Uma delegação de jovens diplomatas brasileiros concluiu, no domingo (18), uma visita de quatro dias a Macau, região administrativa especial da China, para conhecer o papel da cidade na aproximação entre o país asiático e as nações de língua portuguesa. A agenda incluiu encontros acadêmicos, visitas a áreas de desenvolvimento econômico e conversas sobre cooperação comercial e relações entre Brasil e China.
A iniciativa colocou em evidência a posição de Macau como plataforma de conexão entre a China e os países lusófonos, aproveitando os vínculos históricos da região com a língua portuguesa e sua integração à economia chinesa.
Durante a visita, os diplomatas conheceram o centro histórico de Macau e a Zona de Cooperação Aprofundada Guangdong-Macau em Hengqin, além de participarem de discussões na Universidade de Macau e de reuniões com representantes do Fórum para a Cooperação Econômica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa.
A programação buscou apresentar aos integrantes da delegação diferentes dimensões da atuação de Macau: a preservação de seu patrimônio cultural, a diversificação econômica e a promoção de relações comerciais e institucionais entre a China e os países que compartilham o português.
Macau como plataforma de cooperação sino-lusófona
Com o português e o chinês como idiomas oficiais, Macau ocupa uma posição particular nas relações entre a China e os países lusófonos. A região preserva referências culturais portuguesas e chinesas e participa de iniciativas voltadas à ampliação do comércio, dos investimentos e dos intercâmbios institucionais.
Durante a visita, Cheng Lei, comissária interina do Gabinete do Comissário do Ministério das Relações Exteriores da China em Macau, descreveu a região como uma ponte singular nas relações entre China e Brasil. Ela também manifestou o compromisso de apoiar a continuidade dos intercâmbios e da cooperação entre Macau e o Brasil.
Os diplomatas brasileiros, por sua vez, destacaram a capacidade da cidade de conectar a China aos países de língua portuguesa e manifestaram interesse em fortalecer a amizade e a cooperação bilateral.
A visita também incluiu uma reunião com o Secretariado Permanente do Fórum para a Cooperação Econômica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, conhecido como Fórum de Macau. Criado em outubro de 2003, o mecanismo busca ampliar os intercâmbios econômicos e comerciais e fortalecer a cooperação entre a China e os países lusófonos.
O fórum funciona como um espaço de articulação entre governos e instituições, contribuindo para aproximar empresas e representantes públicos. Sua atuação é particularmente relevante para países que buscam ampliar o acesso ao mercado chinês e identificar oportunidades de negócios e investimentos.
Hengqin e a estratégia de diversificação econômica
Outro ponto da programação foi a Zona de Cooperação Aprofundada Guangdong-Macau em Hengqin, território localizado na província de Guangdong, na China continental.
Com uma área de 106 quilômetros quadrados, a zona foi concebida para aprofundar a integração econômica entre Macau e a região continental, ampliar a cooperação entre empresas e instituições e apoiar a diversificação da economia da região administrativa especial.
A iniciativa busca reduzir a dependência de Macau de setores econômicos concentrados, ampliando as possibilidades de desenvolvimento em áreas como inovação, serviços, turismo e atividades comerciais. Para o Brasil, compreender essa estrutura pode ajudar a identificar os mecanismos institucionais e econômicos disponíveis para o relacionamento com a China.
A diversificação econômica também faz parte das prioridades estabelecidas no plano de desenvolvimento socioeconômico de Macau para o período de 2026 a 2030. O documento prevê o fortalecimento das conexões internas e internacionais e a ampliação das funções da região como plataforma de cooperação entre a China e os países de língua portuguesa e espanhola.
A visita a Hengqin permitiu à delegação conhecer uma das iniciativas utilizadas para aprofundar a integração regional e ampliar as possibilidades de desenvolvimento econômico.
Universidade de Macau debate relações bilaterais
Na Universidade de Macau, os diplomatas brasileiros conversaram com professores e estudantes sobre a aplicação do princípio de “um país, dois sistemas” e sobre as relações entre Brasil e China.
O princípio estabelece a manutenção de sistemas distintos em determinadas áreas sob a soberania chinesa. Macau retornou à administração chinesa em 1999 e mantém características próprias em seus sistemas jurídico, econômico e administrativo, conforme previsto em sua Lei Básica.
A discussão acadêmica permitiu abordar tanto a organização institucional da região quanto sua posição nas relações internacionais da China.
O contato com universidades também representa uma dimensão importante do intercâmbio bilateral. Além do comércio e dos investimentos, as relações entre Brasil e China envolvem cooperação educacional, formação de profissionais, pesquisa e intercâmbios culturais.
Relações Brasil-China para além do comércio
A visita dos jovens diplomatas ocorre em um contexto no qual Brasil e China mantêm relações econômicas e políticas abrangentes. A China é um dos principais parceiros comerciais brasileiros, enquanto o Brasil ocupa posição relevante na estratégia chinesa de relacionamento com a América Latina.
Nesse cenário, Macau oferece uma via complementar de aproximação, especialmente por sua experiência de articulação com países de língua portuguesa. A região pode facilitar contatos institucionais e contribuir para a circulação de informações sobre oportunidades comerciais e econômicas.
A existência dessa plataforma, porém, não garante automaticamente novos negócios ou investimentos. O aproveitamento de suas estruturas depende de iniciativas concretas, da articulação entre instituições e empresas e da identificação de interesses comuns.
A programação realizada em outubro teve caráter de intercâmbio e aproximação institucional. Não foram anunciados, na divulgação da visita, acordos comerciais específicos ou compromissos de investimento decorrentes da agenda.
Ainda assim, o contato direto com instituições de Macau, Hengqin e da Universidade de Macau oferece aos diplomatas brasileiros uma oportunidade de conhecer mecanismos que podem ser relevantes para o desenvolvimento futuro das relações entre Brasil e China.
Ao reunir diplomacia, educação e cooperação econômica, a visita reforça a importância dos canais institucionais na construção de relações bilaterais. O desafio será transformar esse conhecimento em iniciativas concretas que ampliem o intercâmbio entre os dois países.



