
Poderia contar um pouco a sua trajetória de vinda para o Brasil?
Nasci em Xangai, no período de transição da China nacionalista para a China comunista. Naquele momento, Taiwan ainda representava oficialmente a China na Organização das Nações Unidas (ONU). Minha família, tanto do lado do meu pai quanto da minha mãe, era da elite intelectual e empresarial. Com a Revolução Comunista, famílias como a nossa seriam perseguidas. Então, alguns membros foram enviados a Taiwan para avaliar as perspectivas de futuro. Meus pais estavam entre eles. Quando a revolução se consolidou rapidamente, ficamos em Taiwan, onde fiz o ensino primário. Depois, imigramos para o Brasil. Uma tia já havia se estabelecido aqui, em Curitiba, antes mesmo da revolução, comprando uma fazenda de café em Londrina. Isso abriu o caminho. Chegamos de navio em Santos, em 1958, e ficamos alguns meses no Paraná antes de nos fixarmos em São Paulo.
Você tem outros irmãos?
Sim, um que mora em São Paulo e outra que mora em Ilhéus, na Bahia.
Com tanta gente no Brasil interessada nos chamados doramas, parece que com sua vinda ao Brasil você vive um C-drama de sucesso há 67 anos, né?
Sim (risos). Eu conheci a minha mulher, May, aqui no Brasil, aos 11 anos de idade, ela tinha 8. Hoje tenho 77. Começamos a namorar quando ela tinha 15, o que à época era até considerado cedo. Somos casados há 53 anos. Temos quatro filhos: três meninas e um menino. E agora estamos com 14 netos. Acredito que esse é meu maior feito na vida.
E como foi a adaptação aqui no Brasil à época da sua chegada?
No começo, foi muito difícil. Eu tinha 10 anos, não falava português e precisei voltar ao início da escola, estudando com crianças de 6 anos, apesar de já ter feito o primário em Taiwan. Foi traumático: sofri bullying diariamente. Eu era alvo fácil, não entendia sequer os insultos, mas sabia que não eram coisas boas. Era alvo de zombarias. Aos poucos, aprendi a língua, comecei a ganhar confiança e a me adaptar.
Qual é a primeira regra para um imigrante aqui no Brasil ou em qualquer lugar?
Qual?
Sobrevivência. E se o país não dá de cara um espaço para o imigrante ter um emprego digno – a não ser que chegue com um monte de dinheiro –, mas sendo uma pessoa mediana, tem de fazer um downgrade da sua vida e tentar sobreviver. Meu pai era engenheiro e arquiteto, embora chinês, formado em uma das melhores escolas do mundo, que é a Universidade de Tóquio, se empregou em uma empresa americana que estava estabelecida aqui, mas ele não podia ser registrado como engenheiro, nem como técnico – o diploma dele não tinha como ser validado aqui no Brasil. E ainda é assim. Ele era um empregado que fazia trabalho de engenheiro, mas ganhava um terço do que um engenheiro ganhava. Fomos para a colônia chinesa que era minúscula. Ele achava que o trabalho na empresa não iria para frente, compramos um sítio pequeno em Suzano, perto de Mogi, e fomos criar galinhas. Eu fui estudar no ginásio de Suzano, a mesma escola onde em 2019 houve aquele massacre com a morte de estudantes e outras pessoas (Escola Estadual Professor Raul Brasil). Nessa escola foi uma experiência sui generis.
Por quê?
Porque quem morava lá era o pessoal que plantava e cultivava a terra, um ambiente totalmente agrícola. Na minha sala tinha 47 alunos, sendo três brasileiros, um chinês e o resto todo era japonês. Mas a maior população era a japonesa? Não. Não sei se já deu para você perceber o que o estrangeiro entendia – “A gente só vai crescer aqui se nossa segunda geração estudar”. No Oriente, todo mundo sabe que o que vale é o conhecimento. Como é que está a Coreia, o Japão? O Vietnã hoje forma o dobro de engenheiros do Brasil. Meu pai era uma pessoa inteligentíssima, conheceu o mundo, grande fotógrafo, músico, mas de repente passou a ser da classe mais baixa da sociedade, porque não se conseguia reconhecer aqui os valores de quem vinha de fora. Então, minha trajetória é marcada por esses entrelaçamentos: nasci na China, cresci em Taiwan, me formei no Brasil e me especializei nos Estados Unidos. Essa experiência multicultural me deu uma perspectiva privilegiada sobre como o Brasil enxerga a Ásia e, principalmente, a China.
E qual era a sua percepção do Brasil naquela época?
Vou te dar uma visão semiótica. Naquela época, o Brasil era chamado de país do amanhã. O meu pai dizia: “Filho, aqui realmente é o país do amanhã, porque toda coisa que eu peço, eles me respondem, ‘Amanhã’. A gente não vai ao encontro do amanhã; a gente espera o amanhã chegar”.
E da China?
A visão que eu tenho da China foi construída no Brasil, baseada no contraste. A partir do momento que eu tentei entender o país que estava vivendo, eu comecei a entender as diferenças com a China. Hoje, faço parte de um grupo com pessoas representativas do país para pensar um Projeto Brasil, porque ninguém aqui sabe o que o Brasil quer ser “quando crescer”. Quando você não sabe o que quer ser, você não será. Os governantes têm uma visão de no máximo quatro anos. Eles têm projetos de poder, mas não projetos de país. Trocam o futuro brilhante que ainda é possível pelo que é imediato. Na verdade, se não trocarem esse modo de pensar, nunca vamos sair do lugar. Sempre seremos colônia, porque a cabeça é de colônia. A China tem um projeto de país. Isso vai muito além de políticas públicas pontuais. Trata-se de uma visão de Estado. Eles planejam o que querem ser em 100, 200 ou até 500 anos. E há uma base sólida para sustentar esse planejamento: o capital intelectual. E como isso se forma? Pela educação. Quase todos os países do Extremo Oriente – China, Japão, Coreia – têm um compromisso profundo com a educação, da primeira infância ao pós-doutorado e à pesquisa científica. Veja o caso do Japão: o país praticamente não tem recursos naturais, importa quase tudo. Ainda assim, transforma o que recebe em produtos de altíssimo valor agregado. A verdadeira matéria-prima do Japão é o japonês. No caso da China, é parecido. Quando se fala que a China é uma fábrica, o que isso significa? Que o verdadeiro motor da produção chinesa são os chineses.
Sua capacidade de planejar, se organizar e produzir…
Exatamente. A China não tem pressa. Ela não caminha, não corre; marcha. Isso porque com seus mais de cinco mil anos de história, sabe manter ritmo e consistência para chegar aonde quer. O país se planeja para décadas ou mais: seja sua infraestrutura, seja energia, segurança alimentar… É planejamento estratégico em nível nacional. Ao contrário da mentalidade brasileira, que improvisa, o chinês não faz nada sem planejar. A China tem uma visão industrial muito clara: produz para o mundo. Lá, a mão de obra é barata, mas grande parte da produção já é automatizada. Eles constroem máquinas para fabricar outras máquinas. Há até o conceito de “fábrica escura”, ou seja, fábricas completamente automatizadas, onde não há nenhum ser humano, e por isso sem necessidade de luz. A matéria-prima entra, o produto sai e todo o processo ocorre sem intervenção humana.
Mas, ainda assim, há uma imensa força de trabalho humana.
Sim, claro. Basta observar um cozinheiro chinês, a habilidade, a técnica, a precisão. Ainda há muito espaço para o talento humano, especialmente em áreas artísticas e culturais. Mas a lógica é: se algo pode ser feito por uma máquina, será automatizado. E se exige um toque humano, o profissional será altamente especializado nisso.
O que o Brasil pode aprender com isso?
O Brasil precisa de visão estratégica e execução consistente, algo que a China desenvolveu ao longo de milênios. Nós começamos projetos, mas não conseguimos terminá-los. Essa é a diferença fundamental. Estamos falando de China, mas precisamos refletir sobre nós mesmos. Não temos uma identidade de Brasil. A Bahia tem uma identidade muito forte, o Rio Grande do Sul tem uma identidade muito forte. Mas qual é a nossa identidade como Brasil? Não somos capazes de aceitar totalmente o diferente de cada um de nós. Estive em ambientes muito distintos e percebi diferenças políticas e culturais profundas. Essa diversidade nos impede de chegar a um entendimento coletivo. Quando conseguimos criar uma imagem do Brasil no mundo, essas imagens se autorrealizam. Elas não apenas convencem os brasileiros, mas também outros países, que começam a nos considerar dessa forma e reforçam essa percepção. Assim, construímos objetivos e estratégias a partir dessa imagem. A China tem essa identidade formada ao longo de sua história milenar. Os Estados Unidos têm isso. Na Europa é diferente, é algo fragmentado. Cada país tem seu orgulho. Se não resolvermos essas diferenças, o Brasil não vai evoluir. Identidade e mindset são fundamentais, e ambos exigem tempo, experiência e educação.
Ainda falando sobre planejamento, o que influenciou o seu interesse pela visão estratégica das coisas?
É difícil dizer. Meu pai era engenheiro, eu sou engenheiro, e a engenharia ensina a planejar. O pensamento chinês também valoriza o planejamento rigoroso. Como já mencionei, o chinês não faz nada sem planejar. E para isso é preciso ter conhecimento. É a clareza que orienta todo o planejamento estratégico e a visão de longo prazo. Em última análise, o planejamento é resultado da filosofia. Os filósofos antigos foram os responsáveis por estruturar o pensamento e a clareza que hoje valorizamos. Então, fui influenciado pela filosofia e, claro, pela minha experiência pessoal.
E por falar em influências, como você se sente quando volta à China?
Estive recentemente, inclusive, em uma viagem do Brasil à China para participar de um evento específico de semiótica. Uma das coisas que fiz foi visitar a casa onde nasci. Foi interessante rever meus primos. Quando estou lá, me sinto bastante chinês. E me senti ainda mais na ocasião do evento, porque o grupo que acompanhava não falava chinês. Senti-me mais chinês do que nunca. Quando vou para os Estados Unidos, também me sinto mais chinês – não porque eu queira parecer mais chinês, mas porque os norte-americanos não falam chinês e quando me olham (veem os olhos asiáticos), todos para eles são chineses.
É um preconceito explícito assim?
Depende do lugar. Em São Francisco ou Nova York, grandes metrópoles, não se sente tanto, mas em cidades menores dos Estados Unidos, os locais percebem quando você é estrangeiro. Lá há uma sensibilidade maior para estrangeiros do que no Brasil. Aqui, sou muito mais acolhido do que nos Estados Unidos. Apesar de ser chinês, consegui me tornar brasileiro e ser aceito.
E com essa sua visão global e sua percepção do tanto que ainda precisamos aprender para nos ajustarmos como nação e até mesmo como povos do mundo, o que o motiva, o que o faz estudar tanto, a discutir projetos para o Brasil…?
Vou lhe contar uma historinha que nos era narrada na escola, quando eu era criança lá na China. O professor nos dizia que um vovozinho levou seu netinho para plantar uma tamareira. Eles foram juntos ao quintal, pegaram a semente, colocaram na terra, adubaram, regaram e, então, o netinho encantado perguntou: “Vovô, quanto tempo leva para essa tamareira dar frutos?”. O vovozinho olhou para ele, sorriu e respondeu: “Ahh… muitos e muitos anos!”, no que o netinho surpreso disse: “Mas, vovô, você não vai ver os frutos!”. E, então, o vovozinho respondeu: “Mas você vai!”.












