A Argentina registrou uma redução líquida de 31.342 empresas entre novembro de 2023 e junho de 2026, equivalente a 6,1% do total existente no início do período. Os números constam do Monitor Mensal de Empresas da Fundar, centro de pesquisa argentino que trabalha com dados da Superintendência de Riscos do Trabalho. O resultado ajuda a explicar por que a queda da inflação e o equilíbrio fiscal ainda convivem com dificuldades no setor produtivo e no mercado de trabalho.
Somente em junho, o número de empresas caiu em 709, marcando o 17º mês consecutivo de retração mensal. Na comparação com junho de 2025, a perda chegou a 16.386 estabelecimentos, ou 3,3%. O indicador é um saldo líquido: considera a diferença entre empresas que entraram e saíram do registro e não deve ser interpretado como uma contagem bruta de falências decretadas.
Queda espalhada por setores e províncias
Segundo a Fundar, 14 dos 18 setores analisados tinham menos empresas em junho do que no início do atual governo. Alojamento e gastronomia, transporte e armazenamento, atividades imobiliárias, construção e serviços profissionais figuram entre os segmentos com as maiores perdas proporcionais. A redução alcançou 23 das 24 jurisdições argentinas. Neuquén foi a exceção, beneficiada pela expansão ligada à produção de petróleo e gás em Vaca Muerta.
A fraqueza também aparece na indústria. O Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) informou que a produção manufatureira recuou 4,9% em julho ante o mesmo mês de 2025 e acumulou queda de 2,6% entre janeiro e julho. Doze das 16 divisões industriais tiveram resultado interanual negativo. Máquinas e equipamentos caíram 26,7%, enquanto outros equipamentos, aparelhos e instrumentos recuaram 31,4%.
O fechamento de unidades antigas nos setores metalúrgico, têxtil e comercial tornou a tendência mais visível, mas não resume sozinho a situação. Empresas menores, com menos acesso a crédito e maior dependência do consumo doméstico, enfrentam simultaneamente demanda fraca, custos operacionais e maior concorrência de importados após a abertura comercial.
Emprego formal perde espaço
Levantamento do Centro de Economia Política Argentina, citado pela Agência Brasil, aponta perda de aproximadamente 245,6 mil empregos privados registrados entre novembro de 2023 e junho de 2026. Parte da redução foi compensada pelo aumento de cerca de 169 mil trabalhadores autônomos. A mudança evita uma alta ainda maior no desemprego, mas transfere pessoas para ocupações que frequentemente oferecem menos proteção social e renda mais instável.
O Indec calculou a taxa de desemprego em 7,9% no segundo trimestre de 2026, ante 7,6% um ano antes. A informalidade alcançou 45% dos ocupados, subindo 1,8 ponto percentual na mesma comparação. Os dados sustentam uma leitura mais ampla: o emprego não entrou em colapso, mas sua composição piorou e a recuperação ficou concentrada em atividades específicas.
Desinflação e crescimento não chegam de forma uniforme
O governo de Javier Milei contesta interpretações que atribuem todos os fechamentos à política econômica. Autoridades destacam que a inflação mensal caiu para 1,7% em agosto, depois dos níveis extremos observados no início do mandato, e que o Produto Interno Bruto cresceu 4,4% em 2025. O presidente também argumenta que empresas pouco competitivas não devem depender de proteção permanente do Estado.
Os próprios números oficiais mostram, porém, uma economia em duas velocidades. A inflação ainda acumulava 33,5% em 12 meses até agosto. Mineração, energia e finanças apresentam dinamismo, enquanto indústria, construção, comércio e atividades intensivas em mão de obra enfrentam retração. A estabilização macroeconômica reduziu um risco central, mas ainda não reconstruiu de maneira ampla o investimento e o emprego formal.
Para o Brasil, a evolução do país vizinho importa por causa do comércio regional e das cadeias produtivas integradas, sobretudo em veículos, máquinas, alimentos e serviços. Uma demanda argentina mais fraca limita exportações brasileiras; a recuperação de Vaca Muerta, por outro lado, pode ampliar negócios em energia e infraestrutura. O dado de empresas, portanto, deve ser lido junto com produção, emprego, inflação e comércio, sem transformar um único indicador em veredito sobre toda a economia.



