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segunda-feira - 24 agosto 2026 - 16:44
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De cidade rural a polo de inteligência artificial: como a energia está redesenhando o mapa tecnológico da China

Ulanqab, na Mongólia Interior, aproveita o clima frio e a abundância de energia para atrair grandes centros de processamento, revelando uma mudança importante na geografia da inteligência artificial chinesa

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Foto: Reprodução

Durante gerações, Ulanqab foi associada às paisagens rurais da Mongólia Interior, à criação de animais e à agricultura. Agora, a cidade começa a ganhar outro papel na economia chinesa: fornecer a energia e a capacidade de processamento necessárias para a expansão da inteligência artificial.

A transformação tem relação direta com uma característica que, até pouco tempo, parecia distante da corrida tecnológica: o clima. Temperaturas mais baixas ajudam a reduzir os custos de refrigeração dos data centers, enquanto a região dispõe de grandes áreas para geração de energia eólica. Essa combinação está atraindo investimentos em infraestrutura computacional para uma parte da China que fica longe dos tradicionais centros tecnológicos do país.

Um dos projetos mais recentes é o Galaxy Campus, inaugurado neste mês pela empresa chinesa de energia renovável Envision Group. O complexo inclui um centro de processamento de inteligência artificial com 120 mil metros quadrados e foi projetado para operar com capacidade energética superior a 2 gigawatts. Segundo as informações divulgadas sobre o projeto, a estrutura poderá acomodar até 1 milhão de aceleradores de IA.

O caso ajuda a explicar uma mudança menos visível por trás da corrida global pela inteligência artificial. À medida que modelos se tornam maiores e exigem mais capacidade computacional, a localização de um data center deixa de depender apenas da proximidade com grandes cidades ou empresas de tecnologia. Energia disponível, custo da eletricidade, clima e espaço físico passam a ser fatores decisivos.

A inteligência artificial está mudando de endereço

A China vem incentivando esse movimento por meio da estratégia conhecida como “Eastern Data, Western Computing”, lançada para deslocar parte das atividades de processamento para regiões onde há maior disponibilidade de energia e terrenos.

A lógica é relativamente simples: as principais fontes de demanda digital estão concentradas nas regiões mais desenvolvidas do leste chinês, mas muitas áreas do oeste e do interior do país possuem maior oferta de energia renovável e espaço para a construção de grandes complexos de processamento.

O resultado é uma nova divisão de funções. Enquanto cidades como Pequim, Xangai e Shenzhen permanecem como centros de empresas, pesquisa e desenvolvimento de tecnologia, regiões menos associadas à economia digital passam a assumir uma função cada vez mais importante: fornecer a infraestrutura física que mantém a inteligência artificial funcionando.

O mesmo movimento já pode ser observado em outras regiões. Em Zhongwei, na Região Autônoma de Ningxia, a China começou a conectar diretamente projetos de geração renovável a centros de processamento de dados. A estratégia busca aproximar a capacidade computacional das fontes de energia e reduzir custos e perdas na transmissão.

A IA também precisa de território

Quando se fala em inteligência artificial, a imagem mais comum é a de softwares, algoritmos e computadores. Mas o avanço da tecnologia depende de uma infraestrutura física cada vez maior.

Data centers consomem grandes volumes de eletricidade, precisam de sistemas de refrigeração e exigem redes capazes de conectar diferentes regiões. A expansão da IA, portanto, está criando uma nova disputa não apenas por chips, mas também por energia.

Na China, os centros de dados consumiram 166 terawatt-hora de eletricidade em 2024, o dobro do volume registrado em 2019, segundo dados da Academia Chinesa de Tecnologia da Informação e Comunicação citados pela Xinhua. Estimativas globais da Agência Internacional de Energia apontam que o consumo anual dos data centers poderá chegar a 945 terawatt-hora em 2030.

Esse crescimento ajuda a explicar por que regiões como Ulanqab passaram a ser estratégicas. O que antes poderia ser visto apenas como uma área distante dos grandes polos tecnológicos agora oferece três recursos particularmente valiosos para a indústria da IA: energia, espaço e clima favorável.

Nem tudo acontece na nuvem

A expressão “computação em nuvem” pode dar a impressão de que os serviços digitais existem em um espaço abstrato. A expansão chinesa mostra justamente o contrário.

Por trás de cada modelo de inteligência artificial existem servidores, chips, sistemas elétricos e instalações capazes de operar continuamente. Quanto maior a demanda por processamento, mais importante se torna a capacidade de construir essa infraestrutura de forma economicamente sustentável.

É por isso que a corrida pela IA começa a transformar também regiões rurais e cidades do interior. A inteligência artificial, uma das tecnologias mais associadas ao futuro, depende cada vez mais de elementos bastante concretos: onde há eletricidade disponível, quanto ela custa e como manter milhões de processadores funcionando sem sobrecarregar a rede.

Ulanqab se tornou um exemplo dessa mudança. Sua transformação ainda está em curso, mas já revela uma tendência mais ampla na China: o próximo mapa da tecnologia pode não ser desenhado apenas pelos lugares onde estão os grandes laboratórios, mas também por aqueles capazes de fornecer a energia necessária para fazer a inteligência artificial funcionar.