O governo brasileiro abriu uma nova frente para tentar financiar a modernização de portos, aeroportos e hidrovias. Em reunião realizada em Xangai, o Ministério de Portos e Aeroportos acertou que apresentará uma carteira de propostas ao Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), conhecido como Banco do Brics, para avaliação de possíveis operações de crédito.
O encaminhamento foi dado em 26 de agosto, durante encontro entre o ministro Tomé Franca e a presidente do NDB, Dilma Rousseff. A informação foi divulgada pelo próprio ministério. Neste estágio, porém, não existe anúncio de empréstimo aprovado, valor contratado ou projeto selecionado. O avanço consiste na abertura de um canal para que propostas brasileiras sejam estruturadas e submetidas à análise técnica e financeira da instituição.
Financiamento virou parte central da missão
A agenda na China começou com a apresentação de concessões e oportunidades logísticas a grupos de engenharia e operadores portuários. O Poder360 havia confirmado, no início da missão, reuniões com empresas como CSCEC, CCCC, China Merchants Port Holdings, Hutchison Ports, Shanghai Dredging Company e COSCO Shipping. A passagem pelo NDB acrescenta uma questão decisiva: de onde virão os recursos de longo prazo para transformar interesse empresarial em investimento efetivo.
Segundo o Ministério de Portos e Aeroportos, representantes de empresas relataram que o custo de financiamento no Brasil é superior ao encontrado no mercado chinês. Nesse contexto, o NDB pode oferecer instrumentos como empréstimos, garantias e participação em projetos públicos ou privados. Isso não elimina as exigências de viabilidade, governança, licenciamento e segurança regulatória, mas pode ampliar as alternativas disponíveis para empreendimentos com cronogramas extensos.
A conversa incluiu portos, aeroportos e hidrovias. São setores com forte impacto sobre o custo de escoamento de grãos, minérios e produtos industriais, além da mobilidade de passageiros. Para o comércio Brasil–China, gargalos logísticos afetam tanto a competitividade das exportações brasileiras quanto a entrada de equipamentos e insumos importados. Uma infraestrutura mais eficiente também pode facilitar a integração entre terminais, ferrovias, rodovias e rotas marítimas.
Empresas sondam oportunidades, sem contratos anunciados
Na mesma etapa da viagem, a Hutchison Ports demonstrou interesse em oportunidades do setor portuário. O grupo opera 53 portos em 24 países e movimentou 90,1 milhões de TEUs em 2025, conforme os dados apresentados pelo ministério. A Shanghai Dredging Company discutiu canais de acesso e hidrovias e já atua no Brasil em serviços de manutenção, dragagem e logística.
Tomé Franca também visitou o Porto de Baoshan, onde conheceu sistemas de automação, veículos autônomos para contêineres e ferramentas de operação remota. A experiência chinesa pode servir como referência para produtividade e segurança operacional, mas sua adoção no Brasil dependerá das características de cada terminal, dos investimentos disponíveis e da qualificação profissional.
Para o Brasil, a principal novidade é a tentativa de aproximar três peças que nem sempre avançam juntas: projetos públicos bem definidos, operadores com experiência internacional e financiamento competitivo. A reunião em Xangai não encerra essa equação; apenas inicia uma etapa mais concreta de preparação. O resultado deverá ser medido pelos projetos efetivamente apresentados, aprovados e contratados, e não apenas pelo número de reuniões realizadas durante a missão.
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