O relatório final de uma auditoria da União Europeia considerou satisfatórios os controles brasileiros aplicados às cadeias de carne de aves e mel. A conclusão remove o principal obstáculo técnico para a reinclusão do Brasil na lista de fornecedores autorizados, mas as exportações ainda não foram formalmente retomadas.
A missão da Direção-Geral de Saúde e Segurança dos Alimentos da Comissão Europeia, a DG SANTE, visitou estabelecimentos produtivos e órgãos oficiais brasileiros entre 24 de agosto e 4 de setembro. O trabalho avaliou regras, fiscalização, treinamento de agentes públicos e procedimentos destinados a impedir o uso de determinados antimicrobianos como promotores de crescimento ou rendimento.
Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, o documento europeu concluiu que o marco legal, a capacitação dos fiscais e os controles oficiais fornecem base adequada para que o Brasil certifique o cumprimento das exigências sanitárias do bloco. O relatório também registrou reforços feitos pelo país durante o processo de auditoria.
A avaliação favorável não equivale a uma autorização imediata de embarque. O Brasil ainda precisa ser reincluído formalmente na lista europeia de países aptos. O tema deve ser analisado pelo Comitê Permanente de Plantas, Animais, Alimentos e Rações da União Europeia, o Scopaff, em reunião prevista para 20 e 21 de outubro.
Até que essa etapa administrativa seja concluída e os certificados aplicáveis sejam restabelecidos, empresas não devem tratar o mercado como plenamente reaberto. Frigoríficos, exportadores e produtores de mel precisam manter a documentação, a rastreabilidade e os controles exigidos para evitar atrasos quando a autorização entrar em vigor.
A Folha de S.Paulo informou que o Brasil exportou 230 mil toneladas de carne de frango para a União Europeia em 2025, com receita de US$ 763 milhões. O volume correspondeu a cerca de 4,5% das exportações brasileiras do produto, mas representou aproximadamente 7,7% da receita do setor, sinal de que o mercado europeu paga valores relevantes por produtos certificados.
A situação da carne bovina é diferente e não foi resolvida por esta auditoria. Autoridades europeias exigem controles sobre antimicrobianos e rastreabilidade ao longo do ciclo de vida do animal. O chefe de auditorias sanitárias do bloco estimou que uma retomada poderá levar pelo menos dois anos, prazo relacionado ao período entre nascimento e abate. Essa projeção não se aplica às cadeias de aves e mel.
Para o Brasil, a eventual reabertura reduz a dependência de mercados concentrados e melhora a capacidade de negociar produtos com requisitos sanitários mais rigorosos. Para a União Europeia, o retorno amplia opções de fornecimento em um momento de volatilidade nos custos de alimentos e de maior atenção à origem dos produtos.
O episódio também mostra que acesso comercial não depende apenas de tarifas. Regras veterinárias, sistemas de inspeção e capacidade de demonstrar conformidade podem abrir ou fechar mercados de alto valor. Empresas que documentam melhor seus processos tendem a reagir com mais rapidez a mudanças regulatórias.
O marco decisivo será a deliberação europeia no fim de outubro. Até lá, o relatório deve ser entendido como aprovação técnica e avanço relevante, não como confirmação de que os embarques já voltaram. Uma data efetiva de retomada só poderá ser afirmada após a publicação do ato correspondente pela União Europeia.



