A China registrou junto à União Internacional de Telecomunicações (UIT), agência da ONU responsável por coordenar o uso global de espectro e recursos orbitais, planos que somam mais de 200 mil satélites distribuídos em mais de uma dezena de constelações. As informações constam de requerimentos publicados no site da entidade e indicam uma movimentação para assegurar posições e frequências em órbita baixa (LEO), num momento em que a competição entre grandes potências e empresas privadas se intensifica.
De acordo com o material citado na reportagem do China Daily, os pedidos variam de redes com pouco mais de dez satélites a projetos que se aproximam de 100 mil unidades. As duas maiores constelações listadas, CTC-1 e CTC-2, têm 96.714 satélites cada e foram protocoladas pelo Institute of Radio Spectrum Utilization and Technological Innovation, instituição descrita como recém-criada e focada em inovação e comercialização ligada ao espectro, responsável por mais de 95% do total apresentado. O texto também menciona submissões de atores estatais e privados, como China Satellite Network Group, Shanghai Yuanxin Satellite Technology, China Mobile, China Telecom e empresas do setor espacial comercial, incluindo GalaxySpace e Spacety.
O registro, porém, não equivale a uma autorização para lançar imediatamente essa quantidade de satélites. Um especialista do centro nacional de regulação de rádio citado pelo China Daily afirma que a submissão à UIT é o primeiro passo formal para operadores no mundo e costuma ocorrer com antecedência de dois a sete anos antes de lançamentos, porque a utilização de frequências e recursos orbitais envolve uma sequência de procedimentos e coordenações internacionais. O mesmo especialista ressalta que, do protocolo inicial ao lançamento e ao início de aplicações, o processo é longo e os parâmetros técnicos e a escala podem sofrer ajustes nas etapas seguintes.
No plano geopolítico e industrial, a iniciativa reforça a leitura de que a “economia da órbita baixa” entrou em fase de disputa estrutural. O próprio China Daily registra que múltiplos países já apresentaram informações de redes envolvendo mais de 100 mil satélites, o que eleva a pressão sobre coordenação de frequências, mitigação de interferências e governança de tráfego espacial. Embora a reportagem aponte o movimento como sinal de capacidade para uma implantação sistemática em LEO, ainda não há, a partir desses registros, confirmação pública de cronograma, financiamento e cadência de lançamentos compatíveis com a escala anunciada.
Para mercados como o brasileiro, onde a conectividade via satélite é tratada como alternativa para escolas, hospitais e áreas remotas, a corrida por megaconstelações tende a repercutir em preço, competição e regulação, mas os efeitos dependerão de como cada rede evolui do papel para a operação. Por ora, o que o protocolo à UIT evidencia é o aumento do “apetite” por espectro e por espaço orbital — um recurso finito — e a necessidade de regras claras, transparência técnica e coordenação internacional para que a expansão da internet espacial não venha acompanhada de riscos elevados de congestionamento e conflitos regulatórios.













