamente o principal objetivo científico declarado para a Tianwen-3. Em setembro, Hou afirmou que a missão procurará evidências de formas de vida que possam ter existido no passado, incluindo possíveis marcas microbianas, além de investigar a evolução da habitabilidade de Marte, sua atmosfera e sua estrutura geológica.
Um mapa antes de procurar as amostras
O cronograma do mapa acompanha o planejamento da Tianwen-3. A China pretende lançar a missão por volta de 2028 e trazer as amostras de volta à Terra aproximadamente em 2031. O projeto deverá envolver dois lançamentos e diferentes veículos espaciais, incluindo orbitador, módulo de retorno, módulo de pouso e veículo de ascensão.
A escolha do local de pouso é uma das decisões mais importantes da missão. Os pesquisadores precisam encontrar uma região que seja cientificamente relevante e, ao mesmo tempo, apresente condições compatíveis com a operação dos equipamentos. Entre os critérios estão a idade geológica do terreno, o histórico de atividade da água, a possibilidade de ter apresentado condições habitáveis e a capacidade de preservar possíveis sinais biológicos.
É nesse ponto que o mapa ganha importância prática. Conhecer com maior precisão a composição e a história geológica de diferentes regiões permite restringir a busca e identificar locais que possam oferecer amostras de maior valor científico.
Em vez de enviar a missão sem uma compreensão detalhada do terreno, a China pretende chegar à etapa de coleta com uma base cartográfica construída a partir de décadas de observações e de dados produzidos por diferentes instrumentos.
Dados chineses, americanos e europeus
Embora o projeto seja liderado por pesquisadores chineses, a base de dados não será exclusivamente nacional. O novo mapa deverá utilizar principalmente informações obtidas pela Tianwen-1, mas também incorporará dados de sondas de Marte operadas pelos Estados Unidos e pela Agência Espacial Europeia (ESA).
A integração de informações de diferentes missões amplia a quantidade e a variedade de dados disponíveis para a r



