Conteúdo exclusivo para assinantes cadastrados
A indústria de dados da China movimentou 6,78 trilhões de yuans em 2025, crescimento de 15,7% em relação ao ano anterior. O levantamento apresentado pela Administração Nacional de Dados indica que o país encerrou o período com cerca de 482 mil empresas ligadas à coleta, organização, processamento, circulação e aplicação econômica de dados.
O indicador não representa toda a economia digital chinesa. Ele reúne atividades diretamente associadas a produtos e serviços de dados, incluindo software, plataformas, infraestrutura de computação, bases organizadas e soluções empresariais. Essa distinção é importante porque mostra um mercado específico em formação, no qual informação estruturada passa a ser tratada como insumo produtivo.
Segundo os dados oficiais, produtos de software e recursos de dados responderam por 4,99 trilhões de yuans, ou 73,6% do total. A participação revela que o valor econômico está se deslocando do simples armazenamento para ferramentas capazes de limpar, integrar e analisar grandes volumes de informação. A inteligência artificial acelera esse movimento ao exigir conjuntos de dados confiáveis para treinamento, avaliação e operação de modelos.
O governo chinês também informou a existência de mais de 126 mil conjuntos de dados considerados de alta qualidade, com volume superior a 1.815 petabytes. Esse acervo cresceu 89% desde março, de acordo com a agência Xinhua. A expansão ajuda a abastecer aplicações em indústria, transporte, saúde, serviços públicos e comércio eletrônico, embora a qualidade e a governança sejam tão relevantes quanto a quantidade disponível.
A infraestrutura acompanha o avanço. Na província de Guizhou, um dos polos nacionais do setor, 50 centros de dados considerados estratégicos somavam capacidade de 176,57 exaflops no fim de julho. A computação voltada à inteligência artificial representava 98,4% desse total. A concentração mostra como a demanda por IA está mudando o perfil dos investimentos, com maior peso para chips, energia, refrigeração e redes de alta velocidade.
Para empresas brasileiras, o crescimento chinês abre possibilidades e também aumenta a competição. Há espaço para soluções de agronegócio, logística, energia, finanças e comércio transfronteiriço, especialmente quando combinam conhecimento setorial do Brasil com capacidade tecnológica chinesa. Bases em português e dados adaptados ao contexto latino-americano podem ganhar valor em projetos bilaterais, desde que respeitem regras de privacidade e segurança.
A experiência chinesa também interessa ao debate brasileiro sobre centros de dados. O Brasil dispõe de matriz elétrica relativamente limpa, grande mercado consumidor e posição geográfica relevante, mas precisa equilibrar atração de investimentos com disponibilidade de energia, água, conectividade e qualificação profissional. O crescimento da capacidade computacional não produz benefícios automáticos se não vier acompanhado de fornecedores locais e aplicações produtivas.
A próxima etapa será medir quanto desse mercado se traduz em ganhos de produtividade fora do próprio setor tecnológico. A escala de 6,78 trilhões de yuans demonstra que dados e IA já formam uma cadeia industrial ampla na China. Para o Brasil, acompanhar padrões técnicos, regras de circulação de dados e modelos de cooperação será essencial para transformar a relação digital com o país asiático em projetos com valor econômico compartilhado.












