China combina expansão do armazenamento de energia renovável com prioridade à conservação ecológica

A China tem buscado avançar na transição energética sem dissociá-la da conservação dos ecossistemas. Essa orientação apareceu em duas iniciativas divulgadas pela agência estatal Xinhua em 16 de outubro: o avanço do armazenamento de energia, considerado importante para ampliar o aproveitamento das fontes renováveis, e a defesa do presidente Xi Jinping de que a conservação ecológica seja prioridade no desenvolvimento do país.

Embora sejam ações distintas, as duas notícias refletem aspectos complementares da estratégia ambiental chinesa: transformar a infraestrutura energética e, ao mesmo tempo, fortalecer a proteção e a recuperação de áreas naturais.

Armazenamento ganha importância na expansão das renováveis

A Conferência Mundial de Armazenamento de Energia 2026, realizada de quarta a sexta-feira em Ningde, na província de Fujian, reuniu representantes do governo, da indústria e da comunidade internacional para discutir novas tecnologias, perspectivas de mercado e os desafios da integração energética.

Segundo dados apresentados no evento, a expansão global anual do armazenamento de energia em baterias alcançou aproximadamente 307 gigawatts-hora (GWh) em 2025. A China respondeu por 56% desse volume, consolidando sua posição como um dos principais mercados do setor.

Ilina Stefanova, chefe da Coalizão para Ação da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), afirmou durante a abertura da conferência que a escala de implantação chinesa está ajudando a transformar a economia da eletricidade renovável. Para ela, a experiência do país em tecnologia, fabricação, instalação e integração dos sistemas à rede elétrica também pode contribuir para a transição energética internacional.

O armazenamento é importante porque a geração solar e eólica varia conforme as condições naturais. Baterias podem guardar parte da eletricidade produzida quando há oferta abundante e disponibilizá-la posteriormente, contribuindo para equilibrar a oferta e a demanda. Sua integração à rede, porém, depende de fatores como custos, capacidade instalada, planejamento e características de cada sistema elétrico.

Na China, a indústria continua ampliando sua capacidade de produção. De acordo com informações apresentadas pelo vice-ministro da Indústria e Informatização, Xiong Jijun, a produção nacional de baterias destinadas ao armazenamento de energia superou 420 GWh no primeiro semestre de 2026, alta de aproximadamente 110% em relação ao mesmo período do ano anterior.

O setor também desenvolve diferentes soluções tecnológicas. As baterias de íons de lítio mantêm papel de destaque, enquanto alternativas como as baterias de íons de sódio e as baterias de fluxo avançam no mercado.

Zeng Yuqun, fundador e presidente da fabricante chinesa CATL, destacou que o armazenamento deixou de ser apenas uma infraestrutura complementar e passou a ocupar uma posição cada vez mais importante nos sistemas de energia. Segundo ele, a expansão das fontes renováveis exige soluções capazes de atender às necessidades da rede e melhorar sua confiabilidade e estabilidade.

A escala industrial, contudo, não elimina os desafios da transição. O armazenamento precisa ser economicamente viável, integrado de maneira eficiente às redes e acompanhado de planejamento para evitar desperdícios e assegurar o uso adequado dos recursos.

Xi reforça prioridade à conservação ecológica

No mesmo dia, o presidente chinês, Xi Jinping, defendeu que o país mantenha o compromisso de priorizar a conservação ecológica e promover o desenvolvimento verde. A declaração foi feita durante uma visita de inspeção à cidade de Ulanqab, na Região Autônoma da Mongólia Interior, no norte da China.

Um dos locais visitados foi a reserva natural do lago Huangqihai, cuja área alagada esteve próxima de secar em razão de impactos climáticos e de outros fatores. Segundo a Xinhua, após anos de esforços de conservação, o corpo d’água vem sendo recuperado e ampliado.

Durante a visita, Xi conheceu as iniciativas regionais de proteção ambiental, percorreu áreas próximas à margem do lago e observou as aves que habitam o local. Ele pediu a aplicação integral da legislação chinesa de proteção de áreas úmidas, a preservação dos limites estabelecidos para a conservação ecológica e o fortalecimento da proteção da biodiversidade.

Para ecossistemas de áreas úmidas degradados, Xi defendeu que a restauração natural seja priorizada, com intervenção humana complementar quando necessária. Também ressaltou a importância de conduzir esse trabalho de forma científica.

As áreas úmidas desempenham funções ambientais relevantes, entre elas a manutenção de habitats, a regulação dos ciclos da água e o suporte à biodiversidade. Sua degradação pode afetar espécies, alterar o equilíbrio dos ecossistemas e reduzir a capacidade de resposta a mudanças ambientais.

A recuperação do lago Huangqihai, conforme descrita pela agência chinesa, é um exemplo local dos esforços de conservação mencionados na visita. O caso, por si só, não permite medir a dimensão dos resultados ambientais alcançados em toda a China, mas ilustra a importância atribuída à restauração de ecossistemas específicos.

Na mesma viagem, Xi visitou a Zona de Desenvolvimento de Alta Tecnologia de Chahar, onde recebeu informações sobre o projeto chinês “East Data, West Computing”, voltado à articulação da infraestrutura nacional de computação. Ele defendeu o desenvolvimento de uma indústria de capacidade computacional que seja eficiente, verde e segura.

A agenda da visita, portanto, incluiu tanto a proteção direta da natureza quanto a busca por atividades econômicas e tecnológicas mais eficientes no uso de recursos.

Conservação ecológica como diretriz de desenvolvimento

A preocupação com a proteção ambiental também aparece no arcabouço legal chinês. Em 15 de agosto de 2026, entrou em vigor o Código Ecológico e Ambiental do país, aprovado pela Assembleia Popular Nacional em março. A legislação reúne regras relacionadas ao controle da poluição, à proteção ecológica e ao desenvolvimento verde e de baixo carbono.

O código tem 1.242 artigos distribuídos em cinco capítulos e inclui disposições relativas às inspeções centrais de proteção ecológica e ambiental. A entrada em vigor da legislação representa uma etapa de consolidação das normas ambientais chinesas, embora seus efeitos concretos dependam da implementação e da fiscalização.

Em 16 de outubro, a Xinhua também informou que cinco equipes de inspeção ambiental haviam sido mobilizadas para uma nova etapa de fiscalização. Dois grupos fariam inspeções regulares nos ministérios da Habitação e do Desenvolvimento Urbano-Rural e da Agricultura e dos Assuntos Rurais. Outros três se concentrariam em problemas ambientais em cavernas, dolinas e vales, com atuação em diferentes regiões do país.

As inspeções têm como objetivos declarados fortalecer a responsabilização pela proteção ambiental, melhorar a qualidade do meio ambiente e acelerar a transformação verde. A iniciativa demonstra que a agenda ecológica não se limita a declarações políticas ou investimentos em tecnologias limpas: inclui também mecanismos de supervisão e responsabilização institucional.

Duas frentes de uma mesma transformação

O avanço do armazenamento de energia e a proteção de áreas úmidas respondem a desafios diferentes, mas ambos se inserem na agenda chinesa de desenvolvimento verde.

No setor energético, a ampliação do armazenamento pode facilitar a integração de fontes renováveis e ajudar a lidar com as variações da geração. Na conservação ecológica, a restauração de habitats, a proteção da biodiversidade e a aplicação das normas ambientais buscam reduzir a degradação dos ecossistemas.

As duas frentes também apresentam desafios próprios. A expansão industrial do armazenamento exige atenção aos custos, à eficiência e aos impactos associados à produção e ao ciclo de vida das baterias. Já a conservação depende de monitoramento contínuo, recursos, fiscalização e políticas adequadas às condições de cada ecossistema.

As notícias de 16 de outubro mostram, assim, que a estratégia ambiental chinesa combina desenvolvimento tecnológico, transformação energética, proteção da natureza e instrumentos regulatórios. O alcance efetivo dessa agenda deve ser avaliado pelos resultados alcançados na redução dos impactos ambientais, na ampliação do uso de energia limpa e na recuperação dos ecossistemas.

Para além do crescimento de uma indústria ou da recuperação de uma área natural específica, o desafio é fazer com que a transição econômica e tecnológica produza benefícios ambientais duradouros.

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