Brasil e China superam impasse fitossanitário e reforçam controle sobre embarques de soja

Brasil e China chegaram a um entendimento técnico para superar o impasse fitossanitário que vinha afetando embarques de soja brasileira. A informação foi dada pelo secretário de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Carlos Goulart, após uma reunião virtual entre autoridades dos dois países. Segundo ele, as equipes alinharam procedimentos e passaram a acompanhar as cargas para evitar novas interrupções.

O avanço é relevante porque a China é o principal destino da soja brasileira e qualquer alteração nos controles de entrada pode produzir efeitos imediatos sobre tradings, terminais portuários, produtores e preços. A solução anunciada não significa redução permanente das exigências chinesas. Ela indica que os dois lados encontraram uma forma de aplicar os protocolos e de tratar as não conformidades identificadas nos últimos meses.

De inspeções mais rígidas ao novo entendimento

O problema ganhou visibilidade em março, quando mudanças nos procedimentos de inspeção na China levaram a suspensão temporária de embarques por uma grande exportadora. As autoridades brasileiras identificaram cargas fora do padrão, sobretudo pela presença de sementes de plantas daninhas proibidas pelo protocolo bilateral. A partir daí, governo e setor privado intensificaram a revisão dos controles ao longo da cadeia.

Documentos do próprio Mapa mostram que a exportação de produtos vegetais ao mercado chinês depende do cumprimento rigoroso dos protocolos acordados com a Administração-Geral das Alfândegas da China. Entre os requisitos estão o certificado fitossanitário internacional, a rastreabilidade da produção, os registros de autocontrole e a habilitação dos estabelecimentos. A China também pode realizar auditorias documentais e inspeções presenciais.

Em entrevista à CNN Brasil publicada em 8 de setembro, Goulart afirmou que a questão foi equacionada depois de uma reunião bilateral e de um consenso técnico. O secretário acrescentou que o tema também foi tratado na subcomissão agrícola da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação, a Cosban. O trabalho agora se concentra no monitoramento dos embarques e na prevenção de novos desvios.

Previsibilidade é o principal ganho

Para os exportadores, o resultado mais importante é a recuperação da previsibilidade operacional. Uma carga rejeitada ou retida gera custos de armazenagem, redirecionamento e transporte, além de risco comercial para toda a cadeia. Quando os critérios são aplicados de maneira uniforme e os canais de consulta permanecem abertos, empresas conseguem ajustar limpeza, segregação, documentação e inspeção antes do embarque.

O episódio também mostra que volume exportado e acesso ao mercado são questões diferentes. O Brasil dispõe de oferta competitiva e ocupa posição central no abastecimento chinês, mas essa vantagem não substitui o cumprimento dos requisitos sanitários. A qualidade do grão, a rastreabilidade e a capacidade de corrigir rapidamente uma ocorrência são parte da competitividade do produto brasileiro.

O diálogo agrícola bilateral avançou ainda em outras frentes. Segundo o secretário, a China reconheceu o Brasil como país livre de febre aftosa sem vacinação e com risco insignificante para encefalopatia espongiforme bovina. Esses reconhecimentos criam base técnica para discutir protocolos de produtos como carne bovina com osso e miúdos, embora não representem, por si sós, abertura automática de mercado.

O que acompanhar daqui em diante

A etapa seguinte será decisiva para confirmar se o entendimento funciona na prática. Exportadores terão de observar os resultados das inspeções chinesas, eventuais notificações de não conformidade e novas orientações do Mapa. Para Pequim, a prioridade é garantir biossegurança e qualidade das importações; para Brasília, é preservar a continuidade de um fluxo comercial essencial ao agronegócio.

A superação do impasse reduz um risco imediato, mas não elimina a necessidade de controles permanentes. O episódio reforça que a relação agrícola Brasil–China depende tanto da escala das compras quanto da cooperação técnica cotidiana entre autoridades, produtores, terminais e empresas exportadoras.

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