Por Andrea Assef, de Havana, especial para o Conexão Ásia – Brasil China
O intelectual e escritor, frade dominicano, Frei Betto, autor de mais de 80 livros, entre eles “Fidel e a Religião” em uma entrevista exclusiva ao Conexão Ásia – Brasil China, falou sobre a importância da China desde que se intensificou o bloqueio estadunidense sobre Cuba, impedindo a chegada de diesel à ilha, o que tem gerado sucessivos apagões e uma crise humanitária no país. Presente em Havana durante as celebrações pelo centenário de nascimento do líder revolucionário Fidel Castro, no dia 13 de agosto de 2026, ele destacou a solidariedade e a ajuda humanitária de países como a China, que, ocupando um lugar estratégico global, pode contribuir no enfrentamento das dificuldades vividas pelos cubanos.
As comemorações e o espírito de resistência contrastavam com a escassez de alimentos, combustíveis e recursos para manter serviços essenciais na ilha, que tem pouco mais de 11 milhões de habitantes. A cooperação chinesa, tanto no fornecimento de arroz e outros produtos quanto na instalação de parques solares com painéis fotovoltaicos, tem sido de grande importância. Para Frei Betto, que desde a publicação do livro, em 1985, se tornou um dos principais interlocutores da diplomacia entre a igreja católica e os países socialistas, inclusive a China, esse suporte chinês representa mais do que uma relação comercial. “Traduz uma aproximação histórica e política entre dois países que compartilham experiências socialistas e procuram construir alternativas de desenvolvimento diante das pressões internacionais”, afirma.
Para a população cubana, em meio à escassez de alimentos, combustíveis e recursos para manter serviços essenciais, a cooperação chinesa, tanto no fornecimento de arroz e outros produtos quanto na instalação de parques solares com painéis fotovoltaicos, têm sido fundamental. “Para o povo da ilha que ao longo da sua existência socialista tanto ajudou outros países em ações humanitárias, cada novo projeto energético e cada remessa de alimentos que recebem significam algum alívio em um cotidiano marcado por limitações severas”, afirma Betto.
Compreender a atual situação de Cuba também exige um olhar atento para os efeitos do bloqueio imposto pelos Estados Unidos. As restrições econômicas, comerciais e financeiras dificultam o acesso a medicamentos, tecnologias, combustíveis, alimentos e investimentos, atingindo sobretudo a vida da população. É nesse contexto que a solidariedade internacional se torna indispensável e que a China poderia, como defende Frei Betto, ampliar ainda mais sua contribuição para uma nação pequena em população, mas de enorme relevância histórica e geopolítica.
A voz de Frei Betto tem especial importância nessa mobilização. Ele acompanha há décadas a trajetória de Cuba e mantém uma relação de diálogo, solidariedade e compromisso com o povo do país. Seu livro “Fidel e a Religião” traduzido para 32 idiomas, vendeu mais de 1,3 milhão de exemplares no mundo todo. O frade dominicano ajudou a aproximar universos que durante muito tempo foram considerados incompatíveis, como o cristianismo e o pensamento revolucionário. Sua atuação ultrapassa a análise política. Ela se expressa na defesa concreta da dignidade humana, no combate à fome e na insistência de que Cuba não seja abandonada justamente quando atravessa uma de suas crises mais profundas.
Ao unir a cooperação chinesa ao apelo solidário de Frei Betto, abre-se espaço para uma pergunta urgente: até quando a população de Cuba continuará pagando o preço de um bloqueio que atravessa gerações? Olhar para a ilha com responsabilidade significa reconhecer suas dificuldades sem apagar sua história, sua resistência e o direito de construir o próprio futuro.












