O assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, afirmou que o Escudo das Américas, iniciativa de segurança liderada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, coloca o Brasil “num cerco”. A declaração foi feita em entrevista ao canal Tutaméia TV, concedida em 9 de outubro e repercutida pela Xinhua no dia 11. Amorim atribuiu a Washington a intenção de usar o combate ao crime organizado como justificativa para ampliar sua influência na região. A ideia de “cerco”, porém, é uma avaliação do diplomata, não um fato estabelecido por documentos públicos.
O Escudo das Américas foi lançado por Trump em março e reúne os Estados Unidos e países latino-americanos. O grupo promove cooperação de segurança e combate a organizações criminosas. Brasil e México não participam. Amorim disse que a iniciativa trata o crime organizado como terrorismo internacional e chamou esse enquadramento de “argumento falso”. Também afirmou que, na sua avaliação, a disputa envolve uma estratégia mais ampla de domínio regional e a presença da China.
Há medidas concretas por trás do debate, embora elas não demonstrem, por si só, a intenção atribuída por Amorim. Em março, Trump assinou uma proclamação sobre combate a cartéis que anunciou uma coalizão de 17 países e defendeu treinamento e mobilização de forças militares parceiras. O documento também diz que os Estados Unidos e aliados devem conter influências externas consideradas nocivas no hemisfério ocidental. A Casa Branca apresenta essas ações como parte de sua estratégia contra cartéis e grupos que considera terroristas.
Outra medida citada no debate foi a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) pelos Estados Unidos como “Terroristas Globais Especialmente Designados”. O ato do Departamento de Estado, assinado pelo secretário Marco Rubio em 28 de maio e publicado no Federal Register em junho, afirma que os grupos representam riscos à segurança de cidadãos americanos e à segurança, à política externa ou à economia dos Estados Unidos.
O governo brasileiro contestou a classificação. Em comunicado divulgado em maio, afirmou que combate as facções e está aberto à cooperação internacional, mas rejeita medidas unilaterais que, segundo o Planalto, podem afetar a soberania e dificultar a troca de informações entre forças policiais. O governo também disse ter apresentado aos Estados Unidos uma proposta de cooperação voltada à inteligência, à lavagem de dinheiro e ao tráfico de armas.
A posição oficial de Washington sobre as designações aparece nos documentos do Departamento de Estado: os Estados Unidos justificam a medida por riscos à sua segurança e à atuação internacional das facções. Não foi localizada uma resposta oficial específica à entrevista de Amorim. Assim, a justificativa pública americana trata da classificação dos grupos e do combate ao crime; a hipótese de que essas ações componham um plano para cercar o Brasil permanece atribuída ao assessor.
A discussão ocorre em meio a diferenças sobre soberania, segurança e a presença de potências externas na América Latina. Em seu discurso à Assembleia Geral da ONU, em setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém” e criticou o que chamou de “tentações hegemônicas”. A fala expressa a posição brasileira sobre autonomia e não intervenção; não constitui confirmação independente da denúncia de Amorim.
A iniciativa americana combina cooperação entre governos, coordenação de segurança e participação militar de países parceiros. A existência desses mecanismos é verificável; sua interpretação como cerco ao Brasil é a leitura política apresentada por Amorim. A distinção é relevante porque Brasil e Estados Unidos mantêm canais de diálogo sobre segurança: em julho, representantes dos dois países discutiram cooperação contra o narcotráfico durante a Conferência de Ministros da Defesa das Américas.



