
Você é um dos poucos sinólogos brasileiros membro do World Sinology Center (Centro Mundial de Sinologia), além de ter outros certificados, como o do International Confucian Association (ICA), na China. Qual é a importância desses reconhecimentos?
O Centro Mundial de Sinologia é focado em pesquisas sobre a China. Em 2024, quando foram celebrados os 50 anos de relações diplomáticas entre o Brasil e a República Popular da China, foi fundado o Conselho Brasileiro de Sinologia como parte do Conselho Mundial de Sinologia. E eu fui convidado como integrante, junto de outros professores e pesquisadores do Brasil. Já o ICA foi criado para falar do confucionismo e todos os membros-fundadores são parentes do próprio Confúcio. Um deles é Kong Deli, professor da Universidade Beijing Jiaotong, na China, onde eu estava fazendo meu doutorado sobre a sinologia chinesa, e tive o privilégio de ser apresentado a ele por meio do Instituto Confúcio da Unicamp.
Sua pesquisa é sobre sinologia comparada. Isso significa estudar como os chineses estudam a China, certo?
Minha questão veio do livro que traduzi na graduação e depois no doutorado – tema da minha pesquisa – do linguista chinês Wang Li, ‘A história da linguística chinesa’. No quarto capítulo, ele fala dos sinólogos ocidentais e da relação deles com o chinês, mas o material é feito para ensinar os chineses sobre a história da língua. Foi aí que percebi que ele estava explicando o que é sinologia na China (Han Xue, estudos dos clássicos Han) e fui pesquisar. No texto, Wang Li cita política e filosofia como objetos de estudo da sinologia chinesa. Enquanto a sinologia ocidental pesquisa tudo, na China, estudam política e filosofia – o que, claro, abre outros leques. Desde o período imperial, a própria filosofia produz política, produz teorias que funcionam como leis; essas leis são oficializadas e se tornam política.
E como surgiu seu interesse pela China?
Eu comecei a estudar chinês na adolescência, na própria comunidade chinesa na década de 1990.
O interesse veio pelas artes marciais?
Na verdade, eu me interessava pelo modo como os chineses resolviam as coisas. Eu via televisão, lia livros sobre artes marciais, mas o modo como resolviam os problemas é que me chamava a atenção. E só usavam a arte marcial em último caso, ainda assim para se defender. A arte marcial serviu como porta de entrada para a cultura chinesa. Escrevi um artigo publicado na China sobre isso. Quando a arte marcial é ensinada de maneira consistente, ligada à cultura, dança, vestimenta e história das armas, tudo se amplia; não fica só na luta, vira um contexto cultural.
A arte marcial funciona como um elo cultural…
Para os brasileiros, seguramente é essa porta. Muitos chegam querendo “praticar”, depois dizem que é “pela saúde”, e só mais tarde percebem: “A cultura chinesa me atrai”. Mesmo quando se chega pela luta, existe um contexto cultural antigo: guerras, textos militares, ‘A Arte da Guerra’ de Sun Zi (popularmente conhecido como Sun Tzu), o período de Guan Gong (Guan Yu, na verdade, pois Guan Gong é a referência para Duque Guan), respeitado nas artes marciais. Entender a história dele (período dos Três Reinos) mostra que a justiça era primordial na arte marcial. Saber ser justo e entender o contexto. Por que lutar? Para quem lutar? Qual o propósito?
Você destaca muito a índole de quem luta. Por que ela é tão importante para entender o que é arte marcial?
A índole é algo nato. Por isso é importante observar o comportamento do aluno: quando ele luta, como luta, qual é o seu limite? Ele busca melhorar sua performance, mas tem autocontrole, luta para si mesmo? É isso que se estuda e se pratica nesse contexto. Não se trata de selecionar quem é bom ou ruim; trata-se de fazer com que o aluno – e isso é Confúcio – entenda a si mesmo.
Ou seja, as artes marciais estão calcadas em uma base filosófica.
Dos valores! Valores éticos, morais, de conduta. Confúcio falava da condição de “jun zi”, a pessoa exemplar. Isso se estendia à realeza: se o imperador não tinha boa conduta, o povo o tirava do poder. Existem, por exemplo, armas marciais ligadas ao povo camponês. O povo, no tempo antigo, não tinha acesso à cultura. Quem estudava eram os membros da corte, do império. O povo trabalhava nos feudos. Wang Li fala sobre isso: o feudalismo na China. O imperador dava um pedaço de terra para o camponês trabalhar e este pagava impostos. Quando ele tinha um filho homem, mandava para o Exército para trabalhar, para lutar. Kong Deli fala no livro dele que o império antigo – período que está relacionado com a história da arte marcial, com a história da luta – precisava ter um Exército forte e uma agricultura forte. Esse era o modelo social. Um Exército forte para defender o império e para anexar outros impérios e uma agricultura forte para alimentar o Exército e o reinado. Os camponeses ficavam com as migalhas. Quem promoveu o ensino, a educação e a cultura foi Confúcio. Por isso que ele é considerado até hoje o pai da educação.
Mas por que ele tinha essa preocupação com a educação do povo, uma vez que isso fazia parte de uma forma de controle?
Isso está nos ‘Analectos’. Um povo educado entenderia as leis. Entendendo as leis, agiria de acordo com elas e contribuiria para o fortalecimento imperial. As leis eram anunciadas por emissários que chegavam no campo e abriam a carta do imperador. Quem entendia ou não, pouco importava, era lei. A ideia de Confúcio era que, com estudo, o povo saberia: “essa lei é boa para nós”.
Retomando o início do seu interesse por essa forma chinesa de “resolver as coisas”, levou-o exatamente às artes marciais?
Quando percebi como eles resolviam os problemas, fui atrás para aprender e encontrei as artes marciais. Na década de 1960, elas se propagaram no Brasil, com referências como os filmes de Bruce Lee. Os primeiros chineses vieram ao Brasil para ensinar sobre o chá, por volta de 1912. Anos depois, vieram comerciantes que abriram suas lojas, mas também começaram a ensinar artes marciais. Em 1995 ou 1996, eu já falava chinês e um amigo que estava treinando com um mestre chinês me perguntou se eu não queria conhecê-lo.
Ele também era comerciante?
Não, era professor mesmo, o Mestre Wei (Wei Changqing). Inclusive esse era o diferencial: ele veio ao Brasil especificamente para ensinar kung-fu. Primeiro veio como juiz de campeonato, gostou do Brasil e depois voltou trazendo a família. Inicialmente ele dava aula em uma academia na Liberdade e treinava alguns alunos no quintal de casa. Treinei até entrar na faculdade, quando precisei parar um tempo. Mas já havíamos fundado o Centro de Cultura Chinesa, que era escola de artes marciais e espaço cultural – exposições de espadas, que o mestre Wei adorava, porque o pai dele era mestre do estilo Sun Bin.
Falando em Sun Bin, neto do Sun Zi, qual é a importância dele na mentalidade estratégica chinesa?
Ambos falavam de estratégia e tática militar. Sun Zi foi anterior: escreveu 13 capítulos de ‘A arte da guerra’, muito focado, na minha percepção, na geografia, domínio de território. Sun Bin destacava a parte social, a pessoa. Aí entra o “wu de”, a ética marcial – muito forte nele. Seus títulos, nos 36 capítulos (sem contar os perdidos), deixam isso claro. Pesquisadores dizem que Guiguzi, mestre de Sun Bin, escreveu 72 capítulos sobre estratégia, política, diplomacia… E Guiguzi era taoísta…
Por que isso é importante?
Isso é fundamental. Mas antes é preciso entender o que é Tai chi – as leis que governam a natureza, o yin e o yang em constante troca, em busca da harmonia. Estratégias estão totalmente ligadas ao yin e yang.
Mas isso não tem relação com aquela visão de masculino forte e feminino fraco, certo?
Não. Isso é um equívoco comum. É mais fácil explicar isso pelas teorias da física – polaridades. A corrente elétrica alternada precisa das duas forças para produzir luz, criar energia elétrica.
E como isso ajuda no pensamento estratégico?
Identificando as polaridades, entende-se o conflito e como controlá-lo. Pense numa empresa: se houver conflito e você for yang (força) também, só alimenta o problema. Ser só yin (passivo) não resolve. ‘A arte da guerra’ diz: tire a lenha da fogueira. Se algo está muito yang, é preciso “reduzir o fogo”. Isso é buscar equilíbrio.
E para isso não basta decorar as leis da ‘Arte da guerra’…
Não. Tanto Sun Zi quanto Sun Bin diziam: alguns vão entender muito, outros pouco, outros nada. Tem de haver alguém explicando isso também.
Esses estrategistas viveram em uma época de instabilidade profunda, o chamado período dos Estados Combatentes. Poderia comentar como essas explicações eram buscadas por meio da filosofia?
Sim. Era a época das “Cem escolas de filosofia”. O contexto filosófico sempre foi importante, tanto que isso era objeto dos sinólogos na China: coletar os filósofos e seus conteúdos. Para quê? No início era para instruir as crianças do império. Para construir o quê? Bons ministros, bons conselheiros…, porque as leis imperiais eram severas. Errar uma prova imperial poderia significar a morte. A premiação era grande: podia-se tornar conselheiro, ministro; mas a punição por falhas também.
Retomando a questão do yin e yang, como um estrategista atual pode olhar para colaboradores sem reduzi-los a yin ou yang, bons ou ruins, fortes ou fracos…?
Como Guiguzi ensinava: veja o contexto como um tabuleiro e saiba usar as peças de acordo com a qualidade delas. Conhecer o outro e a si mesmo é princípio para vencer uma “guerra”. Do mais inteligente ao mais ignorante, todos podem ser aproveitados.
Mas então quando a liderança desqualifica ou imputa a responsabilidade para um dos seus “guerreiros”, o erro ao final é dele por não saber enxergar as qualidades das peças no tabuleiro?
Sim. Sun Bin via: esse aqui é muito inteligente, esse aqui é muito corajoso, vai para frente do campo de batalha. Ou, a depender da situação, vai o mais medroso mesmo, porque na hora que ele correr e tentar voltar, vai trazer o inimigo exatamente para onde ele será derrotado. Tudo isso são estratégias. Não se pode ler um livro como ‘A arte da guerra’ como uma receita de bolo, porque ele não vai funcionar igual para todos. Por isso, é fundamental que um líder estrategista se conheça bem e conheça suas peças, que considere as fontes de onde beberam: a filosofia, o comportamento pessoal, questões psicológicas, escolas diplomáticas. ‘A arte da guerra’ desconectada do professor, do Guiguzi é um grão de areia, porque só vai carregar o contexto marcial, de ver as coisas conflituosas. É preciso pensar de uma maneira mais ampla, mais diplomática, tentar resolver os conflitos, buscar a paz.
Como diz o próprio Sun Zi no livro: ‘O verdadeiro objetivo da guerra é a paz’…
Aprender para derrotar, aprender para ser poderoso, lutar em causa própria, isso é um pensamento típico ocidental. E arte marcial não é isso! A arte marcial, que visa o autocontrole, disciplina, perseverança, vencer obstáculos e vencer problemas, é outra coisa. Se eu consigo fazer acrobacias, saltos, golpes, domino uma técnica complicada, difícil, eu me lapidei como ser humano em todos os sentidos: psicológico, mental, físico… É o “jun zi”, o conceito da pessoa exemplar, a ponto de utilizar isso para o todo, não só para si, mas para a sociedade, para o benefício de outras pessoas.












