Brasil e China ampliam cooperação hídrica

Brasil e China ampliaram a cooperação na gestão dos recursos hídricos com a assinatura de um memorando de entendimento que prevê intercâmbio de tecnologias, pesquisas conjuntas e capacitação técnica. O acordo, firmado em 13 de outubro, em Beijing, pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) do Brasil e pelo Ministério dos Recursos Hídricos da China, estabelece uma agenda de colaboração voltada à segurança hídrica, à modernização da infraestrutura e à prevenção de secas e inundações.

A iniciativa foi acompanhada por uma missão técnica brasileira realizada entre 12 e 16 de outubro, com representantes do MIDR e da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Em Beijing e Xangai, a delegação conheceu soluções chinesas de monitoramento hidrológico, simulação digital de bacias, reúso de águas residuais, controle de cheias e gestão urbana da água.

A cooperação contempla áreas como planejamento e operação de grandes estruturas hídricas, transferência de água a longas distâncias, gestão de bacias hidrográficas, adaptação às mudanças climáticas e transformação digital. O documento também prevê iniciativas de proteção ecológica e desenvolvimento sustentável de reservatórios e barragens.

Com validade de cinco anos, o memorando cria uma base institucional para a continuidade do intercâmbio entre as autoridades dos dois países. A aplicação prática das iniciativas dependerá da definição de projetos, prioridades e mecanismos de execução.

Gêmeos digitais ajudam a prever riscos e orientar decisões

Uma das tecnologias apresentadas à delegação brasileira foi a dos chamados gêmeos digitais de bacias hidrográficas. O sistema utiliza representações virtuais de rios, reservatórios e outras estruturas, integrando dados de monitoramento com modelos hidrológicos e ferramentas de simulação.

Na prática, essas plataformas podem ajudar gestores a acompanhar as condições de uma bacia, simular cenários e avaliar possíveis consequências de chuvas intensas, estiagens ou alterações na operação de reservatórios. As informações podem apoiar a previsão de eventos extremos, a identificação de riscos e o planejamento de medidas preventivas.

Durante a visita ao Instituto de Pesquisa em Recursos Hídricos e Energia Hidrelétrica da China, os especialistas brasileiros conheceram aplicações dessa tecnologia na gestão hídrica. A experiência interessa ao Brasil, onde a extensão territorial, a diversidade climática e a distribuição desigual dos recursos hídricos tornam o monitoramento integrado particularmente relevante.

A ANA apontou o potencial de aproveitamento dessas experiências em áreas como previsão e alerta de eventos extremos, gestão de riscos climáticos, operação integrada de reservatórios e apoio à tomada de decisões.

A adoção de sistemas digitais, porém, depende da qualidade e da atualização dos dados, da integração entre órgãos e da capacidade técnica das equipes responsáveis. A tecnologia é uma ferramenta de apoio à gestão, não uma garantia isolada de prevenção de desastres.

Projeto chinês de transposição já transferiu mais de 90 bilhões de metros cúbicos de água

A missão também visitou o centro de controle da rota central do Projeto de Transposição de Águas Sul-Norte, uma das maiores obras de transferência de água do mundo. O sistema transporta recursos hídricos de regiões do sul da China, onde há maior disponibilidade, para áreas do norte sujeitas a maior pressão sobre o abastecimento.

Segundo dados oficiais chineses divulgados pela Xinhua, até agosto de 2026, a primeira fase das rotas leste e central havia transferido mais de 90 bilhões de metros cúbicos de água. O sistema atendia 48 grandes cidades e beneficiava aproximadamente 195 milhões de pessoas.

A dimensão do projeto oferece referências sobre operação de sistemas complexos, controle de fluxos, monitoramento e coordenação entre diferentes estruturas. Essas experiências podem contribuir para o debate brasileiro sobre segurança hídrica, embora as características geográficas, ambientais e sociais de cada país exijam soluções específicas.

No Brasil, uma das principais infraestruturas voltadas à ampliação da disponibilidade de água é o Projeto de Integração do Rio São Francisco, que busca levar água a áreas do semiárido nordestino por meio de canais, estações de bombeamento e outras estruturas.

O projeto possui dois eixos principais, Norte e Leste, que somam aproximadamente 477 quilômetros de canais e estruturas associadas. Foi concebido para beneficiar cerca de 12 milhões de pessoas em centenas de municípios de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte.

A operação de sistemas dessa dimensão exige planejamento da distribuição, manutenção dos equipamentos, monitoramento contínuo e coordenação institucional. O intercâmbio com a China pode ajudar a identificar práticas aplicáveis a esses desafios, mas o memorando não determina a transferência de tecnologias específicas nem anuncia investimentos chineses para a obra brasileira.

Reúso de água em Beijing supera 1,3 bilhão de metros cúbicos por ano

Outro destaque da missão foi a visita à Estação de Reciclagem de Água de Huaifang, em Beijing, onde a delegação conheceu processos de tratamento e reaproveitamento de águas residuais.

O reúso permite destinar água tratada a usos compatíveis com sua qualidade, reduzindo a necessidade de captar água de fontes naturais para determinadas atividades. Conforme o tratamento e as normas aplicáveis, a água reaproveitada pode ser utilizada, por exemplo, na irrigação de áreas verdes, em processos industriais e em outras finalidades não potáveis.

Segundo dados da autoridade local de recursos hídricos, o volume anual de água de reúso em Beijing superou 1,3 bilhão de metros cúbicos durante o 14º Plano Quinquenal, de 2021 a 2025, o equivalente a mais de 30% do consumo total de água da cidade.

O resultado demonstra a escala que o reaproveitamento pode alcançar quando integrado ao planejamento urbano e à infraestrutura de saneamento. A experiência também evidencia que a segurança hídrica não depende exclusivamente da construção de reservatórios ou da transferência de água entre regiões: reduzir perdas, tratar e reutilizar efluentes e melhorar a eficiência do consumo são estratégias complementares.

Para o Brasil, o intercâmbio nessa área pode contribuir para discutir alternativas de abastecimento, especialmente em cidades que enfrentam pressão sobre os mananciais ou precisam diversificar suas fontes de água.

A adoção de sistemas de reúso exige investimentos em tratamento, redes de distribuição adequadas, controle de qualidade e regras claras sobre as aplicações permitidas. O planejamento deve considerar os custos e os riscos sanitários e ambientais de cada utilização.

Projeto “Cidade Esponja” busca reduzir alagamentos

Em Xangai e na região do Delta do Rio Yangtzé, a delegação conheceu experiências de gestão urbana da água, restauração de rios e monitoramento de recursos hídricos. A programação incluiu um projeto conhecido como “Cidade Esponja”, modelo de planejamento urbano que busca aumentar a capacidade de absorção, retenção e aproveitamento da água da chuva.

A abordagem utiliza soluções como áreas verdes, superfícies permeáveis, espaços de retenção e estruturas de drenagem que ajudam a desacelerar o escoamento da água. Ao permitir maior infiltração e armazenamento temporário, essas medidas podem contribuir para reduzir a pressão sobre os sistemas convencionais de drenagem durante chuvas intensas.

O modelo também se relaciona à adaptação das cidades às mudanças climáticas, sobretudo diante do risco de precipitações concentradas e alagamentos urbanos. Seus resultados dependem das condições locais, do desenho das intervenções e da integração com a infraestrutura de drenagem existente.

A visita também incluiu experiências de restauração de rios e gestão de bacias, temas que conectam a infraestrutura hídrica à recuperação ambiental. A proteção das margens, a melhoria da qualidade da água e a recuperação de espaços naturais podem complementar as obras tradicionais e contribuir para a resiliência das cidades.

Essas práticas integram a agenda prevista no memorando entre Brasil e China, que inclui soluções baseadas na natureza, uso sustentável da água e proteção ecológica.

Cooperação prevê pesquisas conjuntas e capacitação

Além das visitas técnicas, o memorando estabelece possibilidades de intercâmbio de informações, oficinas, cursos, pesquisas conjuntas e aproximação entre autoridades responsáveis por bacias hidrográficas.

A ANA poderá participar da implementação do acordo, inclusive por meio da representação brasileira em um comitê gestor conjunto e em grupos de trabalho temáticos. Entre os assuntos previstos estão monitoramento hidrológico, previsão e alerta, infraestrutura hídrica, transformação digital e adaptação às mudanças climáticas.

A cooperação dá continuidade a uma relação institucional que já possui antecedentes. Brasil e China firmaram entendimentos anteriores sobre recursos hídricos, incluindo um memorando em 2011 voltado à gestão sustentável, à proteção e ao uso da água.

A nova iniciativa amplia o escopo de colaboração ao explicitar temas ligados à transformação digital, à prevenção de eventos extremos e à modernização da infraestrutura.

Durante a missão, a delegação brasileira também tinha na agenda tratativas com o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), instituição financeira multilateral criada pelos países do BRICS, sobre possíveis formas de cooperação técnica e financiamento de projetos de segurança hídrica e infraestrutura sustentável. A previsão dessas conversas, entretanto, não equivale à aprovação de financiamentos ou à confirmação de novos investimentos.

Segurança hídrica como desafio compartilhado

Brasil e China apresentam diferenças importantes na disponibilidade de água, na distribuição populacional e nas necessidades de infraestrutura. Ainda assim, ambos enfrentam desafios relacionados à gestão de grandes bacias, à demanda urbana e agrícola, à prevenção de eventos extremos e à necessidade de equilibrar o desenvolvimento com a proteção ambiental.

A experiência chinesa oferece referências em sistemas de transferência de água, reúso em larga escala, monitoramento digital e planejamento urbano. Para o Brasil, o valor do intercâmbio estará em avaliar quais soluções podem ser adaptadas às condições nacionais, respeitando as características de cada território e as necessidades das populações atendidas.

O memorando estabelece uma estrutura de cooperação para os próximos cinco anos, mas seus efeitos dependerão da transformação das diretrizes em atividades e projetos concretos. Entre os resultados que poderão ser acompanhados estão melhorias nos sistemas de monitoramento, fortalecimento da capacidade de previsão, maior eficiência no uso da água e avanços na gestão de riscos.

A parceria coloca a segurança hídrica no centro da cooperação bilateral e amplia o espaço para a troca de conhecimentos técnicos entre os dois países. O desafio será converter essa aproximação institucional em benefícios verificáveis para o abastecimento, a prevenção de desastres e a conservação dos recursos naturais.

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