BRICS e Ocidente: por que fila para entrar no grupo do Sul Global tem 15 países e na OCDE apenas 6?

(Foto: flickr.com / Ricardo Stuckert / PR)

Criada em 1961, a OCDE surge no contexto do mundo polarizado do pós-Segunda Guerra Mundial, assim como outros marcos do cenário financeiro atual, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, através dos acordos de Bretton Woods.

Esse espírito, aponta Marco Rocha, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), “ainda está muito presente” na organização.

Desde então a OCDE já abarca 38 países-membros, a larga maioria, 26, da Europa, 6 da América, incluindo os Estados Unidos, 2 do Oriente Médio e 2 da Ásia. Do resto do planeta, estão interessados em entrar na organização Argentina, Bulgária, Croácia, Peru, Romênia e Brasil, que no momento não parece ir para frente com sua candidatura.

A entrada na OCDE, aponta Rocha, é condicionada a certas normas e acordos a que o país deve aderir.

“[A OCDE] Impõe uma certa governança conjunta nas relações comerciais, nas práticas relativas à política comercial e à política industrial, e outros acordos de cooperação.”

Para Luis Antonio Paulino, professor de relações internacionais e da pós-graduação em ciências sociais da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e diretor do Instituto Confúcio, essas condicionalidades “refletem as prioridades políticas e econômicas dos países ricos, que em geral estão relacionadas à manutenção dos seus privilégios“.

BRICS: um projeto anti-hegemônico

Em comparação, o BRICS conta com dez membros ao redor do mundo. Além de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, países fundadores, agora fazem parte do grupo Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã. Outros 15 países já formalizaram sua candidatura ao grupo: Argélia, Bahrein, Bangladesh, Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Kuwait, Nigéria, Paquistão, Palestina, Senegal, Tailândia, Venezuela e Vietnã.

A popularidade é tão grande que outros 17 países já expressaram seus desejos de entrar no BRICS, mas ainda não formalizaram suas candidaturas.

O BRICS, explica Marina Moreno Farias, analista de pesquisa no think tank Observa China e integrante do Laboratório de Estudos em Economia Política da China (LabChina), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ao contrário da OCDE, não surge em primeira instância como uma organização, mas a partir de uma análise do economista Jim O’Neill, do grupo financeiro Goldman Sachs, para descrever um conjunto de mercados emergentes.

No entanto, com o passar dos anos, esses países se juntaram e passaram a articular uma identidade própria, a partir de um projeto anti-hegemônico, “ante a ordem do capitalismo liberal global”. “O que o BRICS procura é uma mudança na ordem, não uma mudança de ordem.”

“O BRICS quer, ao que parece, não é desestabelecer o capitalismo global; é desestabelecer a ordem que é baseada no capitalismo neoliberal das nações do Ocidente.”

Rocha aponta para a dominância das nações desenvolvidas em espaços como a OCDE e o G7, fóruns internacionais onde as maiores decisões são tomadas, como um dos motivos pelos quais o BRICS se configura dessa maneira.

“O BRICS surge justamente como uma certa reação ao pouco espaço que os países em desenvolvimento tinham nessas organizações.”

Quais as vantagens de entrar no BRICS?

O BRICS, em sua nova formação, representa cerca de 40% do produto interno bruto (PIB) mundial. Embora a OCDE represente uma fatia ainda maior, as pesquisas apontam que essa participação tende a cair.

Um estudo do Goldman Sachs prevê que até 2050 o BRICS ultrapassará o G7, cujos PIBs correspondem aos maiores da OCDE. Os dados, no entanto, não levam em conta os membros que entraram neste ano.

Para Paulino, nessa perspectiva a OCDE “é um clube de velhos preocupados em manter seus privilégios em um mundo em mudança“, enquanto o BRICS tem uma preocupação maior “com o futuro, com o desenvolvimento“.

A prosperidade econômica, no entanto, não é suficiente para justificar o interesse global em entrar no grupo. Na visão dos analistas, há uma série de outros fatores que levam o BRICS a ser extremamente promissor para o futuro do planeta.

O que é o BRICS e qual o seu propósito?

Enquanto a OCDE exige uma série de reformas econômicas e fiscais para que um país se torne membro da organização, o BRICS não faz “exigências de certos alinhamentos de práticas políticas, comerciais, industriais e de desenvolvimento”, apontou Rocha.

“Ele é muito menos limitante quanto ao que os países podem fazer em relação à sua agenda de desenvolvimento do que a OCDE.”

Para a OCDE, aponta Paulino, “só existe uma forma correta de organizar a sociedade: a deles“. “Tudo que não se enquadra no seu modelo de economia capitalista liberal e democracia eleitoral pluripartidária, por princípio está errado.”

“Acontece que o mundo é muito mais diverso que o modelo europeu-americano e cada país tem sua própria história, cultura e valores, que não necessariamente são os mesmos dos europeus. Mas eles são incapazes de aceitar isso.”

Nesse sentido, sublinha Farias, “o Ocidente, mas principalmente a Europa, tem perdido muito peso no xadrez global” não necessariamente só pela economia, mas também pelo jogo político da governança global. Essa mudança, atribui a analista, é puxada “principalmente pela China”.

Diferentemente dos países que lideram a OCDE, os Estados Unidos e a Europa, que “têm essa proposição de liderar o mundo em direção a um patamar de desenvolvimento”, a China “não pretende ser o país a liderar o mundo”, diz Farias.

“Cada país tem que fazer o seu próprio trabalho para poder atingir o desenvolvimento econômico, e não seguir cartilhas preestabelecidas do que é certo e do que é errado.”

Por que o BRICS é tão poderoso?

Além da independência político-econômica, Rocha destaca que o BRICS está se tornando um fórum para os países da periferia capitalista, onde as nações “que já atingiram um certo grau de maturidade no seu processo de industrialização” têm voz para exercer sua influência geopolítica.

São países que, segundo Rocha, se destacam em alguns setores do fluxo comercial do mundo, mas não eram ouvidos em instituições como a Organização Mundial do Comércio (OMC). “Ou são produtores de petróleo, ou são produtores de alimentos importantes, ou têm alguma participação importante em algumas cadeias industriais“.

“O BRICS acaba se tornando talvez o único grande fórum para reunir países que têm capacidade de ser não grandes players na geopolítica e na economia global, mas pelo menos players intermediários.”

Farias aponta justamente para essa direção ao destacar que a ampliação do BRICS com Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Irã aumentou a porção da produção de petróleo controlada por Estados-membros para 43%.

BRICS: uma via para a desdolarização do mundo

Marina Farias vê no BRICS uma importante via na substituição do dólar como moeda internacional.

Se antes era conjecturado que uma guerra econômica pudesse ser travada pelos Estados Unidos com outra nação desenvolvida através de sua moeda, com as sanções à Rússia os países não hegemônicos viram a urgência de buscar alternativas ao dólar para suas transações comerciais.

“Não que a estrutura do sistema monetário financeiro internacional vai ser alterada, mas os países vão encontrar rotas alternativas para trocar, se conectar e lidar com os outros que não sejam passando pelo dólar americano.”

Esse movimento, aponta Farias, está sendo liderado principalmente por projetos chineses, como o apoio à Rússia durante as sanções do Ocidente, e a iniciativa de infraestrutura mundial do Cinturão e Rota, também conhecida como Nova Rota da Seda, que está sendo financiada pelos bancos de desenvolvimento chineses.

Uma nova superestrutura financeira mundial com o BRICS?

Se a OCDE é criada dentro do mesmo arcabouço teórico que desenvolveu o FMI e o Banco Mundial, o BRICS tem sua própria estrutura financeira, o Arranjo Contingente de Reservas, que busca proteger as moedas soberanas de pressões cambiais internacionais, e o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), que financia projetos públicos e privados ao redor do mundo, em especial no setor de transportes e energias alternativas.

Nesse ponto, o NBD também auxilia na desdolarização do mundo, ao utilizar moedas locais em acordos com os países, como em acordos petrolíferos, apontou Farias.

Segundo Marco Rocha, a criação desse novo arcabouço financeiro mundial acaba se tornando outro grande atrativo do BRICS, “porque ele foge sobretudo das regras das instituições financeiras internacionais que [recaem sobre a] […] OCDE e […] [os] outros fóruns”, afirma.

“Certamente as iniciativas que estão sendo tomadas no campo das finanças procuram criar novas instituições que atendam de forma mais adequada às necessidades dos países em desenvolvimento“, afirmou Paulino.

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