A China defendeu o fortalecimento da cooperação internacional em medicina tradicional como parte dos esforços para enfrentar desafios globais de saúde. A proposta foi apresentada pelo primeiro-ministro chinês, Li Qiang, na abertura da Conferência Mundial sobre Medicina Tradicional 2026, realizada em Beijing no sábado (17), com a participação de cerca de 1.200 pessoas.
Li pediu que os países aproveitem melhor os recursos e conhecimentos acumulados por diferentes tradições médicas, ampliem o intercâmbio científico e desenvolvam soluções capazes de contribuir para o acesso à saúde. O premiê também destacou o papel da ciência e da tecnologia na modernização da medicina tradicional chinesa e defendeu maior participação de instituições de pesquisa e empresas nacionais e estrangeiras.
A agenda apresentada pelo governo chinês combina inovação, transformação digital, cooperação internacional e preservação de recursos medicinais. Para Beijing, a ampliação dessas iniciativas pode contribuir para o desenvolvimento do setor e para a redução das desigualdades no acesso aos cuidados de saúde.
A proposta, porém, envolve um desafio central: transformar conhecimentos tradicionais em práticas e tratamentos cuja qualidade, segurança e eficácia possam ser avaliadas de acordo com critérios científicos rigorosos.
China quer ampliar pesquisa e modernização tecnológica
Durante o discurso de abertura, Li Qiang afirmou que a medicina tradicional chinesa percorreu um caminho próprio de desenvolvimento ao longo de séculos de prática. Segundo ele, o setor deve aproveitar os avanços científicos e tecnológicos para acelerar a inovação e ampliar sua contribuição à saúde.
O premiê anunciou que a China pretende promover a transformação digital e inteligente da medicina tradicional chinesa e incentivar a participação de instituições e empresas de pesquisa estrangeiras.
A digitalização pode envolver o uso de ferramentas computacionais para organizar informações sobre plantas medicinais, registrar conhecimentos terapêuticos, analisar dados e apoiar pesquisas. A aplicação dessas tecnologias, entretanto, precisa ser acompanhada por métodos de validação capazes de distinguir hipóteses promissoras de resultados efetivamente demonstrados.
Li também manifestou disposição para ampliar programas-piloto de abertura do setor de serviços médicos e desenvolver, em parceria com outros países, centros de conservação de recursos medicinais ligados à Iniciativa Cinturão e Rota.
A conservação desses recursos tem relevância tanto para a pesquisa quanto para a continuidade de práticas tradicionais. A exploração de plantas medicinais e outros recursos naturais, quando não acompanhada de critérios de sustentabilidade, pode pressionar espécies e ecossistemas. A cooperação internacional nessa área pode envolver conservação da biodiversidade, pesquisa sobre espécies e uso responsável de recursos naturais.
O discurso chinês também relacionou o desenvolvimento da medicina tradicional à necessidade de ampliar o acesso aos serviços de saúde e promover maior equidade. Para Li, a cooperação entre países deve ajudar a enfrentar desafios comuns, em vez de reproduzir disputas em que os ganhos de uma parte dependam das perdas de outra.
O que a ciência e a OMS dizem sobre medicina tradicional
A discussão internacional sobre medicina tradicional não se limita à preservação cultural. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu uma estratégia global para 2025–2034 que prevê o fortalecimento das evidências científicas, a regulamentação dos produtos e práticas, a integração responsável aos sistemas de saúde e a ampliação dos benefícios sociais e ambientais do setor.
A organização reconhece que a medicina tradicional é utilizada por populações de diversas regiões do mundo e pode fazer parte dos sistemas de cuidados de saúde. Ao mesmo tempo, ressalta que a integração dessas práticas deve se basear em evidências de segurança e eficácia.
Isso significa que a existência de uma tradição antiga, por si só, não comprova que determinado tratamento funcione para uma doença específica. Cada prática ou produto precisa ser avaliado de acordo com sua finalidade, composição, riscos, qualidade e evidências disponíveis.
No caso dos produtos à base de plantas, por exemplo, a avaliação pode incluir a identificação das espécies utilizadas, a concentração dos componentes, a presença de contaminantes, possíveis efeitos adversos e interações com medicamentos convencionais. Procedimentos padronizados de produção e controle de qualidade também são importantes para reduzir riscos.
A OMS aponta que a insuficiência de dados científicos sobre segurança e eficácia continua sendo um obstáculo para a integração de parte das práticas tradicionais aos sistemas de saúde. Por isso, sua estratégia prevê o incentivo à pesquisa, o aprimoramento dos mecanismos regulatórios e a produção de evidências confiáveis.
A organização também defende que a avaliação seja acompanhada por respeito à diversidade cultural e aos conhecimentos tradicionais, sem abrir mão dos critérios necessários à proteção dos pacientes.
Nesse contexto, a modernização defendida por Beijing poderá ser relevante se contribuir para pesquisas reproduzíveis, métodos de avaliação consistentes e maior transparência sobre os resultados obtidos.
Conservação dos recursos medicinais entra na agenda internacional
Outro eixo destacado por Li Qiang foi o desenvolvimento de centros de conservação de recursos medicinais no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota, programa de cooperação internacional lançado pela China.
A proposta relaciona a preservação de recursos naturais à continuidade da pesquisa e das práticas médicas tradicionais. Plantas e outros organismos utilizados na produção de medicamentos dependem de ecossistemas que podem ser afetados pela perda de habitats, pela exploração excessiva e pelas mudanças ambientais.
A conservação desses recursos exige identificar espécies, proteger ambientes naturais e desenvolver formas sustentáveis de cultivo e coleta. Também requer atenção aos direitos das comunidades que preservam conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade.
A questão é especialmente relevante em países com grande diversidade biológica, nos quais recursos naturais podem ter importância tanto para a saúde quanto para a economia local. A cooperação científica pode ajudar a ampliar o conhecimento sobre espécies e suas propriedades, desde que respeite a legislação e os direitos relacionados ao patrimônio genético e aos conhecimentos tradicionais.
O anúncio feito por Li expressa uma intenção de ampliar a cooperação nessa área, mas não significa, por si só, que novos centros já tenham sido implantados ou que resultados específicos de conservação tenham sido alcançados.
Medicina tradicional e governança global
Em seu discurso, Li Qiang também estabeleceu uma comparação entre a abordagem holística associada à medicina tradicional chinesa e a governança econômica. Segundo o premiê, assim como o tratamento de uma doença exige considerar o funcionamento do organismo, os desafios do desenvolvimento mundial precisam ser enfrentados por meio de uma visão abrangente e de mecanismos de cooperação.
Ele afirmou que nenhum modelo único é capaz de resolver todos os problemas e pediu que os países valorizem a inclusão e a harmonia, evitando políticas que transfiram custos aos países vizinhos.
A declaração ampliou o alcance político do encontro, relacionando a cooperação em saúde à visão chinesa sobre governança internacional. O argumento reforça a defesa de iniciativas multilaterais e do intercâmbio de experiências, em lugar da adoção de soluções universais que desconsiderem as diferenças entre países.
A conferência também ofereceu um espaço para discutir como conhecimentos médicos desenvolvidos em diferentes sociedades podem ser pesquisados, preservados e utilizados de maneira responsável. O desafio é conciliar a diversidade cultural com padrões comuns de segurança, qualidade e avaliação científica.
Perspectivas para a cooperação internacional
A iniciativa chinesa ocorre em um momento de maior atenção internacional à medicina tradicional, à pesquisa sobre produtos naturais e à possibilidade de integrar diferentes práticas aos sistemas de saúde.
A ampliação dessa cooperação pode criar oportunidades para universidades, centros de pesquisa, instituições de saúde e empresas, especialmente em áreas como farmacologia, biodiversidade, tecnologia e desenvolvimento de métodos de avaliação.
Para que essas oportunidades resultem em benefícios concretos, será necessário estabelecer critérios claros para a pesquisa conjunta, o compartilhamento de dados, a conservação de recursos naturais e a avaliação dos tratamentos. A proteção dos pacientes deve permanecer como referência central.
A proposta apresentada em Beijing reúne, portanto, duas dimensões complementares: o reconhecimento da diversidade de conhecimentos médicos e a necessidade de submetê-los a processos de pesquisa e avaliação capazes de identificar benefícios e riscos.
O avanço da medicina tradicional no cenário internacional dependerá não apenas da expansão de sua utilização, mas também da qualidade das evidências produzidas, da segurança dos tratamentos e da capacidade de garantir que os recursos naturais e os conhecimentos associados a essas práticas sejam preservados.



