China-EUA: relação de confronto ou cooperação?

Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, desembarca em Xangai sem recepção calorosa e em meio a uma pauta complexa entre Washington e Pequim

(Foto: Xinhua)

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, iniciou uma visita oficial de dois dias à China. Antes do desembarque, na quarta-feira (24,) em Xangai, onde foi recebido sem tapete vermelho, grupo de crianças ou banda de música, já estava ciente do alerta de Pequim: Washington quer confronto ou cooperação?

A visita de Blinken ocorre quando os EUA e a China buscam uma trégua em suas relações tensas e depois que os presidentes Xi Jinping e Joe Biden se encontraram em São Francisco (EUA) em novembro do ano passado e conversaram por telefone neste mês.

Não foi divulgado se Blinken será recebido por Xi, a quem o secretário de Estado dos EUA encontrou pela última vez em Pequim em junho do ano passado.

Em Xangai, o secretário de Estado dos EUA se encontrou com o chefe do Partido Comunista da China (PCCh), Chen Jining, nesta quinta-feira (25).

“Se a China e os EUA escolherem cooperação ou confronto, isso afeta o bem-estar de ambos os povos, das nações e também o futuro da humanidade”, disse Chen.

Blinken desembarcou em Pequim nesta quinta-feira. Está previsto um encontro entre ele e o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, até sexta-feira (26).

Alta tensão

As tensões estão altas devido às acusações dos EUA de que a China está apoiando a máquina industrial militar da Rússia na Ucrânia, fornecendo a Moscou materiais, incluindo semicondutores, ferramentas de máquinas sofisticadas e motores de mísseis de cruzeiro.

Espera-se que Blinken avise que os EUA tomarão medidas punitivas a menos que a China pare de enviar tecnologia relacionada a armas de uso duplo para a Rússia, reforçando uma mensagem semelhante da secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, durante uma visita à China neste mês.

Durante essa viagem, Yellen também indicou que Washington estava examinando o papel das instituições financeiras chinesas no comércio com a Rússia.

Em seus comentários antes da reunião a portas fechadas com Chen, Blinken não mencionou a Ucrânia, dizendo apenas: “Temos a obrigação de gerenciar o relacionamento entre nossos dois países de forma responsável.”

Pauta antecipada por Pequim

A agenda de Blinken prevê encontros com autoridades chinesas tanto em Xangai quanto em Pequim para tratar de uma série de questões bilaterais, regionais e globais.

Na última segunda-feira (22), o Ministério das Relações Exteriores da China delineou os cinco pontos que serão abordados com o secretário de Estado: estabelecer percepções corretas, aprimorar o diálogo, gerenciar efetivamente as diferenças, promover a cooperação mutuamente benéfica e assumir conjuntamente as responsabilidades de um país importante.

Já os EUA continuam a enviar sinais de “pressão por demandas”. Logo no primeiro dia da viagem, em Xangai, Blinken levantou preocupações sobre práticas comerciais desleais. Ele enfatizou que as empresas estadunidenses precisam de igualdade de condições e levantou a questão das práticas econômicas não mercantis.

Em coletiva de imprensa nesta quinta-feira (25), o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Wang Wenbin, respondeu ao comentário do secretário de Estado dos EUA.

“A China conduz sua cooperação comercial e econômica de acordo com os princípios de mercado, apoia firmemente o sistema comercial multilateral e respeita totalmente as regras da [Organização Mundial do Comércio] OMC. Esperamos que os EUA respeitem o princípio da concorrência justa, também observem as regras da OMC e trabalhem com a China para criar condições favoráveis ao crescimento sólido e constante das relações econômicas e comerciais entre a China e os EUA”, rebateu Wang.

Baixas expectativas no Ocidente

De um modo geral, as expectivas quanto a um resultado positivo da visita de Blinken são baixas, reporta a mídia ocidental.

Um dos principais jornais dos EUA, The New York Times, avalia que Blinken desembarca na China “com potencial problema no horizonte”, já que a visita ocorre enquanto democratas e republicanos competem para parecer mais duros com a China.

Reuters avalia que Blinken chegou com os laços bilaterais “em uma base mais estável”, mas com uma variedade assustadora de questões não resolvidas ameaçando a estabilidade das relações entre os dois países.

Associated Press também listou as principais divisões entre China e EUA e questões-chave que Blinken abordará na viagem, incluindo o conflito Rússia-Ucrânia, tensões no Oriente Médio e as questões de Taiwan e do Mar do Sul da China.

Contradições nas relações China-EUA

A mídia chinesa também tem poucas expectativas quanto ao sucesso da visita de Blinken em termos práticos. Nesta quarta-feira, ao Global Times, o diretor do Centro de Estudos Americanos da Universidade Fudan, Wu Xinbo, observou que a abordagem fundamental dos EUA é ver a China como sua competidora estratégica mais significativa e seu desafio geopolítico mais sério.

Nesse cenário de contradições, analisa Wu, os EUA adotam medidas para conter e suprimir a China sob o pretexto de contenção, enquanto simultaneamente precisa que a China coopere e faça concessões em uma série de questões importantes para os EUA.

“Há uma lacuna nas atitudes entre China e EUA, que se relaciona com as maneiras e ideias que ambos os lados adotam para lidar com as relações bilaterais. Por um lado, os EUA querem suprimir e se proteger contra a China, e por outro, esperam que a China dance conforme sua música”, disse Wu.

Apesar dessa lacuna nas atitudes entre os dois países, comentou ao Global Times o professor assistente de Ciência Política na Universidade Christopher Newport, Sun Taiyi, para a administração Biden, com o aumento contínuo das incertezas na Ucrânia e no Oriente Médio, os EUA não podem mais se dar ao luxo de desviar a atenção para fricções e conflitos potenciais na região da Ásia-Pacífico, que podem consumir ainda mais energia e recursos.

“Sob a estratégia da administração Biden de manter canais de comunicação por meio de trocas de alto nível normalizadas e rotineiras para reduzir os cálculos errados e evitar que a competição descontrolada leve a conflitos, Blinken assumiu o bastão da secretária do Tesouro, Janet Yellen, para fazer uma visita de rotina à China, disse Sun.

Muitas visitas e pressão e pouco consenso

Embora vários altos funcionários dos EUA tenham feito visitas frequentes à China, os EUA continuam a sinalizar sua estratégia de “aplicar pressão por suas demandas” e buscar mais “fichas de barganha” favoráveis para discussões.

Por exemplo, o Representante de Comércio dos EUA anunciou uma nova rodada de investigações da Seção 301 nos setores marítimo, logística e construção naval da China.

Os EUA estão elaborando sanções que ameaçam cortar alguns bancos chineses do sistema financeiro global, armando o principal enviado de Washington com alavancagem diplomática que os funcionários esperam que impeça o apoio comercial de Pequim à produção militar da Rússia.

A administração Biden também mobilizou Japão e Austrália para apoiar as Filipinas em provocar confrontos no Mar do Sul da China e publicou os Relatórios de 2023 sobre Práticas de Direitos Humanos por país, espalhando mentiras sobre as regiões de Xinjiang e Hong Kong da China.

A viagem de Blinken também ocorre quando o Congresso dos EUA aprovou nesta semana um projeto de lei para proibir o aplicativo de vídeo de curta duração TikTok se sua proprietária chinesa, ByteDance, não o vender dentro de 270 dias.

O projeto de lei que mira o TikTok foi aprovado pelo Senado dos EUA e sancionado pelo Casa Branca. O Legislativo estadunidense também aprovou um amplo pacote de ajuda externa que inclui apoio militar para a ilha de Taiwan.

Fatores de risco

O chefe do programa EUA-União Europeia do Centro de Segurança e Estratégia Internacional da Universidade Tsinghua, Sun Chenghao, comentou ao Global Times que, se os EUA agirem de forma excessiva ou provocativa, ele acredita que isso poderá impactar as relações transversais e as relações EUA-China.

“Acho que existem alguns fatores de risco nas futuras relações entre EUA e China. Um deles é a questão de Taiwan, especialmente por volta de 20 de maio, quando o líder regional eleito da ilha está previsto para assumir o cargo”, pontuou Sun .

Além disso, houve um breve período de otimismo e atmosfera positiva após a reunião entre os chefes de Estado dos dois países em novembro de 2023, que agora desapareceu devido a uma série de movimentos negativos de Washington.

“Nessas circunstâncias, é difícil esperar qualquer progresso positivo da visita de Blinken à China. As ações dos EUA fizeram a China sentir que não é uma parceira confiável, buscando apenas garantir o que quer enquanto apresenta preocupações e demandas irracionais de interesse”, disse Wu, da Universidade Fudan.

Entendimento favorece China e EUA, mas ainda é só plano

O aumento do diálogo entre EUA e China nos últimos meses reflete o interesse de ambos os lados em estabilizar as relações antes que a campanha presidencial nos EUA entre em pleno andamento este ano.

A China precisa que o relacionamento esteja em uma base mais estável para apoiar sua recuperação econômica. Já a administração Biden quer mostrar que pode gerenciar responsavelmente os laços enquanto ainda é vista como firme com Pequim.

A despeito da vontade dos dois lados em manter a abertura da comunicação, até agora os resultados práticos devem ser  limitados.

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