A indústria de hidrogênio da China avança da fase de projetos-piloto para aplicações comerciais em maior escala, movimento que abre novas frentes de cooperação com o Brasil em energia limpa, transporte e descarbonização industrial. A aproximação entre os dois países já envolve projetos experimentais, acordos tecnológicos e iniciativas para desenvolver uma cadeia produtiva de hidrogênio verde em território brasileiro.
Segundo dados divulgados pela Administração Nacional de Energia da China e reproduzidos pela agência Xinhua, a produção chinesa de hidrogênio ultrapassou 39 milhões de toneladas em 2025, mantendo o país na liderança mundial em produção e consumo. A expansão combina investimentos em infraestrutura, desenvolvimento de equipamentos e ampliação das aplicações industriais do combustível.
Em 2025, a Administração Nacional de Energia anunciou o primeiro conjunto de projetos-piloto de hidrogênio no setor energético, distribuídos por nove regiões e com 41 projetos. As iniciativas abrangem diferentes etapas da cadeia, da produção ao armazenamento, transporte e utilização do combustível.
O avanço ocorre em um momento em que a China busca ampliar o uso de fontes renováveis e desenvolver alternativas para reduzir as emissões de setores industriais e de transporte que apresentam dificuldades para substituir combustíveis fósseis por eletricidade diretamente.
Da produção industrial às aplicações comerciais
Um dos exemplos citados pela Xinhua é Baotou, na Região Autônoma da Mongólia Interior. Tradicionalmente associada à mineração, a cidade utiliza sua disponibilidade de recursos eólicos e solares para desenvolver uma cadeia integrada de hidrogênio verde.
A estrutura em implantação abrange produção, armazenamento, transporte e diferentes aplicações industriais. Quase 20 empresas líderes do setor já se instalaram na cidade, onde caminhões movidos a hidrogênio operam em áreas de mineração e ônibus com células a combustível circulam em rotas urbanas.
No sul da China, Shenzhen também concentra atividades relacionadas à tecnologia. A cidade abriga cerca de 200 empresas ligadas à indústria de hidrogênio e células a combustível, com um setor que ultrapassou 50 bilhões de yuans, aproximadamente US$ 7,4 bilhões, segundo a reportagem. Os veículos movidos a células a combustível ocupam uma posição importante nesse mercado local.
Essas experiências refletem a diversificação das aplicações do hidrogênio. Além dos transportes rodoviários, a tecnologia vem sendo explorada em caminhões pesados, equipamentos de mineração, embarcações, drones e transporte ferroviário. Na indústria, o combustível pode substituir matérias-primas e fontes de energia convencionais em determinados processos químicos e de refino.
O desenvolvimento comercial, entretanto, não elimina os desafios econômicos. O custo de produção, a infraestrutura de distribuição e abastecimento e a necessidade de ampliar a demanda continuam sendo fatores importantes para a viabilidade dos projetos, especialmente no caso do hidrogênio produzido a partir de fontes renováveis.
O que diferencia o hidrogênio verde
O hidrogênio não é uma fonte primária de energia, como o vento ou a luz solar, mas um vetor energético: precisa ser produzido utilizando outra fonte de energia e pode ser armazenado, transportado e utilizado posteriormente.
A classificação depende, em grande parte, do processo de produção. O hidrogênio verde é obtido, em geral, por eletrólise da água utilizando eletricidade de fontes renováveis, como energia solar e eólica. Já o hidrogênio produzido a partir de combustíveis fósseis pode apresentar emissões significativamente maiores, dependendo da tecnologia empregada e do tratamento do carbono gerado.
Essa distinção é importante para interpretar os números do setor chinês. A produção total superior a 39 milhões de toneladas registrada em 2025 inclui diferentes rotas de produção e não corresponde exclusivamente ao hidrogênio verde.
A China vem ampliando a capacidade de produção renovável, mas a transição para alternativas de menor emissão depende da redução dos custos dos eletrolisadores, da disponibilidade de eletricidade renovável e da criação de mercados consumidores capazes de sustentar a operação em escala industrial.
O hidrogênio verde é considerado particularmente relevante para segmentos nos quais a eletrificação direta pode ser mais difícil, como parte da indústria química, a produção de aço, o transporte pesado e determinados processos industriais de alta temperatura.
Projetos chineses já envolvem empresas brasileiras
A cooperação entre China e Brasil nessa área inclui iniciativas em diferentes estágios de desenvolvimento. Uma delas foi anunciada em agosto de 2024, quando a CPFL Energia, controlada pela chinesa State Grid, firmou parceria com a Mizu Cimentos para desenvolver uma usina-piloto de hidrogênio verde no Rio Grande do Norte.
O projeto prevê a produção de hidrogênio utilizando eletricidade renovável, com aplicação do combustível no processo produtivo da fábrica de cimento. A iniciativa busca testar a utilização do hidrogênio em uma atividade industrial com demanda energética relevante e desafios próprios para a redução de emissões.
O uso de hidrogênio na produção de cimento ainda exige avaliação de custos, desempenho e integração com os processos industriais existentes. Por isso, a proposta-piloto é importante para testar a viabilidade da tecnologia antes de uma eventual ampliação.
Outra frente de cooperação envolve Minas Gerais. Em novembro de 2024, a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, a agência Invest Minas e a Universidade Federal de Itajubá assinaram um memorando de entendimento com a FTXT Energy, subsidiária da montadora chinesa Great Wall Motors dedicada às tecnologias de hidrogênio.
O acordo prevê intercâmbio tecnológico e testes com veículos movidos a hidrogênio verde. A proposta inclui a utilização do Centro de Hidrogênio Verde da universidade para abastecer caminhões e outros veículos experimentais, com a realização de uma rota entre o sul de Minas Gerais e São Paulo.
A iniciativa reúne governo estadual, universidade e empresa privada, criando uma estrutura para avaliar o desempenho da tecnologia em condições reais de transporte. O desenvolvimento de infraestrutura de abastecimento é um dos pontos centrais desse tipo de projeto, pois a expansão da frota depende de uma rede capaz de fornecer combustível de forma regular.
Equipamentos e investimentos também entram na parceria
A cooperação empresarial se estende à fabricação e ao fornecimento de equipamentos. Em julho de 2025, a chinesa Beijing Mingyang Hydrogen Technology e a Qair Brasil, subsidiária de um grupo europeu, assinaram um acordo para o fornecimento de equipamentos de produção de hidrogênio destinados à primeira fase do projeto H2Brasil, no Ceará.
O contrato prevê equipamentos com capacidade de produção de hidrogênio e serviços de operação e manutenção. O acordo também contempla a possibilidade de aprofundar a cooperação para ampliar a produção e desenvolver capacidade de fabricação local.
No Piauí, o governo estadual assinou em setembro de 2025 um memorando de entendimento com o grupo chinês TBEA para explorar projetos de hidrogênio verde e implantação de usinas fotovoltaicas. O documento previa a elaboração de um plano de trabalho com propostas de fornecimento de equipamentos e soluções tecnológicas. A assinatura do memorando, por si só, não significa que todos os projetos previstos tenham sido contratados ou estejam em operação.
Além das parcerias empresariais, instituições financeiras brasileiras e chinesas discutem formas de financiar projetos de hidrogênio verde e outras tecnologias de baixo carbono. Durante a conferência anual de 2025 do Conselho Empresarial Brasil-China, representantes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) destacaram a cooperação financeira em áreas como energia renovável, biocombustíveis, mobilidade elétrica e armazenamento de energia.
O financiamento é um componente decisivo para projetos que exigem investimentos elevados em equipamentos, eletricidade renovável, água, armazenamento e transporte. A viabilidade depende tanto da tecnologia quanto da existência de compradores para o hidrogênio e seus derivados, como a amônia verde.
Oportunidades e desafios para o Brasil
O Brasil reúne condições favoráveis à produção de hidrogênio verde, especialmente em regiões com forte disponibilidade de energia eólica e solar. O Nordeste concentra parte importante desse potencial e tem atraído projetos voltados tanto ao abastecimento industrial quanto à produção de combustíveis destinados ao mercado internacional.
A cooperação com empresas chinesas pode contribuir com equipamentos, experiência industrial e soluções para diferentes etapas da cadeia produtiva. Para o Brasil, porém, o desenvolvimento do setor também envolve decisões sobre a formação de fornecedores nacionais, capacitação profissional, pesquisa, infraestrutura e transferência de tecnologia.
Outro desafio é assegurar que os projetos tenham acesso a eletricidade renovável suficiente, água e sistemas de transporte adequados, além de compradores capazes de sustentar a produção. A redução das emissões efetivas também depende da origem da energia utilizada e dos impactos associados à fabricação, ao transporte e ao uso do combustível.
Na China, a expansão dos projetos-piloto e das aplicações comerciais oferece uma base industrial e tecnológica cada vez maior. No Brasil, as parcerias ainda incluem iniciativas experimentais, acordos de cooperação e projetos em diferentes fases de desenvolvimento. O avanço dessa relação dependerá da capacidade de transformar os entendimentos existentes em instalações operacionais, demanda industrial e investimentos de longo prazo.



