Pesquisadores brasileiros anunciaram em 2 de fevereiro de 2026 o desenvolvimento de um corante natural extraído de um fungo amazônico com potencial para substituir corantes sintéticos em produtos cosméticos. O anúncio foi feito pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e divulgado também pela agência Xinhua, destacando o papel da ciência nacional na busca por soluções sustentáveis na indústria de beleza.
O organismo pesquisado, o fungo Talaromyces amestolkiae, foi originalmente encontrado na floresta amazônica brasileira. As tonalidades produzidas pelo fungo variam do amarelo ao vermelho intenso, o que o torna interessante para aplicações cosméticas que hoje dependem principalmente de pigmentos artificiais. Segundo a pesquisa, o extrato apresentou redução de mais de 75% das substâncias reativas ao oxigênio ao entrar em contato com a pele, diminuindo compostos associados a danos celulares, e mais de 60% das células analisadas permaneceram vivas após aplicação, sugerindo que o produto não compromete a saúde da pele. Os resultados foram publicados na revista científica ACS Omega.
O estudo, conduzido pela biotecnóloga Juliana Barone Teixeira com orientação de Valéria de Carvalho Santos, ambas da Universidade Estadual Paulista (UNESP), envolveu mais de uma década de testes até alcançar resultados consistentes. Teixeira explicou que o interesse inicial pelo fungo surgiu justamente por sua cor, o que levou a uma série de experimentos que culminaram na demonstração de que o corante pode ser aplicado em formulações cosméticas mantendo segurança, funcionalidade, textura e desempenho geral, sem prejudicar a experiência do consumidor.
A pesquisa foi realizada em condições que simularam o ambiente natural do fungo na Amazônia, especialmente temperaturas semelhantes às de Manaus, capital do estado do Amazonas, onde a espécie ocorre naturalmente. Esse processo permitiu a produção de pigmentos sem a necessidade de extração predatória de matéria-prima, o que pode representar um modelo tecnológico sustentável para atender à demanda global por “corantes naturais”, em um contexto em que diversos países têm restringido o uso de corantes sintéticos devido a associações com alergias e outros problemas de saúde.
O desenvolvimento desse corante microbiano coincide com um aumento do interesse mundial por soluções biotecnológicas que reduzam o impacto ambiental da indústria cosmética e de outras indústrias que dependem de corantes. Estudos anteriores sobre fungos amazônicos já haviam destacado que espécies do bioma possuem potencial para produzir pigmentos naturais interessantes para aplicações industriais, reforçando a importância da biodiversidade da região como fonte de recursos tecnológicos.
Atualmente, cerca de 20 estudantes de pós-graduação participam de projetos derivados dessa pesquisa, ampliando as investigações para aplicações em têxteis e até alimentos como gelatinas, além de buscar meios eficientes de escalar a produção do corante para uso industrial. A perspectiva é que esse tipo de tecnologia possa combinar sustentabilidade ambiental com o desenvolvimento de novos produtos no mercado brasileiro e internacional.













