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Três Mil Anos ao Alcance das Mãos

Museu Gumie abre suas portas em fase experimental e desperta um antigo reino adormecido há três milênios

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Agência de Comunicação Brasil–China, 12 de junho – Em 12 de junho de 2026, às margens do rio Qujiang, na província de Zhejiang, o Museu Gumie abriu oficialmente suas portas em caráter experimental. Na mesma data, o local também sediou as atividades principais de Zhejiang para o Dia do Patrimônio Cultural e Natural de 2026. Mais do que a inauguração de um edifício, o momento simboliza o despertar de um antigo reino que permaneceu adormecido por três mil anos.

Gumie foi um dos estados regionais mais influentes do oeste de Zhejiang durante os períodos Shang e Zhou. O reino é mencionado ocasionalmente no Zuo Zhuan e aparece de forma mais clara no Guoyu – Yueyu Shang, que descreve o território do Estado de Yue estendendo-se “até Gumie, a oeste”. Já o Yi Zhou Shu – Wang Hui Jie registra que Gumie prestou tributo ao rei Cheng da dinastia Zhou durante uma grande reunião de senhores feudais em Luoyi. Apesar dessas referências, os registros históricos sobre Gumie são fragmentados e incompletos, fazendo com que, por séculos, sua existência parecesse mais uma lenda do que um fato histórico.

A mudança ocorreu no outono de 2017. Na aldeia de Mengjiang, distrito de Yunxi, um morador de mais de setenta anos encontrou um túnel aberto por saqueadores e comunicou o fato às autoridades. A descoberta levou arqueólogos a iniciarem escavações de emergência nos grandes túmulos de terra de Miaoshanjian e Mengjiang.

Em 2018, os arqueólogos encontraram em Miaoshanjian a mais antiga estrutura funerária chinesa em forma de “A”, construída com caixão de madeira. A descoberta antecipou para o período Zhou Ocidental Médio a origem do sistema funerário posteriormente utilizado pelos reis do Estado de Yue. No interior da tumba foram encontrados conjuntos completos de arreios de bronze, espadas de bronze incrustadas com pedras preciosas e dois conjuntos contendo 84 peças de jade em forma de anel aberto.

As escavações posteriores nos Túmulos nº 1 e nº 3 de Mengjiang elevaram as pesquisas sobre Gumie a um novo patamar. No Túmulo nº 1 foram descobertos cerca de 200 anéis de jade distribuídos em seis conjuntos, o maior número já encontrado em um sítio do período Zhou Ocidental. Já o Túmulo nº 3, com cerca de 70 metros de diâmetro, é considerado o maior túmulo de terra do início do Zhou Ocidental já identificado no sul da China.

A aproximadamente 5,5 quilômetros a noroeste da área funerária, surgiu também a antiga cidade de Shijiaoshan. Sua estrutura composta por três camadas concêntricas revelou uma organização urbana extremamente avançada, empurrando a origem das cidades da Bacia de Jinhua-Quzhou para mais de mil anos antes do que se acreditava.

Essas descobertas apontam para uma conclusão inequívoca: Gumie não era uma lenda, mas um verdadeiro estado regional dos períodos Shang e Zhou.

O renomado arqueólogo Wang Wei, ex-presidente da Sociedade Arqueológica da China, avaliou que as descobertas em Qujiang representam um marco para a arqueologia do Zhou Ocidental e uma importante contribuição para a compreensão da integração da civilização chinesa no baixo curso do rio Yangtzé.

A arqueologia revela a história; o museu permite que ela seja vista.

Em 2022, o distrito de Qujiang lançou um concurso internacional para o projeto arquitetônico do museu. A proposta vencedora, desenvolvida pela equipe do acadêmico Cheng Taining, recebeu o nome de “Homenagem à Paisagem”.

Inspirado nos anéis de jade encontrados nas escavações, o edifício foi concebido como um conjunto de formas circulares de diferentes tamanhos espalhadas suavemente sobre a encosta, voltadas para o rio. O projeto presta homenagem à tradição cultural de respeito ao céu e à terra da dinastia Zhou, ao mesmo tempo em que dialoga com o espírito cultural contemporâneo de Quzhou.

O museu possui aproximadamente 32 mil metros quadrados de área construída e quatro espaços expositivos, incluindo uma galeria temporária. Sua exposição permanente tem como eixo narrativo o tema “Desvendando Gumie”.

Para reproduzir a textura suave do jade antigo, a fachada utiliza painéis de vidro impressos digitalmente, todos com formatos e curvaturas distintos. Já as paredes de terra compactada remetem diretamente à coloração dos túmulos arqueológicos. O resultado é um diálogo visual entre passado e presente.

Um dos trabalhadores envolvidos na construção resumiu a experiência de forma poética:

“Não estávamos construindo um prédio; estávamos remontando uma peça de jade de três mil anos.”

Após quatro anos de obras, o novo marco cultural ergue-se às margens do rio Qujiang. Muitos visitantes afirmam que o edifício parece ter brotado naturalmente da própria paisagem local.

No dia da abertura experimental, a praça do museu recebeu a feira temática “Maravilhas de Gumie”, reunindo grande público. Barracas gastronômicas, apresentações de patrimônios culturais imateriais e atividades interativas atraíram visitantes de todas as idades.

No terraço panorâmico do terceiro andar, um palco espelhado de dez metros de diâmetro recebeu apresentações inspiradas na história de Gumie, incluindo os espetáculos Sacrifício da Manhã de Gumie, O Encanto do Jade e Um Olhar Através dos Milênios. Tendo o rio e as montanhas como cenário natural, as apresentações pareciam recriar os rituais e a música de três mil anos atrás.

Entre os visitantes estava um entusiasta de arqueologia que viajou de outra região especialmente para a ocasião.

“Antes eu só encontrava referências a Gumie em documentos antigos. Hoje finalmente pude ver de perto aqueles jades, bronzes e cerâmicas.”

No interior das galerias, destacam-se uma espada de bronze ornamentada com turquesa, conjuntos completos de utensílios cerimoniais e uma pequena peça de jade esculpida com traços faciais. Apelidada pela imprensa de “O Sorriso de Três Mil Anos”, a peça pode representar um importante testemunho de cultos ancestrais ou rituais xamânicos.

Por trás desse trabalho existe também uma rede de guardiões locais. A aldeia de Mengjiang criou uma equipe composta por arqueólogos rurais, voluntários de preservação patrimonial e divulgadores comunitários. Entre eles há agricultores, moradores e professores aposentados.

Um dos voluntários comentou:

“Esses túmulos ficam na montanha atrás da nossa aldeia. Protegê-los é proteger as nossas próprias raízes.”

A abertura experimental não representa o fim do projeto. O distrito de Qujiang planeja integrar o museu a um circuito turístico e cultural mais amplo, conectando-o aos campos floridos de Mengjiang, à antiga rua de Duze e à aldeia histórica de Yingchuan.

Entre junho e agosto serão realizados 28 eventos temáticos, incluindo oficinas de preparo dos tradicionais zongzi de Gumie, travessias do rio Qujiang, roteiros arqueológicos, exposições de animação chinesa, experiências teatrais imersivas e atividades familiares.

Segundo representantes do Departamento de Cultura e Turismo de Qujiang:

“Esperamos que este não seja apenas um lugar para observar relíquias históricas, mas um espaço onde qualquer pessoa possa encontrar uma conexão com o passado.”

Há três mil anos, o rio Qujiang testemunhou os ancestrais de Gumie cultivando arroz e construindo sua civilização. Hoje, ele testemunha o despertar desse antigo reino por meio de seu museu.

Os patrimônios pertencem ao povo e existem para servir ao povo. Esta é a mais calorosa resposta que um antigo reino pode oferecer aos dias atuais. A jornada da arqueologia continua, e a história de Gumie segue sendo escrita.