A ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e em dezenas de mortos em Caracas e arredores, provocou uma reação dura de Pequim. Em sucessivas declarações, o governo chinês condenou o uso da força, rejeitou a ideia de que qualquer país possa agir como “polícia do mundo” e defendeu que a crise venezuelana seja tratada no marco da Carta das Nações Unidas e do princípio de não intervenção.
O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, usou palavras incomumente diretas ao comentar o ataque durante a 7ª rodada do Diálogo Estratégico de Chanceleres China–Paquistão, em Pequim. Ele afirmou que a China “sempre se opõe ao uso ou à ameaça de uso da força e a qualquer imposição da vontade de um país sobre outro”, destacando que a súbita mudança da situação na Venezuela provocou “grande atenção” internacional. Wang acrescentou que Pequim “nunca acreditou que qualquer país tenha o direito de atuar como polícia mundial, nem de se autoproclamar juiz internacional”, sustentando que a soberania e a segurança de todos os países devem ser plenamente protegidas pelo direito internacional.
A posição foi reforçada pelo Ministério das Relações Exteriores chinês em coletiva de imprensa. Porta-vozes do governo expressaram “grave preocupação” com a operação e afirmaram que a ação militar norte-americana “viola claramente a Carta da ONU e as normas básicas das relações internacionais”. Pequim pediu que Washington garanta a integridade física de Maduro e de sua esposa, cesse atos que “minem a estabilidade” da Venezuela e retome o caminho de uma solução política, por meio do diálogo entre as partes internas e com respeito ao papel das Nações Unidas.
Para a diplomacia chinesa, o episódio é mais um exemplo de um cenário internacional que Wang Yi descreveu como “cada vez mais volátil e interligado”, no qual práticas de intimidação unilateral ganham espaço. Ao lado do Paquistão, o chanceler afirmou que Pequim está disposta a atuar com a comunidade internacional para “defender firmemente a Carta da ONU, manter o limite mínimo da moralidade internacional, respeitar a igualdade soberana de todos os países e salvaguardar conjuntamente a paz e o desenvolvimento mundiais”, retomando conceitos centrais da retórica chinesa sobre uma “comunidade com futuro compartilhado para a humanidade”.
O posicionamento tem também um claro componente estratégico. A China é há anos uma das principais credoras da Venezuela e importante destino do petróleo venezuelano, além de manter com Caracas uma “parceria estratégica de cooperação em todas as circunstâncias” reforçada em visitas presidenciais recentes. Analistas apontam que, ao condenar o ataque e insistir no respeito à soberania, Pequim sinaliza tanto a defesa de princípios que considera centrais para o Sul Global quanto a proteção de seus próprios investimentos e canais de diálogo em um país-chave para sua presença na América Latina.
Ao mesmo tempo, a reação chinesa é lida por observadores como parte de uma disputa mais ampla sobre as regras da ordem internacional. Enquanto Washington justifica a operação com base em acusações de narcotráfico e em argumentos de segurança interna, declarações de Pequim, de outros países em desenvolvimento e de especialistas em direito internacional enfatizam o risco de erosão do sistema multilateral sempre que ações militares são conduzidas sem mandato explícito do Conselho de Segurança. Nesse ambiente, a China procura se apresentar como voz de resistência ao uso unilateral da força, articulando-se com parceiros do Sul Global para contestar intervenções que percebem como violação de soberania e precedente perigoso para outros Estados.
À medida que o Conselho de Segurança da ONU e outros fóruns internacionais seguem debatendo as implicações jurídicas e políticas do ataque, a tendência é que Pequim mantenha uma linha de defesa rigorosa da integridade territorial venezuelana, ao mesmo tempo em que reforça suas credenciais de defensora da não intervenção e da solução pacífica de controvérsias. Para a China, o caso da Venezuela é mais do que uma crise regional: é um teste para os limites da força na política internacional e para a capacidade do sistema multilateral de conter a lógica da “lei do mais forte” em pleno século 21.












