A presença de empresas chinesas no Brasil vem se expandindo para além do comércio de commodities e dos grandes projetos de infraestrutura. Nos setores automotivo e de refrigeração, o avanço aparece tanto no aumento das importações quanto na ampliação de parcerias industriais e comerciais. Dados divulgados em outubro mostram a dimensão desse movimento: entre janeiro e setembro de 2026, o Brasil importou 254,9 mil veículos da China, enquanto fabricantes chineses de equipamentos de refrigeração buscaram ampliar negócios com fornecedores e clientes brasileiros durante uma feira internacional realizada no Rio de Janeiro. Os dois movimentos ilustram a diversificação das relações econômicas entre os países, com empresas chinesas disputando espaço em mercados ligados ao consumo, à indústria e à eficiência energética.
Veículos chineses já representam 55% das importações brasileiras
O setor automotivo é um dos exemplos mais expressivos dessa expansão. Segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), citados pela Xinhua em 10 de outubro, as importações brasileiras de veículos provenientes da China cresceram 106,4% nos primeiros nove meses de 2026, em comparação com o mesmo período do ano anterior.
O Brasil importou 254,9 mil veículos chineses entre janeiro e setembro, ante 123,5 mil unidades nos mesmos meses de 2025. Com isso, os automóveis provenientes do país asiático responderam por 55% de todas as importações brasileiras do segmento e por 11,3% do mercado nacional de veículos, segundo os dados divulgados pela associação.
O ritmo de crescimento superou o das importações totais de automóveis, que avançaram 30,4% no período, para 463,9 mil unidades. A diferença indica que os fabricantes chineses estão ampliando sua participação no mercado brasileiro mais rapidamente do que os fornecedores estrangeiros considerados em conjunto.
A expansão ocorre em paralelo ao crescimento dos veículos eletrificados no país. Entre janeiro e setembro, esse segmento respondeu por 69% do aumento total das vendas de automóveis leves e alcançou 20,1% dos emplacamentos de veículos novos, segundo os dados citados pela Xinhua.
Os veículos totalmente elétricos tiveram um dos maiores avanços: seus emplacamentos passaram de 53.521 unidades nos primeiros nove meses de 2025 para 166.529 no mesmo período de 2026, crescimento de 211,2%. Em setembro, as vendas de veículos eletrificados — incluindo elétricos, híbridos convencionais e híbridos plug-in — chegaram a 62.077 unidades, alta de 128,7% em relação ao mesmo mês do ano anterior.
A oferta de modelos chineses contribui para essa transformação, mas o avanço não se limita à importação de veículos prontos. Fabricantes também vêm investindo em instalações industriais e estabelecendo parcerias para produzir no Brasil, movimento que pode ampliar a participação local em etapas como montagem, fornecimento de componentes, engenharia e serviços.
Essa transição é relevante para a relação bilateral porque aproxima os dois países em uma cadeia industrial de maior complexidade tecnológica. O tamanho dos investimentos e os efeitos sobre o emprego e o conteúdo nacional, porém, dependem de cada projeto e do grau efetivo de localização da produção.
Refrigeração: mercado em expansão atrai fabricantes chineses
No setor de refrigeração, a aproximação entre empresas brasileiras e chinesas envolve equipamentos, componentes, fluidos refrigerantes e serviços associados à instalação e à manutenção.
A feira Febrava Rio 2026, realizada no Rio de Janeiro entre 6 e 8 de outubro, reuniu cerca de 100 marcas e mais de 10 mil profissionais das áreas de aquecimento, ventilação, ar-condicionado e refrigeração. Participaram empresas que buscam ampliar negócios no mercado brasileiro, incluindo fabricantes chineses interessados em apresentar tecnologias e estabelecer parcerias com fornecedores e clientes locais.
O interesse acompanha o crescimento do setor no Brasil. Segundo dados da Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento citados pela Xinhua, o faturamento da indústria alcançou R$ 50,15 bilhões em 2025 e a projeção para 2026 é de R$ 55,62 bilhões.
A produção brasileira de aparelhos de ar-condicionado do tipo split também aumentou. O volume passou de 3,816 milhões de unidades em 2023 para 6,385 milhões em 2025, crescimento superior a 60% em dois anos. A expansão da demanda cria oportunidades para fabricantes de equipamentos e para empresas que fornecem componentes, matérias-primas e serviços especializados.
Entre as companhias chinesas que atuam nesse mercado está a Gree, presente no Brasil há mais de duas décadas. Segundo Lin Wei, gerente-geral da empresa para a América do Sul, a companhia vem priorizando equipamentos com tecnologia inverter, que ajusta a velocidade do compressor à necessidade de refrigeração, além de ampliar a oferta de sistemas multi-split, equipamentos comerciais e soluções de ar-condicionado central.
A empresa também trabalha na adaptação dos produtos às condições climáticas brasileiras. Em regiões litorâneas, onde a umidade e a exposição à maresia podem acelerar a corrosão, características de proteção dos equipamentos ganham importância para a durabilidade e a manutenção.
A presença chinesa também alcança a cadeia de insumos. A RLX, empresa brasileira de fluidos refrigerantes com unidade produtiva em Manaus, fornece produtos para grandes fabricantes do setor, entre eles Gree, Midea Carrier e Samsung.
Segundo Mathias Heineck, responsável comercial da RLX, aproximadamente 60% dos negócios da empresa estão relacionados a companhias chinesas. O dado mostra que a relação comercial não se restringe à compra de equipamentos acabados: ela também envolve fornecedores brasileiros e etapas intermediárias da cadeia produtiva.
Tecnologia e adaptação ao mercado brasileiro
Nos dois setores, a competição passa pela capacidade de oferecer produtos adequados às condições e às necessidades dos consumidores brasileiros.
No mercado automotivo, a expansão dos veículos elétricos e híbridos aumenta a relevância de tecnologias de baterias, sistemas de propulsão e gerenciamento de energia. Na refrigeração, eficiência energética, resistência dos equipamentos e adaptação às condições climáticas influenciam o desempenho e os custos de utilização.
Essas características ajudam a explicar por que a atuação das empresas chinesas pode avançar da exportação para formas mais complexas de integração econômica. A instalação de fábricas, o desenvolvimento de fornecedores locais e a cooperação tecnológica são caminhos possíveis, embora os resultados variem conforme a estratégia de cada empresa.
A presença de fabricantes chineses também amplia a concorrência em mercados nos quais já atuam empresas brasileiras e multinacionais de outras origens. Para o consumidor, a entrada de novos fornecedores aumenta a variedade de produtos disponíveis. Para a indústria nacional, a expansão traz oportunidades de fornecimento e parceria, mas também desafios competitivos relacionados a preços, escala de produção e capacidade tecnológica.
Uma relação econômica que ganha novas frentes
Os números dos setores automotivo e de refrigeração mostram duas dimensões complementares da presença chinesa no Brasil. No primeiro, o avanço aparece principalmente no crescimento das importações e na expansão dos veículos eletrificados. No segundo, a aproximação inclui fabricantes de equipamentos, fornecedores de insumos e empresas que atendem diferentes etapas da cadeia produtiva.
Os movimentos não representam, por si só, um acordo bilateral coordenado ou uma integração industrial já consolidada. São iniciativas empresariais distintas, impulsionadas pelo tamanho do mercado brasileiro, pela demanda por novas tecnologias e pelas estratégias de expansão das companhias chinesas.
Em conjunto, porém, ajudam a identificar uma mudança na composição das relações econômicas entre Brasil e China: além do comércio tradicional de produtos agrícolas, minerais e energéticos, cresce a presença chinesa em segmentos industriais que afetam diretamente o consumo, a infraestrutura produtiva e a transição tecnológica brasileira.
O alcance dessa transformação dependerá de como o crescimento comercial se converterá em produção local, desenvolvimento de fornecedores, transferência de conhecimento e geração de valor no Brasil. Esses indicadores serão importantes para avaliar se a expansão das empresas chinesas resultará em uma integração industrial mais profunda entre as duas economias.



