Internet via satélite e radioastronomia colocam cooperação espacial China–Brasil em nova órbita

Constelação de órbita baixa levará conectividade a áreas remotas no Brasil, enquanto laboratório binacional no Nordeste aprofunda parceria científica iniciada com o CBERS em 1988

(Foto: Ricardo Stuckert)

China e Brasil estão abrindo uma nova frente na sua parceria estratégica ao levar a cooperação espacial para dois eixos centrais do século 21: conectividade digital e pesquisa científica de ponta. De um lado, a empresa chinesa SpaceSail se prepara para oferecer, a partir do primeiro semestre de 2026, serviços de internet via satélite de órbita baixa em regiões remotas do Brasil. De outro, a China Electronics Technology Group Corporation (CETC) avança com universidades brasileiras na criação de um laboratório conjunto de tecnologia em radioastronomia voltado à observação astronômica e à exploração do espaço profundo.

O projeto de conectividade é ancorado na constelação Qianfan, primeira grande constelação comercial chinesa de satélites de órbita baixa a entrar em operação em rede. Desde o lançamento do primeiro lote de 18 satélites, em agosto de 2024, a constelação já alcançou 108 satélites em órbita após cinco novos lançamentos, permitindo oferecer serviços de banda larga a longa distância. Um memorando de entendimento firmado no fim de 2024 entre a SpaceSail e a estatal brasileira Telebras prevê o uso dessa infraestrutura para conectar escolas, hospitais e serviços públicos em áreas historicamente excluídas da infraestrutura digital, alinhando-se à prioridade do governo Lula de reduzir desigualdades regionais com apoio da tecnologia.

No campo científico, a CETC assinou com a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) o acordo para criação do Laboratório Conjunto China–Brasil de Tecnologia de Radioastronomia. O entendimento, firmado na presença de representantes dos ministérios de Ciência e Tecnologia dos dois países, pretende transformar o laboratório em uma plataforma estratégica para pesquisas de fronteira em observação astronômica, planejamento de grandes projetos internacionais e desenvolvimento de tecnologias voltadas à exploração do espaço profundo. A iniciativa também coloca a formação de talentos no centro da agenda, com intercâmbio de pesquisadores e cooperação acadêmica estruturada.

Esses novos projetos se somam a uma trajetória de mais de três décadas de cooperação espacial. Em 1988, China e Brasil assinaram o acordo que deu origem ao programa CBERS (Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres), o primeiro satélite chinês de sensoriamento remoto civil com transmissão direta de dados à Terra. Desde então, o programa tornou-se referência global de cooperação Sul–Sul, contribuindo para o monitoramento ambiental, o planejamento territorial e o fortalecimento da capacidade científica nos dois países. Ex-dirigentes da Agência Espacial Brasileira destacam que o CBERS foi decisivo para aproximar politicamente e tecnicamente Brasil e China no setor espacial.

Ao ampliar essa agenda com internet de alta capacidade para regiões remotas e um laboratório binacional em radioastronomia, os dois países sinalizam uma atualização da parceria para os desafios atuais: soberania digital, segurança de dados, ciência aberta e redução de assimetrias tecnológicas. Para o Brasil, significa combinar inclusão digital e salto científico aproveitando infraestrutura espacial e know-how chineses. Para a China, representa consolidar presença em um parceiro-chave do Sul Global, testando modelos de aplicação comercial e científica em um território de dimensões continentais. No conjunto, a nova rodada de projetos indica que a cooperação espacial sino-brasileira está migrando de iniciativas pontuais para um ecossistema mais integrado, que conecta infraestrutura, serviços públicos e pesquisa avançada em uma mesma estratégia de longo prazo.

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