A ampliação da cooperação militar entre Paraguai e Estados Unidos passou a ser acompanhada com atenção pelo governo brasileiro, em um momento de mudanças no cenário de segurança da América do Sul. A avaliação foi apresentada por Celso Amorim, assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais, que defendeu o fortalecimento da capacidade de defesa do Brasil diante da possibilidade de uma presença militar norte-americana mais ampla na região.
O Paraguai e os Estados Unidos já vêm aprofundando sua cooperação no setor de defesa. Em janeiro, o governo do presidente paraguaio Santiago Peña apresentou a parceria bilateral como parte de uma agenda estratégica de segurança e recebeu dos Estados Unidos equipamentos e armamentos destinados às forças paraguaias. Na ocasião, o governo paraguaio também destacou o acordo sobre o status de forças, conhecido pela sigla SOFA, como instrumento para estabelecer as condições jurídicas da atuação de militares e civis norte-americanos em território paraguaio.
A aproximação também se materializou em atividades militares realizadas ao longo de 2026. Em junho, o Senado paraguaio autorizou a entrada temporária de militares norte-americanos para exercícios de treinamento e cooperação. Entre os grupos autorizados estavam 35 integrantes do Serviço de Saúde da Força Aérea dos Estados Unidos e 14 militares vinculados a equipes de forças especiais e assuntos civis.
Para Amorim, o movimento exige atenção por parte de Brasília. Em entrevista publicada pelo jornal Valor Econômico na segunda-feira (17), o assessor afirmou que a possibilidade de ampliação das operações militares dos Estados Unidos em países latino-americanos, inclusive em nações próximas ao território brasileiro, torna o ambiente regional mais sensível. Ele defendeu que o Brasil amplie os investimentos em defesa e afirmou que o país não deve adotar uma política de confronto com Washington, mas estabelecer limites claros na relação bilateral.
“O Brasil não pode ser um dos maiores países do mundo e gastar apenas cerca de 1% do PIB em Defesa”, afirmou Amorim, segundo a entrevista reproduzida pelo Diário do Povo Online. O assessor também declarou apoio à posição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva favorável ao fortalecimento das capacidades brasileiras de defesa.
Do lado paraguaio, o governo de Peña apresenta a aproximação com Washington como uma ferramenta de cooperação em segurança e defesa. A Presidência do Paraguai afirma que o SOFA estabelece as condições jurídicas para a participação de militares e civis norte-americanos em atividades previamente acordadas com as autoridades paraguaias, incluindo treinamentos conjuntos, assistência humanitária e iniciativas de fortalecimento das capacidades de defesa.
A cooperação entre os dois países também está inserida em uma estratégia mais ampla do Paraguai para ampliar sua capacidade de segurança. Em maio, Peña criou a comissão “Cielo Guaraní Soberano”, destinada a reforçar a vigilância do espaço aéreo e integrar mecanismos de comunicação, inteligência e resposta contra o narcotráfico, o crime organizado transnacional e voos irregulares. O governo paraguaio incluiu representantes norte-americanos entre os participantes da reunião de apresentação da iniciativa.
Para o Brasil, a localização do Paraguai acrescenta uma dimensão estratégica à questão. Os dois países compartilham uma extensa fronteira e integram uma região de intensa circulação de pessoas, mercadorias e atividades econômicas. A presença de estruturas militares estrangeiras em território paraguaio, portanto, é observada por Brasília dentro de um contexto mais amplo de transformação das relações de segurança no continente.
A discussão ocorre ainda em meio à intensificação da atuação militar norte-americana na América Latina e à deterioração das relações entre Washington e Brasília em outras áreas. Nesse cenário, a manifestação de Amorim coloca a defesa e a autonomia estratégica brasileira entre os temas que deverão ganhar espaço no debate sobre a posição do país diante das mudanças na arquitetura de segurança sul-americana.












