A China pretende ampliar a infraestrutura internacional do yuan entre 2026 e 2030, com mais canais de pagamento transfronteiriço, maior liquidez nos centros financeiros offshore e abertura gradual de seus mercados. A estratégia foi detalhada pelo vice-presidente do Banco Popular da China, Lu Lei, em entrevista coletiva realizada em Pequim na quinta-feira, 10 de setembro.
Segundo o Gabinete de Informação do Conselho de Estado, as medidas incluem o aperfeiçoamento do Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços da China (CIPS), a conexão entre plataformas de pagamento por código QR e a ampliação do uso do yuan digital em operações internacionais. O objetivo é tornar liquidações em moeda chinesa mais acessíveis, sem apresentar o processo como substituição imediata das moedas hoje dominantes.
Liquidez e ativos em yuan
A China mantém atualmente 33 acordos bilaterais de swap em moeda local, com limite combinado de 4,6 trilhões de yuans. Esses instrumentos permitem que bancos centrais troquem moedas e ofereçam liquidez em momentos de necessidade. Eles não representam, por si só, recursos já utilizados ou uma garantia contra perdas cambiais.
Entidades estrangeiras possuem mais de 11 trilhões de yuans em ações, títulos, empréstimos e depósitos no mercado doméstico chinês. Mais de 80 bancos centrais ou autoridades monetárias já incluem a moeda em suas reservas, de acordo com Lu Lei. O governo também pretende emitir regularmente títulos soberanos e letras do banco central no exterior, apoiando a formação de preços e a disponibilidade de ativos denominados em yuan.
Hong Kong, Londres, Singapura e Dubai estão entre os centros apontados para o fortalecimento do mercado offshore. A Folha de S.Paulo, em reportagem baseada em informações da Reuters, destacou que o plano também busca preservar a estabilidade cambial e ampliar a liquidez fora da China, em vez de obter vantagem comercial por meio de desvalorização competitiva.
Pagamentos mais conectados
O CIPS funciona como uma infraestrutura de compensação e liquidação para operações em yuan. Sua expansão pode reduzir etapas em transações comerciais e financeiras, sobretudo quando compradores e vendedores já mantêm receitas, despesas ou financiamento na moeda chinesa. A interligação de sistemas de pagamento de varejo e o uso experimental do yuan digital procuram levar parte dessa integração a operações menores.
O ganho potencial, porém, depende de adesão bancária, disponibilidade de instrumentos de proteção, transparência de preços e compatibilidade regulatória. Usar uma moeda diferente do dólar pode reduzir uma conversão, mas também cria exposição direta à variação entre yuan e real. Empresas precisam comparar custos totais, prazos, liquidez e regras contratuais antes de mudar a moeda de faturamento.
O que muda para empresas brasileiras
China e Brasil já discutem maior uso de moedas locais no comércio e no financiamento. O novo plano oferece uma moldura internacional mais ampla para esse movimento, mas não anuncia um novo acordo específico com o Brasil. Para exportadores de commodities, importadores de máquinas e companhias com operações nos dois países, uma rede mais profunda de pagamentos em yuan pode criar alternativas de liquidação e crédito.
Bancos e empresas brasileiras deverão acompanhar quais instituições terão acesso aos novos canais e como serão tratados câmbio, compliance e remessas. A decisão de usar yuan continuará sendo comercial, baseada no fluxo de caixa de cada operação. Grupos com receitas e despesas na moeda podem encontrar uma proteção natural; negócios com apenas uma ponta exposta podem precisar de hedge adicional.
A internacionalização do yuan avança de forma incremental. Os números de reservas, ativos e swaps mostram que a moeda já possui presença global relevante, mas seu uso ainda depende de confiança, conversibilidade prática e profundidade de mercado. Até 2030, a efetividade das medidas será medida menos pelos anúncios e mais pelo volume de transações, pela participação de agentes estrangeiros e pela capacidade de administrar riscos.



