O quanto a poesia clássica chinesa pode nos ajudar a entender a China hoje?
Essa é uma pergunta ampla, mas sem dúvida a poesia clássica chinesa é um veículo essencial para compreender o cerne da civilização chinesa. O Shijing (Clássico da Poesia), a mais antiga antologia de poesia da China, foi compilado entre os séculos XI e VI A.C. Ao longo desse extenso intervalo temporal, grande parte das poesias antigas que chegaram até os dias atuais passou por um processo contínuo de transmissão e seleção por diferentes gerações. O que se preservou são, em sua maioria, obras reconhecidas como clássicos. A leitura da poesia clássica chinesa permite, portanto, um acesso direto aos elementos mais centrais da continuidade e da herança cultural chinesa. Além disso, em virtude das características estruturais da escrita chinesa, os leitores contemporâneos enfrentam relativamente poucas dificuldades na compreensão dos poemas antigos. Obras de Li Bai, escritas por volta do século VIII, ainda podem ser lidas com relativa fluidez pelos leitores contemporâneos.
Como estão presentes nos livros escolares?
Essas composições permanecem presentes nos livros escolares e ocupam um lugar de destaque no currículo educacional. Na China, somente na etapa correspondente ao ensino fundamental — que abrange, em geral, crianças de 6 a 12 anos —, os trechos selecionados de poesia e prosa clássicas já representam cerca de 30% do conteúdo programático, sendo frequentemente exigidos para memorização. Pode-se afirmar que a poesia clássica continua a desempenhar um papel fundamental na formação cultural da China contemporânea.
E na história…
Entre as diversas características da poesia clássica chinesa, há uma em especial que merece destaque neste contexto: a sua íntima relação com a história. O poeta e ensaísta Yu Guangzhong observou que, “ao contrário da literatura ocidental, cuja expressão mais elevada muitas vezes reside no campo do religioso ou do mítico — sendo marcada pelo conflito entre o homem e o divino —, a literatura chinesa alcança sua plenitude na harmonia entre o ser humano e a natureza (como em poeta Tao Yuanming), embora seus temas mais recorrentes sejam profundamente terrenos: tratam do indivíduo, de seu tempo e da história. Nesse sentido, a poesia histórica na China ocupa uma posição comparável à da poesia religiosa no Ocidente”. Ler poesia na China é, em grande medida, ler a própria história. É acompanhar os ciclos de ascensão e queda das dinastias, é vivenciar os dramas e os dilemas do indivíduo em meio às transformações sociais. O aprendizado histórico está profundamente entrelaçado com a leitura de poesia e prosa na tradição chinesa. Assim, além de oferecer uma experiência estética, a poesia carrega as marcas do tempo. Ao observar a longa trajetória da história chinesa — com seus inúmeros períodos de prosperidade e crise, as sucessivas mudanças de dinastias e as transformações sociais — compreendemos como isso conferiu à cultura chinesa uma notável diversidade, bem como uma riqueza de experiências e sabedoria. Essa herança milenar moldou a resiliência da civilização chinesa e constitui, ainda hoje, a base sólida da China contemporânea.
Quais poetas você citaria que traduzem os pilares da cultura chinesa?
Entre os poetas clássicos chineses, cada um reflete, em sua obra, tanto o espírito da época em que viveu quanto sua trajetória pessoal e aspirações. Isso torna possível que leitores de diferentes perfis encontrem, em algum poeta antigo, um “amigo de alma”, alguém com quem se identificam profundamente. Li Bai, um dos poetas chineses mais amplamente conhecidos, é um exemplo emblemático. Suas poesias são marcadas por uma leveza e espontaneidade na combinação das palavras, revelando um espírito livre e grandioso. A atmosfera de suas obras frequentemente expressa um sentimento elevado, amplo e vigoroso.
Citaria mais algum?
Outro nome fundamental é Du Fu, considerado um mestre na arte da precisão linguística e métrica na poesia clássica. Ele foi capaz de explorar ao máximo o potencial expressivo da língua chinesa, conferindo a cada palavra e a cada verso um peso semântico profundo. Ao ler seus poemas, tem-se a sensação da vastidão do tempo histórico e da imensidão do céu e da Terra. Outros poetas também merecem destaque por suas contribuições singulares: Tao Yuanming, com sua serenidade e desapego; Li He, cuja poesia é intensa e imaginativa; e Wang Wei, conhecido por sua elevação espiritual e refinamento estético — todos expressam, à sua maneira, aspectos do comportamento e da mentalidade contemporânea chinesa.
Poderia comentar no que o Ocidente se aproxima ou se distancia da cultura chinesa?
A compreensão ocidental da cultura chinesa ainda apresenta lacunas significativas, causadas por fatores históricos, linguísticos e filosóficos profundos. Segundo o renomado acadêmico Martin Jacques, um dos principais motivos é o fato de que a China já possuía uma longa e sofisticada trajetória civilizacional antes mesmo de o Ocidente se consolidar como força dominante no cenário global. Essa continuidade histórica — marcada por uma tradição quase ininterrupta — é uma das razões pelas quais muitos têm dificuldade em compreender a China. Outro obstáculo importante é a barreira linguística. Enquanto os chineses aprendem amplamente as línguas ocidentais, o inverso ainda é bastante limitado. No exame nacional de ingresso à universidade na China (gaokao), a disciplina de língua estrangeira representa entre 13,3% e 20% da pontuação total. Um exemplo emblemático é o termo guójiā, que une os conceitos de ‘nação’ (guó) e ‘família’ (jiā), expressando a ideia de que o país é concebido como uma extensão da unidade familiar. Traduzir esse conceito apenas como “Estado” ou “nação”, seja em inglês ou em português, empobrece sua carga simbólica — da mesma forma que a palavra “país”, em português, carrega as raízes de “pai” e “mãe”, remetendo a significados que transcendem o âmbito político e territorial. Essa diferença não se limita à linguagem, mas reflete também distinções fundamentais no plano do pensamento filosófico. Portanto, para se compreender, verdadeiramente, a China, é essencial mergulhar em sua história, estudar sua língua e explorar a formação e o simbolismo de seus vocábulos. Alternativamente — ou complementarmente —, uma boa maneira de iniciar esse processo é visitar o país.
Há algum poeta, escritor brasileiro que seja referência para os chineses?
Jorge Amado foi um dos primeiros escritores brasileiros a conquistar a atenção dos leitores chineses, tendo visitado a China diversas vezes ao longo de sua vida. Além disso, com o crescimento acelerado das traduções literárias nas últimas décadas, o público chinês passou a ter acesso a um número cada vez maior de obras de autores brasileiros renomados, como Clarice Lispector, Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade, entre outros. Esses nomes tornaram-se amplamente conhecidos entre os leitores chineses e são muito apreciados no meio literário do país.
Há algum dado que reflita o comportamento e/ou a frequência da prática de leitura dos chineses nesse mundo dominado por smartphones?
De acordo com o 21º Relatório Nacional de Leitura da
População, publicado em 2024, a taxa geral de leitura entre os adultos chineses — considerando livros, jornais, revistas e publicações digitais — atingiu 81,9%. A leitura de livros impressos corresponde a 59,8%, enquanto a de jornais representa 23,1% e a de revistas, 17,5%. Os meios digitais de leitura — incluindo leitura online via computadores, smartphones, e-readers e tablets — apresentaram uma taxa de penetração de 80,3%.
Qual o perfil de leitura?
Em média, um adulto chinês leu 4,75 livros em formato impresso ao longo do ano de 2023, dedicando cerca de 23,38 minutos por dia à leitura. No formato digital, a média anual foi de 3,4 livros por pessoa, sendo que aproximadamente 10% da população adulta leu mais de dez livros digitais nesse período. Além disso, a prática da audição de livros — uma modalidade de leitura em ascensão — também se destacou. Cerca de 36,3% dos adultos chineses declararam ter utilizado audiolivros como forma de leitura em 2023.
Poderia citar algum exemplo das escolas, do governo ou mesmo de empresas que estimulem a leitura?
O governo chinês tem atribuído grande importância à promoção da leitura. Desde 2014, o termo “Leitura para
Todos” tem sido incluída por 11 anos consecutivos no Relatório de Trabalho do Governo. Nesse contexto, diferentes regiões da China implementaram políticas locais de incentivo à leitura, adaptadas às suas realidades específicas. Um dos pilares dessa política pública é a oferta de conteúdos de alta qualidade para atender aos diversos perfis de leitores.
E como investe o setor editorial?
O setor editorial tem investido continuamente na diversificação dos temas, formatos e plataformas de publicação. Programas como o Plano Nacional de Publicação de Obras-Chave, o Projeto de Publicação de Livros de Divulgação Teórica de Excelência e o Projeto de Publicação de Obras Literárias Originais de Excelência têm garantido uma oferta constante de obras de referência. Premiações como o ‘Prêmio Governamental de Publicação da China’ e o ‘Melhores Livros da China’ também cumprem um papel importante ao reconhecer e divulgar obras literárias de excelência para o grande público. No campo da infraestrutura, a construção e modernização de espaços de leitura têm avançado significativamente. A China conta com mais de 3.300 bibliotecas públicas abertas gratuitamente à população. Desde o fim de 2020, todas as bibliotecas públicas, centros culturais, museus de arte e estações culturais da China passaram a oferecer acesso gratuito ao público, com mais de 90% dos museus do país adotando essa política.
Em um mundo cada vez mais automatizado, hipnotizado por tecnologias como a chamada inteligência artificial, qual o papel da poesia e/ou literatura, ainda mais para quem lida com comunicação?
A poesia, enquanto uma das formas mais condensadas de expressão das emoções e experiências humanas, tende a destoar cada vez mais de um mundo marcado pela automação e pela eficiência. Há quem diga que, hoje, há mais pessoas escrevendo poesia do que lendo poemas. Do meu ponto de vista, além de proporcionar uma experiência pessoal de ressonância emocional ou reflexão crítica, a poesia — por ser uma das formas mais breves da literatura — representa também uma excelente porta de entrada para o universo cultural. Um exemplo disso foi o impacto do poema ‘A flor e a náusea’, de Carlos Drummond de Andrade, apresentado na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, que se tornou, para muitos leitores chineses, o primeiro ponto de contato não apenas com a poesia brasileira, mas com a literatura do Brasil de forma mais ampla. A poesia e a literatura nos permitem, com um número mínimo de palavras, acessar de forma rápida e sensível os pensamentos, sentimentos e visões de mundo de um povo ou de uma nação. Para aqueles que atuam nas áreas de comunicação e mídia, a poesia dialoga, em certa medida, com os formatos de circulação dos meios digitais contemporâneos. Ao mesmo tempo, carrega uma profundidade simbólica e cultural rara. Compreender e utilizar a poesia pode ser, para os profissionais da comunicação, uma maneira de atingir diretamente o coração da cultura.


