A inteligência artificial deixou de ser discutida nas Nações Unidas apenas como uma questão de inovação tecnológica e passou a ocupar espaço na agenda de segurança internacional. Em 23 de setembro, o Conselho de Segurança da ONU realizou uma reunião de alto nível sobre os riscos associados à tecnologia, com empresas chinesas entre os atores convidados a participar do debate. A discussão ocorreu durante a semana de alto nível da 81ª Assembleia Geral.
Entre as empresas chinesas convidadas estavam a DeepSeek e a Moonshot, que foram chamadas a apresentar suas posições sobre inteligência artificial e segurança internacional. A reunião, presidida pela França, também reuniu representantes de empresas e instituições de outros países, incluindo Sam Altman, da OpenAI, Dario Amodei, da Anthropic, Clément Delangue, da Hugging Face, e o cientista Yoshua Bengio.
A presença de empresas chinesas coloca o setor de IA do país dentro de uma discussão que ultrapassa a concorrência entre modelos e empresas. Ao levar o tema para o Conselho de Segurança, a ONU passou a tratá-lo também sob a perspectiva de possíveis impactos sobre a paz e a segurança internacionais. A agenda oficial do encontro foi registrada sob o item “Manutenção da paz e segurança internacionais”.
A posição chinesa sobre governança
A participação das empresas ocorre paralelamente à defesa do governo chinês de que a governança da inteligência artificial deve ser construída por meio de mecanismos multilaterais. Em 15 de setembro, o Ministério das Relações Exteriores da China afirmou que o país atribui importância equivalente ao desenvolvimento e à segurança da IA e defendeu o papel das Nações Unidas como principal canal para a construção de regras internacionais.
Na mesma ocasião, o porta-voz Guo Jiakun afirmou que a China pretende aperfeiçoar leis, regulamentações, políticas, normas de aplicação e princípios éticos destinados a prevenir abusos e usos maliciosos da tecnologia. Segundo o ministério, o objetivo é garantir que a IA seja segura, confiável e controlável.
Um dos instrumentos apresentados recentemente por Pequim é o Marco de Governança de Segurança da IA 3.0, divulgado pelas autoridades chinesas em setembro. O documento atualizou a classificação dos riscos relacionados à inteligência artificial e apresentou recomendações para medidas tecnológicas e mecanismos abrangentes de governança.
A iniciativa faz parte de uma agenda mais ampla que a China vem defendendo nos fóruns internacionais. Em julho, durante a Conferência Mundial de Inteligência Artificial e a Reunião de Alto Nível sobre Governança Global da IA, realizada em Xangai, participantes defenderam maior cooperação internacional, atenção aos riscos de uso abusivo da tecnologia e participação mais ampla dos países em desenvolvimento.
O documento final do encontro de Xangai também apoiou o fortalecimento do papel das Nações Unidas na governança global da IA e defendeu mecanismos para ampliar a participação de países do Sul Global no desenvolvimento, na aplicação e na governança dessas tecnologias. Na ocasião, foi anunciada ainda a criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO), com sede em Xangai e proposta de abertura a diferentes países.
Da inovação à segurança internacional
A mudança de escala do debate ficou evidente na própria Assembleia Geral. No dia 22, o secretário-geral da ONU, António Guterres, defendeu uma coordenação internacional mais forte para administrar os riscos da inteligência artificial e propôs uma estrutura multilateral de gestão de riscos apoiada por supervisão independente.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apresentou posição diferente ao rejeitar a criação de um mecanismo internacional destinado a controlar a IA. Já o presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu que diferentes regiões desenvolvam capacidade própria de computação e modelos de inteligência artificial, acompanhada de mecanismos independentes de auditoria.
No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu maior responsabilização das grandes empresas de tecnologia e afirmou que a regulação das chamadas big techs e da inteligência artificial é um desafio que precisa ser enfrentado.
A presidente sul-coreana Lee Jae-myung, por sua vez, destacou a possibilidade de a distribuição desigual dos benefícios da IA ampliar diferenças entre países e anunciou a criação de um polo global destinado a aproximar organizações internacionais, bancos multilaterais, empresas e universidades.
As posições distintas apresentadas em Nova York revelam que a discussão internacional não se limita à definição de limites para a tecnologia. Também envolve quem terá acesso à capacidade computacional, aos modelos avançados e aos benefícios econômicos da IA, além de quem participará da formulação das regras que orientarão seu desenvolvimento.
Nesse cenário, a entrada de empresas chinesas em uma reunião do Conselho de Segurança acrescenta uma dimensão tecnológica à disputa mais ampla sobre como será organizada a governança internacional da inteligência artificial. Para Pequim, a questão deve ser tratada em ambiente multilateral, com participação de diferentes países e atenção também às necessidades das economias em desenvolvimento.
A reunião de 23 de setembro não produziu, por si só, uma nova regra internacional vinculante sobre inteligência artificial. Seu significado está na incorporação do tema à agenda de paz e segurança das Nações Unidas e na participação, nesse espaço, de representantes de diferentes polos da indústria global de IA. O debate sobre quais mecanismos poderão transformar essa discussão em normas e formas permanentes de cooperação ainda está em andamento.



