20.7 C
São Paulo
sábado - 02 março 2024 - 07:12

Primeira escola da China é inaugurada no Rio de Janeiro

Embora o Soft Power (também chamado de poder brando) seja apresentado sob diferentes aspectos, há categorias de poder que são amplamente conhecidas: econômica, militar e cultural. Não se nega que todas três são importantes, cada qual com suas atribuições e objetivos. Porém, é justamente a questão cultural que tende a ser negligenciada, sobretudo quanto ao seu alcance e influência.

Não é de hoje que os chineses entendem seu papel hegemônico no mundo. Desde que a China foi alçada à condição de potência global, Pequim entende o poder brando como uma ferramenta que pode ajudar a mitigar, a longo prazo, a teoria da “ameaça da China”, bastante difundida na América Latina e na União Europeia. O país quer convencer a comunidade internacional da natureza pacífica da sua ascensão, e as oportunidades que representa para seus parceiros comerciais.

É neste contexto que chegou ao Brasil, no início de 2021, a Escola Chinesa Internacional (ECI). Criada com o apoio financeiro de empresários chineses e do Consulado Geral da China no Rio de Janeiro, o objetivo desta instituição, descrito no site da ECI, “é proporcionar um ensino de referência internacional no Brasil, seguindo o modelo da educação básica da China, a fim de revelar talentos excepcionais”. A instituição enfatiza, ainda, que esta é a primeira escola chinesa em um país estrangeiro, dando a entender que onde nasce uma, em seguida aparece outra.

Nesta reportagem especial, à Sputnik investigou o que representa a chegada dos chineses à educação infantil no Brasil, e de que forma o ensino escolar pode influenciar positivamente a imagem da China em um país cujo presidente insiste em uma retórica xenófoba, partilhada, inclusive, por parte de seu eleitorado e alguns ministros.

Conversamos com o professor Marcos Cordeiro Pires, da Unesp, especialista em relações internacionais, para entender os efeitos do poder brando de Pequim. Além dele, a diretora da ECI, Yuan Aiping, e o professor de história da instituição, Lucas Melo, falaram sobre o trabalho que é desenvolvido pelo colégio.

O ensino chinês

Em junho de 2019, a maioria dos jornais brasileiros noticiou: “China é destaque na avaliação Pisa; Brasil entre os piores na educação”. A manchete foi o retrato de um paradigma social antigo e conhecido pelos brasileiros: o déficit do sistema educacional no país. As universidades de Tsinghua e Pequim figuram entre as 20 melhores do mundo, segundo levantamento da Times Higher Education World University Rankings. A publicação não cita uma que seja do Brasil.

Estudos que atestam a precariedade do sistema de educação no Brasil apresentam muitas explicações para a defasagem dos alunos brasileiros, como as condições socioeconômicas no país, o racismo estrutural, e, principalmente, a falta de investimento nos profissionais que atuam no setor. O ano de 2020, por exemplo, foi o que teve menor investimento do Ministério da Educação (MEC) no ensino básico na década.

Neste sentido, é importante fazer uma ressalva para compreender-se melhor o Brasil. A nota das escolas particulares de elite do país o colocaria na 5ª posição do ranking mundial de leitura do Pisa, ao lado da Estônia, que tem o melhor desempenho da Europa. Já o resultado isolado das escolas públicas estaria 60 posições abaixo, na 65ª, entre 79 países. A nota geral do Brasil está entre as mais as baixas do mundo nas três áreas avaliadas, leitura, matemática e ciência.

É também neste cenário que desembarcou no Rio de Janeiro a ECI, para competir com as principais escolas de elite do país, que em nada deixam a desejar às outras no mundo, como atestam os exames do Pisa. Comentando o sucesso prematuro da escola chinesa, a diretora Yuan Aiping sentenciou: “O governo da China abriu uma escola para filhos de imigrantes, e filhos de executivos, filhos dos trabalhadores chineses que estão no Brasil, e a gente jamais poderia imaginar que seríamos abraçados desta maneira. Hoje, a imensa maioria de alunos são de filhos de brasileiros”.

Questionada sobre a eficiência do modelo de ensino chinês, a diretora Yuan Aiping apresentou uma explicação. “Em primeiro lugar, é preciso enfatizar que o governo chinês incentiva a educação. Sempre se falou que a China é um país muito pobre, porém, desde que a China sofria com altos índices de desigualdade social, os professores eram bem remunerados. A China sempre priorizou esses profissionais. Na China há um ditado. O professor é a profissão mais brilhante, apenas abaixo do Sol”.

Para ela, os resultados destas políticas públicas são visíveis, “a China está sempre à frente no Pisa, e principalmente nas olimpíadas de matemática: quem sempre ganha medalhas é a China”. Ela também descreveu as aulas na ECI. “De manhã, às 7 horas começa a aula. Quando chega meio-dia, todos os nossos alunos voltam para casa. Eles descansam, almoçam, e depois voltam ao colégio. Até 18 horas”, disse ela, enfatizando que caráter integral do colégio é um diferencial em seu modelo de aprendizagem. Mas não é só isso.

– Outro ponto que deve ser enfatizado é o espírito de competição da China. O brasileiro não tem esse espírito de competição. Na China, ou você é o primeiro lugar, ou não tem parabéns. Não há cultura do segundo lugar. Na China, por causa da quantidade de pessoas que moram no país, é preciso ser o melhor sempre – comentou.

Ela também afirmou que “o governo chinês estimula uma educação muito rigorosa”, e que um diferencial que ela pode notar entre China e Brasil é o respeito à figura do professor. “Aqui nós tivemos que ensinar o aluno brasileiro a respeitar o professor. A não falar enquanto um profissional fala. São pequenas mudanças. Mas que fazem a diferença no resultado final”.

Tecnologia à serviço da educação

Brasileiro e professor da ECI, Lucas Melo falou sobre sua experiência na escola. “Na minha carreira foi um impacto muito grande. Nós não adotamos livros didáticos externos, e todo o material é reproduzido aqui na Escola Chinesa Internacional. Nós temos recursos, computadores, tudo que a gente precisa”.

Ele entende que há algumas mudanças no ensino praticado pela instituição chinesa. Segundo ele, uma primeira “adaptação foi a de tecnologia. Aqui nós temos um quadro da Huawei e cada aluno tem um tablet. Então há uma série de recursos que a gente pode trabalhar com eles”.

Ele revelou que, “recentemente, nós tivemos o aniversário de 60 anos da viagem do astronauta Yuri Gagarin. Nós usamos os equipamentos da Huawei para apresentar diversos mapas aos alunos, material da NASA, baixado on-line, antigos ônibus espaciais. Foi uma palestra com material muito vasto. Em uma escola normal, como os alunos não falam inglês, eu teria que traduzir o material todo”.

Questionado sobre a metodologia da ECI e as diferenças com os critérios pedagógicos praticados no Brasil, o professor disse que “dentro do conteúdo de história e geografia, o diálogo é essencial. E é nessa parte que entra a sinergia. Com os ensinamentos de Confúcio. A gente não pode dar a resposta inteira. É preciso permitir ao aluno chegar às suas próprias conclusões”. Ele lembrou que a escola chinesa pratica o Ensino Montessori, onde a autoeducação é a principal característica. Nesse sentido, a criança é vista como personagem importante e com papel ativo no processo de construção para o mundo.

A educação como ferramenta de Soft Power

O professor Marcos Cordeiro explicou que, na teoria nas relações internacionais, existem dois poderes: o Hard Power (militar, econômico, produtivo), e o poder brando, da cultura, de influenciar pessoas.

– Quando a gente pensa em um país que é muito distante, com um sistema político diferente, como é o caso da China, com absoluta certeza a questão da educação, e essa questão das vacinas é muito importante, também, assim como a culinária, a religião, e o próprio idioma, tudo isso faz parte de um pacote muito interessante que facilita o contato entre os povos, e é claro que também facilita a influência, que é o objetivo da China – afirmou.

– Se considerarmos, por exemplo, que a China está do outro lado mundo, e que a gente pouco conhece sobre o país deles, a educação, com a instalação da ECI é muito importante para ter a compreensão entre os povos. A educação cria pontos de contato entre culturas diferentes. É importante consideramos, neste sentido, quantos universitários brasileiros existem nos EUA. Qual é o nível de interação entre universidades brasileiras e norte-americanas. A gente sabe que a influência norte-americana no Brasil se dá por meio da cultura, finanças, militares, mas principalmente por este relacionamento acadêmico. É só pensarmos nas escolinhas de inglês. De uma hora para outra, recentemente, vemos crianças brincando de Halloween – explicou o professor.

– Na União Soviética, em Moscou, havia uma faculdade muito importante chamada Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, que ajudou a formar quadros em diversos países no mundo. Uma maneira de aproximar os povos e ampliar por meio da educação esse conhecimento mútuo – concluiu Marcos Cordeiro.

Diretora da ECI, Yuan Aiping disse à Sputnik Brasil que, em conversa com outros chineses no país, era notória que a ausência de uma escola chinesa para ensino infantil causava algum tipo de incômodo. “Nós reparamos que haviam escolas francesas, alemãs, inglesas e norte-americanas, então por que não uma chinesa? Para fazer isso, nós fizemos parcerias com algumas das maiores empresas da China”. Entre algumas citadas por Yuan Aiping, está a Huawei, responsável pelos quadros nas salas de aulas e envolvida em diversas polêmicas no mundo por sua rede de 5G.

Questionada sobre o uso da educação como ferramenta de Soft Power, Yuan Aiping relembrou que, “em primeiro lugar, é preciso enfatizar que a nossa cultura é milenar, são 5.000 anos de história. Nosso modelo de pensamento e aprendizado inspirado no filósofo Confúcio tem muito valor e muitos livros traduzidos. A ideia é trazer o nosso pensamento, uma educação voltada para lealdade, vontade e integridade”.

– Eu quero trazer para o Brasil o pensamento da China sobre a educação, e isso tem um grande valor no mercado, é só observar como os brasileiros abraçaram a ECI. E o ensino da China traz consigo valores muito importantes para sociedade, de família, de conhecimento. Nosso orientador é o nosso pensamento Confúcio. Os brasileiros precisam entender a valorizar essa cultura de excelência da China – comentou.

Intercâmbio cultural e a chegada do Instituto Confúcio

O programa Instituto Confúcio começou em 2004, na Coreia do Sul. A exemplo do Instituto Camões, ou do British Council, da Alliance Française e da Società Dante Alighieri, seu objetivo é promover a língua e a cultura de seu país. Dez anos depois de sua estreia, haviam mais de 480 institutos Confúcio em cerca de 50 países, em cinco continentes. A expansão destas instituições de ensino acompanha o desenvolvimento meteórico da economia chinesa, e o professor Marcos Cordeiro explicou o porquê disso.

– A China é um dos maiores investidores estrangeiros. O setor elétrico tem muito investimento chinês, e o automotivo está crescendo. Para se formar gestores, negociar com a China, para poder importar, você tem que ter conhecimento da cultura e do idioma, para evitar os ruídos culturais. O Instituto Confúcio tem esse papel importante – assinalou o especialista.

Há quem diga que a instituição serve como moeda de propaganda do governo da China, e que, inclusive, temas como o Taiwan e o Tibete tornaram-se tabus nas discussões acadêmicas entre professores chineses e alunos. Há, além disso, outras queixas. A Universidade Osaka Sangyo, do Japão, em 2010, rescindiu seu contrato o governo chinês alegando espionagem, o que nunca foi comprovado.

Sobre a atuação do Instituto Confúcio no Brasil, o professor Marcos Cordeiro apresentou uma explicação. Segundo ele, a China e os EUA possuem diferentes concepções para o poder brando. Ao passo que os norte-americanos “se colocam com uma visão missionária no mundo, como seus valores fossem os únicos verdadeiros, universais, de liberdade, e democráticos”, eles tem como “objetivo vender o american way of life“.

Em contraposição, ele avaliou que “a cultura da China se basta em si. Eles não querem transportar uma religião para o mundo, não tem por objetivo, algo que União Soviética fez bastante, um proselitismo político, vendendo um sistema político, e patrocinando partidos comunistas no mundo inteiro. A China não faz isso. Do ponto de vista político, não há uma pauta oculta, como existe no Soft Power dos EUA”.

Ele lembrou que, desde o inicio de 2017, com o governo de Donald Trump, “se iniciou uma competição muito dura com relação à China e à Rússia”. O professor comentou que um marco deste fato foi quando o secretário de Estado de Trump disse que a América Latina não precisa de outras potências externas egoístas, que buscam defender seus próprios interesses. “Depois disso, ocorreu uma avalanche de desinformação com relação ao papel da China e da Rússia na América Latina”, comentou.

Para Marcos Cordeiro, as agências internacionais, principalmente as mídias do ocidente, passaram a criar narrativas contra a China. Ele comentou neste aspecto as questões em Xinxiang. “Coloca-se que há ali um genocídio, mas isso é uma informação falsa. Martela-se com muita força essa questão do genocídio em Xinxiang”. Em seguida, citando outro exemplo, ele criticou a forma como está sendo tratado o leilão da 5G no Brasil.

Sentimento Anti-China

No Brasil, apesar da imigração massiva de japoneses desde 1930, sendo esta a maior colônia de imigrantes no país, setores da sociedade, em especial após a chegada da covid-19, passaram a expressar sentimentos de xenofobia para com pessoas de traços orientais. As ilações de Jair Bolsonaro e Donald Trump sobre a China circulam pelos grupos de redes sociais com afirmações absurdas sobre chineses, japoneses, vietnamitas e povos orientais em geral.

No atual governo brasileiro, em especial, este sentimento é latente. Questionada se não houve preconceito com a chegada da ECI, a diretora Yuan Aiping revelou alguns episódios, mas também frisou a aceitação da população: “Ninguém acreditou durante uma pandemia tão difícil, que depois de um mês e meio a gente não teria mais vaga. Temos filhos de políticos e muitos filhos de deputados. Mas nem por isso a gente pode deixar de que não teve sentimento anti-China no Brasil”.

– Teve um episódio agora no início. Toda segunda-feira a gente canta o hino nacional brasileiro, e depois o chinês, no playground do colégio. Uma vez o nosso vizinho, do prédio ao lado, começou a xingar a gente. Começou a fazer barulho”. Em outra ocasião dois professores chineses que trabalham aqui foram à praia. Na volta, os dois foram xingados na porta do colégio. Isso acontece em outros lugares também. No ano passado, muito ‘bolsonarista’ foi no Consulado da China fazer um protesto. A polícia precisou fazer uma barreira para proteger as pessoas – disse a diretora, citando alguns episódios.

No Brasil, apesar da imigração massiva de japoneses desde 1930, sendo esta a maior colônia de imigrantes no país, setores da sociedade, em especial após a chegada da covid-19, passaram a expressar sentimentos de xenofobia para com pessoas de traços orientais. As ilações de Jair Bolsonaro e Donald Trump sobre a China circulam pelos grupos de redes sociais com afirmações absurdas sobre chineses, japoneses, vietnamitas e povos orientais em geral.

No atual governo brasileiro, em especial, este sentimento é latente. Questionada se não houve preconceito com a chegada da ECI, a diretora Yuan Aiping revelou alguns episódios, mas também frisou a aceitação da população: “Ninguém acreditou durante uma pandemia tão difícil, que depois de um mês e meio a gente não teria mais vaga. Temos filhos de políticos e muitos filhos de deputados. Mas nem por isso a gente pode deixar de que não teve sentimento anti-China no Brasil”.

– Teve um episódio agora no início. Toda segunda-feira a gente canta o hino nacional brasileiro, e depois o chinês, no playground do colégio. Uma vez o nosso vizinho, do prédio ao lado, começou a xingar a gente. Começou a fazer barulho”. Em outra ocasião dois professores chineses que trabalham aqui foram à praia. Na volta, os dois foram xingados na porta do colégio. Isso acontece em outros lugares também. No ano passado, muito ‘bolsonarista’ foi no Consulado da China fazer um protesto. A polícia precisou fazer uma barreira para proteger as pessoas – disse a diretora, citando alguns episódios.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Compartilhar Artigo

BRL - Moeda brasileira
USD
4,9525
CNY
0,6882
spot_img

Popular

Artigos Relacionados
RELACIONADOS

Sem consenso sobre guerras, texto do G20 financeiro foca no combate à desigualdade

Sem consenso para um comunicado conjunto, o G20 financeiro...

Israel e EUA: o terrorismo como pretexto

Alguns dias após os massacres realizados pelo Hamas em...

Consórcio Sino-Brasileiro vence leilão para projeto de trem intermunicipal de São Paulo

Em um significativo avanço para a infraestrutura de transporte...

Israel mata mais de 100 civis famintos em Gaza em busca de ajuda humanitária

Em uma nova escalada do genocídio, forças de Israel...
Aceitar Notificação OK Não, Obrigado