Plataforma Cena Brasil leva 166 profissionais brasileiros a Xangai para ampliar intercâmbio cultural

A presença brasileira no circuito cultural chinês ganha espaço em outubro com a Plataforma Cena Brasil, iniciativa que reúne 166 artistas, curadores, programadores, produtores e outros profissionais em Xangai. Integrada ao Ano Cultural Brasil-China 2026, a programação, de 14 a 31 de outubro, combina apresentações artísticas, encontros profissionais e atividades de formação, com o objetivo de ampliar a circulação da produção nacional na Ásia e estabelecer parcerias de longo prazo.

A iniciativa reúne trabalhos de cinco estados — Amazonas, Ceará, Minas Gerais, Paraná e Rio de Janeiro — em linguagens que incluem teatro, teatro de bonecos, dança e música de concerto. Além dos espetáculos, a plataforma promove o primeiro Fórum Brasil-China de Artes Performativas e encontros voltados à aproximação entre instituições culturais, festivais, curadores e programadores dos dois países.

O desafio central é transformar a visibilidade das apresentações em oportunidades concretas de circulação, coprodução e intercâmbio. Segundo o idealizador da iniciativa, Paulo Feitosa, diretor da Quitanda Soluções Criativas, a estratégia busca estabelecer relações que continuem depois do encerramento da programação em Xangai.

A organização anunciou a participação de 15 representantes de festivais, centros culturais e instituições ligadas às artes cênicas em rodadas de negócios e encontros com profissionais chineses e internacionais. A expectativa divulgada antes do início das atividades era realizar mais de 60 reuniões. Até o momento, as fontes públicas consultadas não apresentam um balanço consolidado que permita confirmar quantas reuniões ocorreram ou quais parcerias resultaram desses encontros.

Apresentações brasileiras em diferentes linguagens

A programação artística foi estruturada para apresentar ao público chinês diferentes expressões da produção cultural brasileira.

A Orquestra Sinfônica do Paraná abriu a agenda artística em 17 de outubro com obras de Alberto Nepomuceno, Heitor Villa-Lobos e Camargo Guarnieri, incluindo as Bachianas Brasileiras nº 4. O repertório destaca compositores associados à formação e ao desenvolvimento da música de concerto no Brasil.

Para 20 de outubro, a programação prevê duas obras da Paracuru Companhia de Dança, do Ceará: Praia das Almas e O que Você Tem na Cabeça, ambas com coreografia de Jorge Garcia. A primeira aborda memória e apagamento histórico a partir de um lugar ligado à origem do município de Paracuru. A segunda parte de referências ao personagem Menino Maluquinho, de Ziraldo, e incorpora elementos de manifestações populares brasileiras.

No dia 21, o grupo mineiro Giramundo apresenta no Lyceum Theatre sua versão de Alice no País das Maravilhas. A montagem combina teatro de bonecos, animação digital, projeções e stop motion, reunindo diferentes recursos que marcam a trajetória da companhia.

A programação prevista para os dias 29 e 30 inclui As Cores da América Latina, da Panorando Cia. e Produtora, de Manaus. O espetáculo combina teatro e dança a partir de referências à Fiesta de la Tirana, do Chile, à Huaconada, do Peru, e ao Cavalo-Marinho, do Brasil.

Também no dia 30, Os Ciclomáticos, companhia do Rio de Janeiro, apresenta Tudo Faz Sentido, mas é Mera Coincidência. A montagem combina teatro, performance e recursos audiovisuais para abordar as contradições de uma sociedade marcada pela conexão digital, pelo excesso de informação e pelo distanciamento nas relações presenciais.

Fórum discute cooperação entre instituições

O primeiro Fórum Brasil-China de Artes Performativas começou em 14 de outubro, no espaço cultural Fotografiska, com o painel “Paisagens Performativas do Brasil: Diversidade e Experimentação”. No dia seguinte, a Shanghai Theater Academy recebeu debates sobre formação, pesquisa, redes de cooperação do Sul Global e estruturas de apoio à circulação artística.

A agenda também prevê um memorando de entendimento entre a Fundação Nacional de Artes (Funarte) e a Shanghai Theater Academy. Conforme o material divulgado antes da programação, o documento tem como objetivo promover cooperação acadêmica, formação e circulação artística. A previsão de assinatura constava na agenda de 17 de outubro, mas não foi possível confirmar, nas fontes públicas consultadas, se o acordo foi efetivamente formalizado.

Outro eixo da iniciativa é a aproximação com redes internacionais de festivais. A programação inclui pitches de projetos, um espaço de networking e a Conferência Silk Road, vinculada à Network of Silk Road Arts Festivals. A intenção é aproximar profissionais brasileiros de instituições e programadores que possam contribuir para futuras temporadas, coproduções e intercâmbios.

A estratégia também prevê que as conexões estabelecidas na China possam abrir espaço para a presença de artistas e instituições chinesas em programações brasileiras. A participação de curadores e programadores de diferentes regiões do Brasil busca ampliar o alcance dessas relações para além dos integrantes da delegação.

Cultura como eixo das relações Brasil-China

A Plataforma Cena Brasil integra o Ano Cultural Brasil-China 2026, que marca os 50 anos do estabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países. A iniciativa é apresentada pelo Ministério da Cultura e pela Vale e realizada por meio da Lei Rouanet, com participação da Cinco Elementos Produções, da Quitanda Soluções Criativas, do Instituto Ibero Culturas e da Funarte. A produção executiva é da Peixe-Mulher, em parceria com o China Shanghai International Arts Festival e a Network of Silk Road Arts Festivals.

A proposta parte da avaliação de que a produção brasileira ainda tem espaço para ampliar sua presença no mercado cultural chinês. Ao combinar apresentações públicas, formação e encontros profissionais, a plataforma busca conectar os artistas a estruturas de programação já estabelecidas e criar condições para que a circulação internacional não se restrinja a participações pontuais.

O resultado de longo prazo, contudo, dependerá dos desdobramentos das negociações e da continuidade das relações institucionais. A realização das apresentações e dos encontros demonstra a dimensão da iniciativa, mas não comprova, por si só, a concretização de novas temporadas, coproduções ou acordos comerciais.

A Plataforma Cena Brasil segue com programação até 31 de outubro. Um balanço final deverá permitir avaliar quantas reuniões foram realizadas, quais parcerias avançaram e se os compromissos institucionais anunciados se converteram em iniciativas concretas de intercâmbio cultural entre Brasil e China.

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