Crise venezuelana reacende debate sobre ordem mundial e multipolaridade

Intervenção dos Estados Unidos e respostas globais intensificam disputas geopolíticas, com papel estratégico de China, Rússia e nações em desenvolvimento

(Foto: Reprodução)

A crise na Venezuela voltou a ser um ponto de inflexão nas relações internacionais em 2026, após uma operação militar dos Estados Unidos que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores em 3 de janeiro de 2026, gerando forte debate sobre soberania estatal, legalidade internacional e a configuração de uma ordem global multipolar. Reações divergentes ao episódio em diferentes partes do mundo ilustram tensões entre potências e a redefinição de normas de governança global.

A ação dos EUA contra o governo venezuelano provocou protestos diplomáticos de diversos países e organizações, inclusive no âmbito do Conselho de Segurança das Nações Unidas, onde nações como Brasil, China e Rússia defenderam a soberania venezuelana e condenaram a operação como violação do direito internacional. Por outro lado, governos europeus e ocidentais mantiveram posições mistas, com alguns repreendendo o uso da força, outras enfatizando o respeito ao princípio de soberania.

Especialistas afirmam que o episódio na Venezuela não é um evento isolado, mas parte de tendências geopolíticas mais amplas nas quais atores como China e Rússia buscam projetar influência e contrapoder ao que percebem como predominância norte-americana. A China, por exemplo, tem tradicionalmente mantido uma postura de defesa de não intervenção e respeito à soberania de estados, colocando-se como opção diplomática para países em desenvolvimento e reforçando parcerias no Sul Global, inclusive com Caracas em questões de comércio e investimentos de energia.

Para a Rússia, a crise venezuelana também tem implicações estratégicas, pois Moscou possui laços históricos com Caracas em cooperação militar e energética. Embora o foco russo esteja atualmente bastante ligado à guerra na Ucrânia, o Kremlin tem aproveitado eventos como a intervenção norte-americana para criticar o que descreve como erosão das normas internacionais e justificar sua postura de resistência a políticas externas dos EUA.

A situação venezuelana alimenta discussões sobre multipolaridade, conceito que descreve um sistema internacional no qual diversas potências — e não apenas uma hegemonia — influenciam decisões globais. Países do chamado Global South, incluindo China, Índia e alguns membros africanos, vêm defendendo maior autonomia estratégica, instituições multilaterais mais representativas e mecanismos de cooperação que não estejam centrados apenas nas potências ocidentais tradicionais.

No plano regional, a instabilidade venezuelana continua a ter repercussões diretas. A crise política e econômica prolongada provocou uma das maiores migrações da América Latina, impactando países vizinhos que enfrentam desafios em políticas de integração, segurança e direitos humanos. A relação entre Venezuela e seus parceiros latino-americanos tem sido objeto de negociações diplomáticas complexas, buscando formas de reduzir tensões e encorajar soluções internas pacíficas através de diálogo multilateral.

A crise em Caracas, suas respostas globais e as narrativas estratégicas que surgem ao redor dela refletem um momento de reconfiguração da ordem internacional. A competição por influência entre grandes potências, a defesa de modelos distintos de governança e as tensões sobre princípios como soberania e intervenção armada em países soberanos apontam para um mundo em que a multipolaridade — embora ainda em construção — é um dos vetores centrais das relações internacionais no início de 2026.

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