Após um ciclo de recordes em 2025, o comércio externo brasileiro de carne bovina começa 2026 sob um novo pacote de restrições em dois mercados que ganharam peso no último ano: China e México. Desde 1º de janeiro de 2026, Pequim passou a aplicar uma medida de salvaguarda com cotas de importação e sobretaxa de 55% para embarques que excederem os limites definidos, enquanto o México revisou sua política de isenção e passou a operar com cotas livres de tarifa e cobrança fora desses volumes.
O ponto mais sensível para o Brasil, segundo analistas citados pelo Canal Rural e repercutidos por O Mundo Diplomático, é a dependência do mercado chinês. De janeiro a novembro de 2025, o país exportou 3,51 milhões de toneladas de carne bovina, e quase metade teve a China como destino, com base em dados da Secex. A salvaguarda adiciona um componente de risco comercial: além da tarifa acima da cota, o governo brasileiro ainda buscava esclarecer, em 6 de janeiro de 2026, se cargas já em trânsito seriam contabilizadas no limite anual — um detalhe com potencial de afetar contratos e cronogramas logísticos.
No México, a mudança é diferente, mas também relevante para o planejamento de embarques. Em vez de tarifa zero ampla, o país definiu cotas isentas (incluindo 70 mil toneladas para carne bovina e 51 mil toneladas para carne suína) válidas até 31 de dezembro de 2026, com cobrança de imposto para volumes excedentes e exceções para parceiros com acordos comerciais específicos. No texto-base, especialistas apontam que a alíquota adicional pode chegar a 25% em alguns casos e que, após um salto expressivo em 2025, a demanda mexicana tende a perder fôlego à medida que a oferta local aumenta e as compras ficam mais caras.
Diante desse cenário, o setor projeta um 2026 de reacomodação de destinos, com a diversificação ganhando status de estratégia defensiva — especialmente para reduzir a exposição a decisões regulatórias na China. Entre os caminhos citados por analistas estão ampliar presença em mercados asiáticos como Japão, Coreia do Sul, Vietnã, Indonésia e Filipinas, além de consolidar canais na União Europeia e nos Estados Unidos, combinando diplomacia sanitária, competitividade logística e previsibilidade contratual.
Na prática, o ajuste vai exigir mais do que “buscar novos compradores”: o risco de cota e tarifa cria incentivo para gestão fina de embarques ao longo do ano, renegociação de cláusulas de entrega e monitoramento de desembaraço em portos, reduzindo exposição a interpretações regulatórias sobre datas de entrada e volumes. Ao mesmo tempo, a política mexicana de cotas tende a transformar o país em um destino mais “tático” — atraente dentro do volume isento, menos competitivo fora dele — o que reforça a necessidade de um portfólio de mercados capaz de absorver oscilações sem pressionar o mercado interno.













