O senador Flávio Bolsonaro (PL), derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, deixou o Brasil e chegou aos Estados Unidos em meio a investigações judiciais e após uma ordem que o proibia de sair do país. Em 28 de outubro, já no exterior, divulgou uma carta na qual contestou o resultado eleitoral, acusou instituições brasileiras de perseguição política e anunciou que pretende organizar a oposição ao governo Lula a partir dos Estados Unidos.
A viagem ocorreu depois que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a entrega dos passaportes do senador e proibiu sua saída do território nacional. A Polícia Federal havia solicitado as medidas após identificar risco de que ele deixasse o país. Segundo a corporação, Flávio não entregou os documentos no prazo determinado, e seus passaportes brasileiros foram cancelados.
De acordo com a Polícia Federal, não houve registro oficial da saída do senador pelos postos de controle migratório brasileiros. A imprensa brasileira e argentina noticiou que ele atravessou a fronteira com a Argentina e embarcou em um avião particular com destino aos Estados Unidos, acompanhado da esposa e das duas filhas.
A PF esclareceu que Flávio não era formalmente considerado foragido apenas em razão das restrições de viagem, mas informou que investigava as circunstâncias do descumprimento das determinações judiciais. O episódio ocorreu enquanto o senador respondia a diferentes procedimentos no STF e a poucos meses do encerramento de seu mandato parlamentar.
Investigações judiciais e perda futura do mandato
Flávio Bolsonaro é alvo de investigações distintas no Supremo. Uma delas apura suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas em uma investigação que envolve também o advogado e empresário Willer Tomaz e movimentações relacionadas ao mercado de apostas esportivas. Os investigados negam irregularidades.
Outro procedimento apura a origem e a destinação de recursos relacionados ao financiamento de Dark Horse, filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A investigação busca esclarecer repasses financeiros e possíveis irregularidades. A abertura de um inquérito, por si só, não significa que os fatos tenham sido comprovados ou que tenha havido condenação.
Há ainda um procedimento relacionado a uma suspeita de calúnia contra Lula, após declarações do senador que associaram o presidente brasileiro ao líder venezuelano Nicolás Maduro. Em junho de 2026, a Polícia Federal concluiu sua investigação e encaminhou o caso ao STF para análise das providências cabíveis.
A saída do Brasil ocorreu, portanto, em um contexto de investigações e de restrições judiciais. Flávio afirma ser vítima de perseguição política, mas essa alegação não constitui, por si só, prova de que os procedimentos contra ele sejam ilegítimos. Da mesma forma, as investigações não permitem presumir sua culpa: a responsabilidade criminal depende da apuração dos fatos e das decisões judiciais.
O senador também perderá o mandato em fevereiro de 2027, quando termina seu período no Senado. Com isso, deixará de contar com as prerrogativas parlamentares vinculadas ao cargo. A situação do foro, porém, depende da natureza de cada investigação: segundo o entendimento atual do STF, processos relativos a crimes supostamente cometidos no exercício do mandato e em razão das funções podem continuar na Corte mesmo após o fim do cargo. Assim, não é correto afirmar que todos os procedimentos serão automaticamente transferidos para instâncias inferiores.
Carta questiona eleição e muda após primeira publicação
Na carta divulgada dos Estados Unidos, Flávio afirmou que pretende liderar a oposição ao governo Lula a partir do exterior. Na primeira versão do documento, chegou a se apresentar como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. O texto foi retirado e republicado pouco depois, com a substituição da expressão por “líder do Brasil”.
Apesar da alteração, o senador manteve acusações de fraude eleitoral e críticas ao Supremo Tribunal Federal. Uma das alegações dizia respeito à decisão do ministro Cristiano Zanin de estender o horário de votação até as 19h em algumas localidades. A medida havia sido solicitada pelas campanhas dos dois candidatos, e Flávio não apresentou evidências de que a extensão tenha alterado o resultado.
Os números oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que Lula venceu o segundo turno, realizado em 25 de outubro, com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio. O presidente eleito recebeu aproximadamente 64,3 milhões de votos, ante 59,8 milhões do senador, uma diferença de cerca de 4,4 milhões.
Segundo dados divulgados pela Agência Brasil, aproximadamente 34,4 mil votos foram registrados depois das 17h, horário originalmente previsto para o encerramento da votação. Esse número, isoladamente, não sustenta a alegação de que a extensão do horário tenha produzido a diferença entre os candidatos. O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, afirmou que as eleições transcorreram dentro da normalidade e que o eleitorado escolheu legitimamente seus representantes.
Reações também vêm de aliados da direita
As acusações de Flávio não foram acompanhadas por evidências públicas de fraude e provocaram manifestações de políticos de diferentes campos, inclusive de aliados que apoiaram sua candidatura.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), um dos principais apoiadores de Flávio na disputa presidencial, defendeu o respeito ao resultado das urnas. Em nota, afirmou que “a eleição acabou” e que o momento exigia responsabilidade, serenidade e a construção de uma oposição capaz de atuar dentro das instituições democráticas.
Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição no Senado e coordenador da campanha de Flávio, também reconheceu que não havia provas para sustentar a acusação de fraude. “O PL não pode fazer essa afirmação, nem eu posso fazer essa afirmação, porque não há provas nesse sentido”, declarou. Marinho descreveu a carta como um desabafo, mas não respaldou a alegação de que a eleição teria sido fraudada.
O União Brasil, que apoiou Flávio no segundo turno, divulgou nota afirmando que a eleição transcorreu com lisura e que seu resultado deveria ser respeitado. O MDB também reafirmou confiança no sistema eleitoral brasileiro. As manifestações demonstram que o reconhecimento da vitória de Lula não se restringiu aos partidos que apoiaram o presidente.
No campo governista, o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso, criticou a carta e classificou a primeira versão do documento como uma afronta. Já o presidente do TSE reiterou que o resultado corresponde à vontade expressa pelos eleitores e que questionamentos devem seguir os procedimentos legais.
Oposição no exterior
Flávio afirmou que pretende manter contato com apoiadores e lideranças políticas e organizar sua atuação contra o governo Lula a partir dos Estados Unidos. A iniciativa ocorre enquanto o senador enfrenta investigações judiciais no Brasil e se aproxima do fim de seu mandato parlamentar.
A carta também agradeceu ao presidente argentino Javier Milei e ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Flávio afirmou que não estava fugindo do Brasil, mas deixando o país para continuar sua atuação política no exterior. Até o momento, a Polícia Federal investiga as circunstâncias de sua saída e do descumprimento das medidas judiciais relacionadas à viagem.
O resultado eleitoral, por sua vez, foi reconhecido pelo TSE e pelo próprio Partido Liberal, legenda de Flávio Bolsonaro. As acusações de fraude feitas pelo senador não vieram acompanhadas de provas que invalidem a apuração oficial.



