China celebra 77 anos da República Popular com novo ciclo de desenvolvimento

A China celebra nesta quinta-feira (1º) o 77º aniversário da fundação da República Popular da China em um momento marcado simultaneamente pela memória histórica e pela definição de novas metas para o desenvolvimento nacional. Enquanto cerimônias realizadas em Beijing homenagearam aqueles que morreram pela independência e pelo desenvolvimento do país, as comemorações do Dia Nacional colocaram em evidência o início de um novo ciclo de planejamento econômico e social, correspondente ao 15º Plano Quinquenal, com vigência de 2026 a 2030.

A programação começou oficialmente na véspera, quando o presidente Xi Jinping e outros dirigentes do Partido Comunista da China (PCCh) e do Estado participaram, na Praça Tian’anmen, de uma cerimônia em homenagem aos heróis nacionais mortos. O Dia dos Mártires, celebrado em 30 de setembro, foi instituído em 2014 e ocorre um dia antes do Dia Nacional. A solenidade deste ano também marcou os 90 anos da vitória da Longa Marcha, realizada entre 1934 e 1936, e os 105 anos da fundação do PCCh.

Na manhã desta quinta-feira, a celebração ganhou outro caráter. Mais de 100 mil pessoas se reuniram na Praça Tian’anmen para acompanhar o hasteamento da bandeira nacional, uma das principais cerimônias do Dia Nacional. A data marca o aniversário da fundação da República Popular, proclamada em 1º de outubro de 1949. Cerimônias semelhantes foram realizadas em diferentes cidades chinesas, enquanto ruas e espaços públicos receberam bandeiras, flores e outras decorações alusivas à data.

A passagem pelos 77 anos também é acompanhada por um balanço das transformações econômicas e sociais ocorridas desde 1949. Em uma retrospectiva publicada pela Xinhua nesta quinta-feira, o Produto Interno Bruto chinês ultrapassou 140 trilhões de yuans em 2025, enquanto a renda disponível per capita chegou a 43.377 yuans. A expectativa de vida média, que era de 35 anos em 1949, alcançou 79,25 anos em 2025, segundo os dados apresentados pela agência.

A mesma retrospectiva destaca a transformação da estrutura produtiva do país, que passou de uma economia predominantemente agrícola para uma das maiores bases industriais do mundo. Em 2025, a produção chinesa de veículos de nova energia ultrapassou 16 milhões de unidades, enquanto a fabricação de robôs industriais cresceu 28% e a de circuitos integrados avançou 10,9%, de acordo com os números apresentados pela Xinhua.

Ao lado desses indicadores, o governo chinês coloca a inovação tecnológica entre os principais elementos da próxima etapa de desenvolvimento. A agenda para 2026-2030 prevê avanços em áreas consideradas estratégicas, com o objetivo de ampliar a capacidade tecnológica do país e fortalecer novos motores de crescimento.

Um novo plano para os próximos cinco anos

A passagem pelo aniversário de 77 anos ocorre justamente no início do 15º Plano Quinquenal, que estabelece as principais diretrizes de desenvolvimento econômico e social da China entre 2026 e 2030. O planejamento ocupa posição central na estratégia chinesa porque estabelece metas de médio prazo que devem orientar políticas econômicas, industriais, científicas, sociais e ambientais.

Entre os objetivos apresentados para o período está a criação das condições para que o país avance em direção à meta de, até 2035, praticamente alcançar a modernização socialista. O plano também prevê avanços na renda per capita, na capacidade científica e tecnológica, na educação, na expectativa de vida e no chamado poder de influência cultural.

Na recepção realizada na noite de 30 de setembro no Grande Palácio do Povo, Xi Jinping afirmou que a economia chinesa manteve seu avanço durante 2026 apesar das pressões enfrentadas e apresentou desenvolvimento de alta qualidade impulsionado pela inovação. O presidente defendeu a manutenção desse ritmo e pediu medidas para melhorar as condições de vida da população e cumprir as metas estabelecidas para o ano, de modo a garantir um bom início ao novo plano quinquenal.

O discurso também colocou a continuidade do desenvolvimento tecnológico e econômico dentro de uma perspectiva mais ampla. Segundo Xi, os últimos 77 anos foram marcados, na avaliação do governo chinês, por crescimento econômico acelerado e estabilidade social. O presidente afirmou ainda que a China deve avançar com confiança e de maneira gradual para alcançar o objetivo de revitalização nacional. Essas são avaliações apresentadas pelo próprio dirigente e integram o discurso oficial das comemorações.

Desenvolvimento e qualidade de vida

Os números apresentados pela Xinhua ajudam a dimensionar a transformação ocorrida desde a fundação da República Popular. A urbanização foi uma das mudanças mais profundas: uma população majoritariamente rural passou a viver cada vez mais em cidades, acompanhando a industrialização e a expansão da infraestrutura.

O crescimento econômico também veio acompanhado da ampliação de sistemas públicos. Segundo a retrospectiva divulgada pela Xinhua, a China estabeleceu os maiores sistemas do mundo em educação, seguridade social e saúde, além de ter eliminado a pobreza absoluta, de acordo com os critérios utilizados pelo governo chinês.

Esses avanços, entretanto, fazem parte de uma agenda que o próprio governo considera ainda incompleta. O 15º Plano Quinquenal estabelece novas metas relacionadas à qualidade do desenvolvimento, educação, expectativa de vida, inovação, proteção ambiental e melhoria das condições de vida. O objetivo, portanto, não é apenas preservar o crescimento econômico, mas alterar sua qualidade e ampliar sua capacidade de sustentar o desenvolvimento nas próximas décadas.

Um dos símbolos escolhidos para representar essa nova etapa está na própria Praça Tian’anmen. O grande cesto de flores instalado para o Dia Nacional reúne 15 tipos de flores e cinco tipos de frutas, em referência ao 15º Plano Quinquenal e às expectativas para os próximos cinco anos. Ao longo da Avenida Chang’an, outras dez instalações florais apresentam temas associados às prioridades nacionais, como novas forças produtivas de qualidade, harmonia entre desenvolvimento e natureza, renovação urbana e revitalização das áreas rurais.

Memória e futuro

A proximidade entre o Dia dos Mártires e o Dia Nacional também dá às comemorações uma dimensão histórica. Na cerimônia de 30 de setembro, nove grandes cestas de flores foram depositadas diante do Monumento aos Heróis do Povo, na Praça Tian’anmen, em nome de diferentes instituições e setores da sociedade. Xi Jinping e outros dirigentes participaram da homenagem e observaram um momento de silêncio após o hino nacional.

A referência à Longa Marcha ganhou destaque especial neste ano. Iniciada em 1934 e concluída em 1936, a marcha percorreu diferentes regiões do país e é apresentada na historiografia oficial chinesa como um episódio decisivo para a trajetória revolucionária que levou à fundação da República Popular. Uma exposição especial sobre o episódio foi organizada no Museu Militar da Revolução do Povo Chinês em Beijing para marcar seus 90 anos.

A memória histórica aparece, assim, associada à construção do futuro. A cerimônia dos mártires olha para acontecimentos que antecederam a fundação da República Popular, enquanto o Dia Nacional marca os 77 anos seguintes e o novo plano quinquenal estabelece objetivos para a próxima etapa.

Relações com o mundo

A dimensão internacional também esteve presente na mensagem de Xi para o aniversário. O presidente afirmou que a China continuará seguindo uma política externa independente e de paz, além de defender a implementação das quatro grandes iniciativas globais propostas pelo país e a construção de uma comunidade com futuro compartilhado para a humanidade.

As declarações fazem parte de uma política externa que procura vincular o desenvolvimento chinês à cooperação internacional, especialmente com países em desenvolvimento. O próprio 15º Plano Quinquenal é apresentado pelas autoridades chinesas não apenas como um roteiro doméstico, mas também como uma referência para a abertura econômica e para novas formas de cooperação internacional.

Essa dimensão interessa particularmente ao Brasil. China e Brasil mantêm uma relação econômica marcada pelo comércio, pelos investimentos e pela cooperação em áreas como agricultura, energia, infraestrutura, ciência e tecnologia. O início de um novo ciclo de planejamento chinês tende a influenciar também as prioridades que orientarão a segunda maior economia mundial ao longo dos próximos cinco anos e, consequentemente, as oportunidades e desafios para seus principais parceiros comerciais.

O Dia Nacional de 2026, portanto, ocorre em uma espécie de ponto de passagem. De um lado, as cerimônias recuperam episódios que integram a memória política e histórica da República Popular. De outro, os discursos e símbolos das comemorações apontam para um período definido por novas metas de desenvolvimento, inovação tecnológica, melhoria das condições de vida e maior projeção internacional.

Aos 77 anos, a República Popular inicia assim mais um ciclo de cinco anos. O 15º Plano Quinquenal estabelece a estrutura desse próximo período, enquanto as cerimônias de 30 de setembro e 1º de outubro conectam o projeto de futuro à memória sobre a trajetória percorrida desde 1949.

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