Investimento estrangeiro na comunicação bate recorde no Brasil e amplia debate sobre presença global do país

O Brasil recebeu US$ 5,607 bilhões em investimentos estrangeiros nos setores de telecomunicações, informação e comunicação entre janeiro e setembro de 2026, o maior volume já registrado para o período. O montante representa crescimento de 8,1% em relação aos US$ 5,188 bilhões contabilizados nos nove primeiros meses de 2025, segundo dados do Banco Central analisados pelo Ministério das Comunicações.

O resultado ocorre em um momento de expansão da infraestrutura digital brasileira e de discussões sobre o papel do país na produção e circulação internacional de informações. Em entrevista à agência chinesa Xinhua, publicada em 1º de novembro, Marcos Oliveira, editor-chefe do jornal Monitor Mercantil, defendeu que veículos de comunicação brasileiros e chineses fortaleçam a cooperação para ampliar a presença de notícias do Sul Global no noticiário internacional.

As duas dimensões apontam para um mesmo desafio: ampliar a capacidade brasileira de participar da economia digital e de produzir, distribuir e fazer circular informações em escala internacional. Embora o recorde de investimentos não esteja diretamente relacionado à cooperação entre redações, o crescimento da infraestrutura de comunicação constitui parte do ambiente tecnológico necessário para essa transformação.

Capital estrangeiro impulsiona infraestrutura digital

O levantamento do Ministério das Comunicações mostra uma trajetória de crescimento dos investimentos no setor nos últimos anos. Nos primeiros nove meses de 2024, o volume havia alcançado US$ 4,994 bilhões; em 2023, US$ 4,285 bilhões; e, em 2022, US$ 3,363 bilhões.

Os recursos abrangem diferentes segmentos da infraestrutura e dos serviços digitais, como redes móveis, fibra óptica, centros de dados e serviços de informação. A expansão ocorre em meio ao aumento da demanda por conectividade de alta velocidade, capacidade de processamento e soluções digitais utilizadas por empresas e consumidores.

Para o ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, o resultado demonstra a importância estratégica da conectividade e da infraestrutura digital para o desenvolvimento econômico brasileiro. Segundo ele, o governo trabalha para modernizar redes, ampliar o acesso à conectividade e criar condições para atrair novos investimentos.

A infraestrutura também é relevante para o desenvolvimento de tecnologias como inteligência artificial, computação em nuvem e serviços digitais. Centros de dados, redes de transmissão e sistemas de armazenamento e processamento são parte da estrutura necessária para sustentar essas atividades.

O recorde, contudo, não significa que todo o capital estrangeiro recebido tenha origem chinesa. Os dados divulgados pelo Ministério das Comunicações reúnem investimentos internacionais no setor, sem apresentar, nesse levantamento, a distribuição por país de origem.

Editor defende maior cooperação entre Brasil e China

Na entrevista à Xinhua, Marcos Oliveira afirmou que Brasil e China deveriam aprofundar a colaboração entre seus meios de comunicação para ampliar a divulgação de notícias produzidas nos países do Sul Global.

Para o editor-chefe do Monitor Mercantil, uma das formas de desigualdade na cobertura internacional é a invisibilidade de acontecimentos em determinadas regiões. Ele citou como exemplo a diferença entre a atenção diária dedicada ao conflito na Ucrânia e a menor presença de conflitos no continente africano no noticiário de grandes veículos.

Oliveira também apontou que acontecimentos de países em desenvolvimento podem ser interpretados a partir de referências culturais externas, sem consideração suficiente por suas particularidades históricas e sociais. Na avaliação do jornalista, esse enquadramento afeta também a cobertura econômica e a percepção internacional sobre a participação do Sul Global na economia mundial.

Entre as iniciativas que poderiam aproximar as redações, ele mencionou intercâmbios profissionais, programas de treinamento e adoção de novas tecnologias. O objetivo seria não apenas ampliar a produção de conteúdo, mas também criar canais para que notícias elaboradas em países em desenvolvimento circulem em diferentes idiomas e mercados.

O editor citou plataformas multilaterais como a Cúpula Mundial da Mídia, a Rede de Notícias do Cinturão e Rota, o Fórum de Mídia e Think Tank do BRICS e o Fórum Hong Ting como espaços de intercâmbio entre organizações de comunicação.

Inteligência artificial e circulação internacional de notícias

A inteligência artificial foi outro tema destacado por Oliveira. Segundo ele, ferramentas de tradução de textos, áudios e vídeos podem facilitar a circulação de conteúdos entre países que não compartilham o mesmo idioma, reduzindo barreiras linguísticas e ampliando o alcance das produções jornalísticas.

O jornalista também alertou para os riscos associados à desinformação e à concentração do domínio da informação em grandes empresas de tecnologia. Na avaliação dele, o uso sem controle de ferramentas digitais e de inteligência artificial pode favorecer a circulação de notícias falsas e comprometer a confiabilidade do ambiente informativo.

Por isso, defendeu o fortalecimento de canais próprios de comunicação entre países do Sul Global e a construção de mecanismos de regulamentação capazes de proteger a circulação de informações confiáveis.

Oliveira participará da 7ª Cúpula Mundial da Mídia, encontro internacional voltado à cooperação entre organizações de comunicação e à discussão dos desafios do setor. Ele afirmou esperar que Brasil e China ampliem o intercâmbio de experiências entre seus veículos, incluindo iniciativas de formação profissional e desenvolvimento tecnológico.

O crescimento dos investimentos em telecomunicações e informação e o debate sobre cooperação jornalística tratam de dimensões diferentes, mas relacionadas, da presença brasileira no ambiente digital global. De um lado, a expansão da infraestrutura; de outro, a capacidade de produzir conteúdo e fazê-lo chegar a públicos de outros países.

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