O Brasil aparece entre os países com maior potencial geológico em terras raras, mas ainda ocupa uma posição periférica na produção global desses minerais estratégicos. Dados do Mineral Commodity Summaries 2025, do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), indicam um contraste expressivo: o país reúne grandes reservas conhecidas, porém extrai volumes residuais quando comparado aos líderes do setor.
Segundo a tabela de “produção e reservas” do USGS, o Brasil tem 21 milhões de toneladas em reservas (em equivalente de óxidos de terras raras), em um total mundial estimado em mais de 90 milhões de toneladas. Na mesma base, a China concentra 44 milhões de toneladas em reservas e lidera também na produção: 270 mil toneladas em 2024, diante de um total global de 390 mil toneladas. O Brasil, por sua vez, tem produção estimada de 20 toneladas em 2024 — algo em torno de 0,005% do total mundial, bem abaixo de 1%.
O descompasso não é apenas de mineração, mas de cadeia produtiva. Terras raras são um grupo de 17 elementos usados sobretudo em ímãs de alto desempenho — insumos críticos para motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos e sistemas industriais. A captura de valor costuma se concentrar nas etapas de separação, refino e fabricação de materiais avançados, onde a oferta global permanece altamente concentrada. A Agência Internacional de Energia (IEA) observa que a concentração em processamento e refino é um risco estrutural e aponta a China como principal refinadora em 19 de 20 minerais estratégicos, com participação média elevada.
No caso brasileiro, os gargalos passam por licenciamento, infraestrutura, previsibilidade regulatória e, sobretudo, capacidade instalada para processamento mais complexo — ponto recorrente em diagnósticos do setor mineral voltados à agenda de minerais críticos. Sem uma estratégia que inclua plantas de beneficiamento e refino, acordos de compra de longo prazo e coordenação tecnológica com a indústria usuária (automotiva, energia, eletrônicos), a tendência é o país seguir exportando potencial e importando valor agregado.
Para 2026, o tema deve ganhar tração no debate industrial, tanto pela expansão da eletrificação quanto pela disputa geopolítica em torno de cadeias de suprimento críticas. O tamanho das reservas coloca o Brasil no radar, mas a transformação desse ativo geológico em relevância econômica dependerá de projetos com viabilidade ambiental e social, financiamento compatível com maturação longa e decisões claras sobre onde o país quer competir: apenas como fornecedor de minério ou como participante de uma cadeia capaz de entregar produtos processados e materiais estratégicos.













