O Espaço Petrobras de Cinema, em São Paulo, ficou pequeno, ontem à noite (09/04), durante o lançamento do documentário “Vai pra China, Eduardo!”. A produção fecha a trilogia que começou a ser desenhada à época da última eleição presidencial. A ideia surgiu como uma resposta inteligente, e por que não dizer bem-humorada, aos ataques que o próprio Eduardo Moreira, sócio-fundador da plataforma de educação ICL – Instituto Conhecimento Liberta, sofria nas redes sociais. “As pessoas que não concordavam com as ideias progressistas do Eduardo comentavam no Instagram dele: ‘Vai para Cuba!’”, contou Juliana Baroni, diretora do filme.
E eles foram. Não só a Cuba, como à Argentina e à China, com o objetivo de investigar os modelos sociais e econômicos desses países. “Nós achamos uma ótima ideia, vimos muita coisa, entendemos muita coisa”, comentou Juliana referindo-se aos efeitos sociais provocados pelos bloqueios do governo estadunidense à ilha caribenha, o que classificou como covardes. “Depois, nós fomos à Argentina, porque a imprensa brasileira, muito enviesada, falava bastante sobre os milagres econômicos de Milei (presidente Javier Milei), e fomos lá para ver o que estava acontecendo”, disse Juliana, que é casada com Eduardo Moreira. “Lá, nós encontramos uma Argentina socialmente arrasada e mostramos isso para vocês”.
E foram as dificuldades de divulgação desse segundo lançamento, “Vai pra Argentina, C4rajo”, que construíram a ponte para o “Vai pra China, Eduardo!”. “A gente não conseguia anunciar,” recorda. Uma série de mensagens das plataformas digitais e redes sociais apontavam os conteúdos de divulgação do documentário como impróprios, sem justificativas plausíveis. “Aí, Eduardo ficou pensando: que outro lugar no mundo a gente poderia encontrar uma alternativa ao monopólio das big techs? Essa pergunta e a indignação do Eduardo nos levaram à China e a esse documentário que vocês vão assistir hoje”, contou Juliana.

Alternativa às big techs
A produção se desenvolveu tendo como base a tecnologia chinesa. Mas, ao falar sobre todo o processo da viagem, Eduardo ressaltou o quanto a China, na verdade, o impactou pelo sentimento de esperança. “Acho que a gente vive um período no mundo em que essa mudança tecnológica – e eu diria até essa disrupção tecnológica – é algo, para muitas pessoas, semelhante, ou até muito maior, do que foi a Revolução Industrial, e sem volta”, afirmou. “Então, as pessoas podem gostar ou não gostar de IA, mas a gente está vivendo uma mudança de paradigma tecnológico”, disse ele. Quem assistir ao documentário, de fato, encontrará muita informação sobre o que está acontecendo em termos de tecnologia, mas a narrativa também visa provocar reflexões mais amplas sobre para onde estamos indo como humanidade. O documentário deixa claro que. Na China, o caminho é a lógica de desenvolvimento que coloca planejamento de longo prazo e bem-estar coletivo no centro das decisões.
Para Eduardo, a grande pergunta é saber que rumo queremos seguir ao longo dos próximos anos, que modelo econômico e social queremos adotar, uma vez que, para ele, vivemos sob a influência direta e desigual de um monopólio de megaempresas de tecnologia que têm o lucro como objetivo final, as chamadas big techs. “Eu sou uma pessoa muito pessimista quando olho para o Ocidente e vejo que esse caminho parece não ter escolha: é o que quatro empresas escolherem: Meta, Alphabet, Amazon, Nvidia”, disse Eduardo, que deixa evidente sua indignação e revolta com a desigualdade e até com a violência provocada por esse tipo de poder.
Sentimento de esperança
Para Eduardo, a viagem à China foi uma busca por uma alternativa, por novos caminhos para além daquele que ele acredita que as big techs impõem às sociedades pelo mundo. “Quando a gente vai pelo único caminho que existe, a primeira coisa que a gente perde é a liberdade”, afirma. Ao longo do filme, eles também procuram mostrar que essa inovação e tecnologia, que hoje viraram cartão de visita da China, fazem parte da história da civilização chinesa desde sempre.
“A ida à China primeiro me deixou assustado com tanta tecnologia, depois me deixou encantado com a forma como essa tecnologia é usada”, diz ele, que dá exemplos no documentário de como o país se mantém sempre atento em coletar o que parece ser descartável, gerar valor sobre isso e distribuir benefícios à população. A produção procura registrar como o antigo e o novo convivem em uma busca constante pelo equilíbrio e a harmonia. “A China usa o passado para humanizar o futuro, e talvez essa seja a sua maior contribuição para o mundo”, diz ele em sua narrativa. Mas, mencionando uma frase do presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, que disse pessoalmente a Eduardo que não se deve romantizar Cuba, ele comentou: “Também não vamos romantizar a China, mas o que ela vem fazendo ao longo das últimas décadas é, sim, inspirador, e representa uma esperança de um novo modelo, de um novo caminho que a gente pode escolher para seguir.”
Questionado, então, se essa ida à China o deixou menos pessimista, a resposta foi curta, mas subjugada a um sorriso largo: “Um pouquinho!”.











