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O papel do Ano Novo Chinês no calendário brasileiro

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As celebrações do Ano Novo Chinês já integram o calendário cultural da comunidade chinesa no Brasil, ocupando ruas, centros culturais e agendas institucionais nas grandes cidades. Mais do que uma data festiva, o evento expressa uma forma própria de organizar o tempo, valorizar a família e compreender a relação entre trabalho, natureza e sociedade. Aqui no Brasil, onde as relações com a China crescem de forma consistente, essas celebrações são oportunidades para marcas e profissionais que dialogam com o público chinês. É nesse contexto que Bob Wei, presidente da Chinarte – empresa que há mais de 20 anos atua na construção de pontes entre China e Brasil por meio de soluções de comunicação – explica por que entender esses códigos culturais deixou de ser curiosidade e passou a ser estratégia.

O Ano Novo Chinês está se aproximando – em 2026, a celebração ocorre em 17 de fevereiro no calendário Ocidental, marcando o início do Ano do Cavalo de Fogo. Como funciona a contagem do tempo na China e como o calendário lunar é tão central para a organização da vida social, cultural e econômica do país?

A contagem do tempo na China se baseia tradicionalmente no calendário lunar, adotado também, com variações, por outros países asiáticos. É um sistema ligado tradicionalmente às sociedades agrícolas e às fases da Lua, mais próximo da vida prática de quem vivia da terra e dos ciclos naturais das estações. Diferentemente do calendário gregoriano, usado no Ocidente e baseado no movimento da Terra em torno do Sol, o calendário lunar faz com que o Ano Novo Chinês não tenha data fixa, variando entre janeiro e fevereiro, podendo chegar até março. Mais do que medir o tempo, esse calendário organiza a vida social, cultural e simbólica da China, expressando uma visão de mundo baseada na observação da natureza, na transmissão de conhecimento e na continuidade das tradições.

Qual é a relação exata entre o calendário lunar e a agricultura?

No calendário lunar, os períodos do ano estão diretamente associados às atividades agrícolas. Os “feriados” correspondem a momentos de plantio, colheita e preparo da terra. Existem, inclusive, 24 divisões climáticas tradicionais que orientam essas práticas.

O que representa a festa do Ano Novo Chinês dentro desse calendário?

O Ano Novo Chinês marca simbolicamente o primeiro dia da primavera no Hemisfério Norte. Por isso, ele também é chamado de Festival da Primavera. A partir desse dia, inicia-se um novo ciclo de crescimento e renovação.

O quanto é importante para marcas e profissionais que se relacionam com a China estarem atentos ao Ano Novo Chinês?

É fundamental. O Ano Novo Chinês é uma celebração amplamente compartilhada em toda a Ásia e provoca uma paralisação real das atividades. Funciona de maneira muito semelhante ao período do Natal no Brasil: há recesso, interrupção de produção, logística reduzida e decisões adiadas. Empresas que ignoram esse calendário tendem a enfrentar atrasos, falhas de comunicação e rupturas na cadeia de fornecimento. Além disso, o Ano Novo Chinês não se resume ao dia da virada: ele acontece cerca de 15 dias antes e 15 dias depois, período em que fábricas, escritórios e parceiros simplesmente não operam. Estar atento a isso não é apenas uma questão cultural, mas estratégica para quem deseja construir relações consistentes e de longo prazo com a China.

Por que o ato de presentear é tão importante no Ano Novo Chinês e de que forma isso é visto como consumo?

Na cultura chinesa, nunca se visita alguém de mãos vazias. Isso vale para parentes, amigos e colegas. Dar presente não é consumo pelo consumo; é um gesto cultural profundo. A lógica do chinês não é pedir, é oferecer. A cultura chinesa sempre diz: o seu dever não é solicitar algo, é conceder alguma coisa. Isso também é muito confuciano (influência do filósofo Confúcio na sociedade chinesa).O presente, o hongbao (um envelope vermelho normalmente dado pelos mais velhos aos mais novos com dinheiro dentro), tudo isso simboliza desejo de prosperidade, continuidade e respeito. Por isso, o Ano Novo Chinês é, sim, o principal período de consumo na China e em grande parte da Ásia. É quando as pessoas compram, viajam, visitam familiares e movimentam a economia de forma intensa.

No fim, entender um outro povo começa por respeitar como ele pensa, celebra e se organiza

Esse comportamento cultural ajuda a explicar como a China se relaciona historicamente com outras culturas?

Ajuda muito. A base da cultura chinesa é recepção, absorção e expansão. A China foi invadida várias vezes ao longo de milhares de anos, mas quem invadiu acabou sendo absorvido pela cultura chinesa. Mongóis, manchus, povos da Ásia Central, nenhum deles conseguiu “converter” a China. O que aconteceu foi o contrário: eles viraram chineses culturalmente. A China nunca teve como objetivo sair conquistando territórios para transformar outros países em China. Quando se tornou uma potência, no século XVI, ela ofereceu seda, porcelana, chá, arte, tecnologia… Entregou cultura ao mundo. E o mundo adotou. Isso explica essa lógica de dar antes de pedir.

O Ano Novo Chinês pode se tornar uma grande data comercial fora da Ásia, como o Natal no Ocidente?

Na China, ele já é. Fora da Ásia, ainda não é visto com a mesma força, o que o torna uma grande oportunidade. No Brasil, o público já conhece o Ano Novo Chinês, mas ainda não incorporou essa data culturalmente como fez com o Natal ou até com o Halloween, que não tem nada a ver com o nosso clima ou com a nossa realidade. Para marcas que se relacionam com a China, ou que querem entrar nesse mercado, entender esse calendário é básico. Durante pelo menos 15 dias do Ano Novo Chinês, o país praticamente para. Não tem embarque, não tem produção, não tem negociação. Quem trabalha com importação e exportação sabe disso. Marca nenhuma consegue atuar bem na China sem entender quando as pessoas comemoram, consomem e descansam. Não é ideológico, é cultural e estratégico.

E por que a China protege tanto suas próprias tradições, limitando festas ocidentais como Natal ou Halloween?

A China entende cultura como algo estratégico. O confucionismo, o taoismo e o budismo moldam o caráter chinês há séculos. Mesmo não sendo religiões no sentido ocidental, elas definem ética, comportamento e convivência social. A China viu o que aconteceu em outros países e prefere preservar sua identidade. Isso não significa fechar-se ao mundo, mas absorver o que vem de fora sem perder a base cultural. É exatamente o que ela sempre fez ao longo da história.

O que as marcas brasileiras precisam entender ao olhar para o mercado chinês, essas tradições, sua maneira de consumir?

Que é outro mundo, outra escala e outra lógica. Estamos falando de um país que alimenta 1,4 bilhão de pessoas e praticamente eliminou a fome. É um mercado gigantesco, altamente organizado e com prioridades diferentes das nossas no Brasil. Quem quer atuar na China precisa conhecer a cultura, os calendários, valores e comportamento. Não dá para aplicar a lógica brasileira lá. Assim como não faz sentido importar modelos culturais prontos de outros locais, sem reflexão, também não faz sentido ignorar o peso que datas como o Ano Novo Chinês têm para consumo, logística, turismo e negócios. No fim, entender um outro povo começa por respeitar como ele pensa, celebra e se organiza.

Como a China lida hoje com dois calendários diferentes?

Os dois calendários convivem. O calendário gregoriano é usado para trabalho, negócios e relações internacionais. Já o calendário lunar orienta festividades, aniversários tradicionais, feng shui, signos do zodíaco chinês e rituais familiares.

Quais são os principais festivais organizados pelo calendário lunar?

Entre os mais conhecidos estão o Festival da Primavera (Ano Novo Chinês), o Festival das Lanternas (Yuanxiao Jie), celebrado 15 dias após o Ano Novo, e o Festival do Meio do Outono (Zhongqiu Jie), associado à lua cheia mais brilhante do ano.

Atualmente, esses rituais ainda são seguidos rigorosamente?

Muitos deles, sim, especialmente em famílias mais tradicionais. Outros foram se adaptando ao longo do tempo, principalmente devido às mudanças sociais e à redução do tamanho das famílias nas gerações mais recentes.

E quais são os principais rituais desse período do Ano Novo Chinês?

Os rituais começam antes. Há um período de preparação que envolve limpar a casa para simbolizar o descarte do que pertence ao ano anterior, fazer as compras e preparar os alimentos da celebração. Em muitas famílias, também existem cerimônias tradicionais ligadas à espiritualidade, como os rituais dedicados ao chamado Deus do Fogão, figura da tradição taoista associada à proteção do lar e ao registro simbólico das ações do ano que se encerra. Após a virada, o foco passa a ser o convívio familiar: jantares, visitas aos parentes mais próximos e, nos dias seguintes, aos amigos e demais familiares.

“Na cultura chinesa, o respeito aos mais velhos não é só uma questão de educação ou de tradição bonita; é algo muito prático”

Morando no Brasil há tantos anos, como você concilia e celebra o Ano Novo Ocidental e o Ano Novo Chinês no seu dia a dia e em família?

A gente acaba celebrando os dois. Não tem muito segredo: comemoramos duas festas. Em casa, eu, minha esposa e minha filha convivemos naturalmente com os dois calendários: o ocidental organiza o trabalho e a vida cotidiana no Brasil, enquanto o calendário lunar segue presente nas tradições, nas datas simbólicas e na forma como a família chinesa costuma celebrar.

No seu caso pessoal, como funciona o cálculo e a celebração do seu aniversário a partir do calendário lunar e da lógica do Ano Novo Chinês?

Na minha família, especialmente entre os mais velhos, o aniversário é comemorado pelo calendário lunar, não pela data do documento oficial. No meu caso, nasci no chamado Xiaonian, o “pequeno Ano Novo”, que acontece sete dias antes do Ano Novo Chinês e marca o início dos preparativos para a virada do ano. Há também outros exemplos na família: tenho um primo que nasceu durante o Festival do Meio do Outono. Essas referências são comuns. Em vez de uma data fixa, o nascimento costuma ser lembrado em relação aos grandes festivais do calendário lunar, considerando quantos dias antes ou depois daquela celebração a pessoa nasceu.

Os mais velhos têm um papel importante nessas celebrações, não é?

Os mais velhos ocupam uma posição central. Eles são reverenciados como transmissores de experiência e conhecimento.

Poderia comentar mais sobre a importância deles na cultura chinesa?

Como é que uma cultura se mantém? Como é que a experiência passa de uma geração para outra? Antigamente, chegar a uma idade avançada era raro. Então, quem acumulava uma experiência enorme era fundamental para a sobrevivência de todo mundo. O ser humano só é humano porque consegue ter consciência da própria experiência e repassá-la. Um panda não consegue fazer isso. Ele sobe num galho, o galho quebra, ele cai e não consegue avisar ao outro panda: “Olha, não suba nesse galho, porque ele não aguenta o seu peso”. O ser humano é diferente. Ele erra, aprende, guarda aquilo e passa adiante. Antes de existir livro, computador, HD, qualquer tipo de registro, tudo era passado pela fala. Era o mais velho contando para o mais novo. Era assim que a informação sobrevivia. Quem concentrava esse conhecimento eram os mais velhos, porque já tinham vivido mais, errado mais, aprendido mais. Por isso, na cultura chinesa, o respeito aos mais velhos não é só uma questão de educação ou de tradição bonita; é algo muito prático. O mais velho já foi o que você é hoje. As dúvidas que você tem agora, ele já teve. Os medos, as decisões difíceis, tudo isso ele já enfrentou. Respeitar o mais velho é respeitar o conhecimento acumulado. É reconhecer que aquela pessoa carrega um repertório que evita erros, que ajuda a tomar decisões melhores. No fim das contas, os mais velhos são a memória viva da sociedade. Sem essa transmissão de experiência, a gente começa tudo do zero toda vez, e isso não faz sentido para nenhuma cultura que quer durar.

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