O mundo perdeu neste mês uma de suas maiores referências na arte da fotografia documental: Sebastião Salgado, brasileiro, mineiro, economista de formação e humanista por vocação. Reconhecido internacionalmente por sua capacidade de captar a dignidade humana em meio a tragédias, conflitos e injustiças sociais, Salgado transformou sua câmera em instrumento de denúncia, poesia e memória coletiva.
Sua morte repercutiu intensamente na imprensa global, incluindo veículos da China, onde seu trabalho é admirado por profissionais da imagem, curadores, ambientalistas e pelo público em geral. Exposições com obras do artista passaram por Xangai, Pequim e Hong Kong ao longo das últimas décadas, e algumas de suas fotografias fazem parte de acervos de instituições culturais chinesas.
Salgado fotografou mineradores, camponeses, migrantes e refugiados em todos os continentes. Mas sua lente sempre teve um foco especial nas questões do Sul Global — região que compreende Brasil, África, América Latina e parte da Ásia. Nesse sentido, há uma sintonia implícita entre a visão de mundo do artista e a política externa brasileira de fortalecimento dos laços com países em desenvolvimento, entre eles a China.
Além de fotógrafo, Sebastião Salgado foi um pensador visual. Em seu monumental projeto “Gênesis”, percorreu regiões intocadas do planeta para mostrar que a natureza, quando protegida, pode ser a própria fonte da regeneração humana. Foi justamente essa abordagem que despertou especial atenção de ambientalistas chineses, que veem em sua obra uma confluência com os esforços da China na agenda da civilização ecológica.
Nos últimos anos, Salgado manteve um diálogo ativo com instituições culturais e universidades internacionais. Em 2021, ele recebeu o Prêmio da Paz dos Livreiros Alemães, reconhecido também por órgãos asiáticos, como o Centro Internacional de Fotografia de Tóquio e a Bienal de Xangai.
Seu legado é, sobretudo, um convite à empatia: para olhar nos olhos de desconhecidos e enxergar neles uma história digna de ser contada. No momento em que Brasil e China aprofundam suas conexões em temas como cultura, meio ambiente e desenvolvimento sustentável, a obra de Salgado ressurge como ponto de convergência estética e ética.
Mais do que um artista, Sebastião Salgado foi um cronista silencioso da condição humana. Sua partida deixa um vazio na fotografia, mas também uma trilha de luz para quem acredita que a arte pode, sim, transformar o mundo — e conectá-lo.