A China manifestou preocupação com o aumento das restrições comerciais adotadas pela União Europeia (UE) contra empresas e produtos chineses. Segundo o Ministério do Comércio chinês, as medidas têm prejudicado a estabilidade das cadeias industriais e de suprimentos e dificultado a cooperação entre empresas dos dois lados.
A posição foi apresentada pelo ministro do Comércio da China, Wang Wentao, durante uma reunião em Beijing, na terça-feira (27), com Bernd Lange, presidente da Comissão de Comércio Internacional do Parlamento Europeu. O encontro ocorreu durante uma visita de uma delegação do Parlamento Europeu ao país, que também incluiu compromissos em Hangzhou, na província de Zhejiang, e Shanghai.
Wang afirmou que China e União Europeia são importantes parceiros econômicos e comerciais e têm responsabilidade na manutenção do sistema multilateral de comércio. Segundo o ministro, o uso crescente de instrumentos restritivos pela UE exerce pressão sobre as cadeias de suprimentos transfronteiriças e prejudica a cooperação econômica bilateral.
“A China não é a origem dos problemas da UE, mas sim uma parceira na busca por soluções”, declarou Wang, de acordo com o comunicado do Ministério do Comércio.
O ministro defendeu que os dois lados ampliem os investimentos recíprocos, aumentem as importações europeias de produtos chineses e explorem novas oportunidades de cooperação em setores emergentes. Também ressaltou que o desenvolvimento das relações comerciais deve respeitar as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), com base na reciprocidade e no benefício mútuo.
Divergências comerciais e disputas sobre acesso ao mercado
As tensões entre China e União Europeia envolvem diferentes setores industriais e instrumentos de política comercial. Entre os principais pontos de atrito estão as investigações europeias sobre subsídios concedidos a fabricantes chineses, as condições de acesso de empresas estrangeiras ao mercado europeu e as restrições relacionadas a tecnologias consideradas estratégicas.
Um dos casos de maior repercussão envolve os veículos elétricos fabricados na China. A União Europeia adotou tarifas adicionais sobre determinados modelos chineses após uma investigação antissubsídios, sob o argumento de que o apoio estatal poderia prejudicar a concorrência com fabricantes europeus.
Pequim contesta a avaliação europeia e considera que medidas comerciais desse tipo podem criar barreiras injustificadas à concorrência. As duas partes também discutem alternativas para lidar com a disputa, incluindo compromissos de preços e mecanismos de consulta.
Outro ponto de divergência envolve os controles de exportação. A China possui posição relevante no fornecimento global de terras raras e materiais utilizados na fabricação de ímãs permanentes, componentes importantes para veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e outras tecnologias industriais. A gestão das licenças de exportação desses materiais tem sido tema de negociações com autoridades europeias.
As divergências não se limitam a produtos específicos. Também envolvem políticas industriais, investimentos estrangeiros, propriedade intelectual, compras públicas e critérios de segurança aplicados a empresas de outros países.
Mecanismo de consulta busca evitar agravamento das disputas
Apesar das divergências, China e União Europeia estabeleceram em 2026 um mecanismo de consulta sobre comércio e investimentos para tratar dos conflitos por meio de negociações.
A primeira reunião ocorreu em Bruxelas, no final de junho, e definiu quatro frentes de trabalho, além de um mecanismo conjunto de monitoramento para acompanhar os atritos comerciais.
A segunda rodada foi realizada em Beijing, no início de outubro, sob a coordenação do ministro Wang Wentao e do comissário europeu para Comércio e Segurança Econômica, Maroš Šefčovič. Os dois lados chegaram a 16 pontos de consenso, que abrangem o equilíbrio das relações comerciais e de investimento, controles de exportação, propriedade intelectual e reforma da OMC.
Entre os entendimentos anunciados estão a continuidade das negociações sobre o comércio de veículos híbridos, a discussão de compromissos de preços relacionados aos veículos elétricos chineses e a manutenção do diálogo sobre controles de exportação e licenças para produtos de uso dual.
As partes também concordaram em explorar possibilidades de cooperação em novas áreas, como energia, inteligência artificial, economia digital, comércio de serviços e desenvolvimento de baixo carbono.
A próxima reunião do mecanismo está prevista para março de 2027. Até lá, os dois lados deverão manter contatos técnicos e ministeriais para avançar nos compromissos estabelecidos.
Parlamento Europeu defende continuidade do diálogo
Durante a reunião com Wang Wentao, Bernd Lange afirmou que a manutenção de relações econômicas estáveis entre China e União Europeia é especialmente importante diante das incertezas da economia global.
O presidente da Comissão de Comércio Internacional do Parlamento Europeu manifestou apoio à continuidade dos investimentos chineses na Europa e à reforma da Organização Mundial do Comércio. Também afirmou que a comissão está disposta a contribuir para o diálogo entre as partes e para a administração das divergências comerciais.
A posição indica que, apesar das pressões por medidas de proteção à indústria europeia, existem setores políticos e econômicos no bloco interessados em preservar a relação comercial com a China.
O pesquisador Sun Chenghao, do Centro de Segurança e Estratégia Internacional da Universidade Tsinghua, avaliou que a continuidade das consultas oferece um canal para administrar as disputas sem permitir que conflitos em setores específicos comprometam a relação econômica mais ampla. Segundo ele, a cooperação também continua oferecendo oportunidades para empresas europeias que atuam no mercado chinês.
China e União Europeia estão entre os principais polos da economia mundial, com cadeias produtivas e mercados profundamente conectados. A evolução das negociações comerciais terá efeitos não apenas sobre as empresas dos dois lados, mas também sobre fornecedores, investidores e parceiros comerciais de outras regiões.



