A rápida expansão da frota de veículos elétricos na China está empurrando para o centro da indústria um tema que, até pouco tempo atrás, era tratado quase apenas como obrigação ambiental: a reciclagem de baterias. Estimativas atribuídas ao instituto Qianzhan Industry Research indicam que o mercado chinês de reciclagem de baterias para veículos elétricos alcançou 558 bilhões de yuans em 2024 (cerca de US$ 78 bilhões). Na mesma fonte, a comercialização de materiais recuperados — como lítio, níquel e cobalto — aparece com valor ainda maior, em 647 bilhões de yuans (aproximadamente US$ 90 bilhões), sugerindo que a cadeia já opera em escala comparável a segmentos tradicionais do setor automotivo.
O avanço não é apenas um efeito estatístico da eletrificação. Ele reflete a formação de um novo elo de suprimentos, cada vez mais relevante em um contexto de volatilidade de preços de minerais críticos e competição por acesso a matérias-primas. Ao recolocar metais estratégicos no circuito produtivo, a reciclagem reduz a dependência de importações e ajuda a estabilizar custos no longo prazo. A leitura é reforçada por projeções divulgadas em coberturas do setor na China: há expectativa de aumento acelerado do volume de baterias “aposentadas”, com indicação de que um pico de descarte pode ocorrer a partir de 2026, conforme cresce a primeira geração de veículos elétricos chegando ao fim de garantias e ciclos de uso.
Na prática, o reaproveitamento segue dois caminhos principais. O primeiro é o chamado “uso em cascata” (second life): baterias que já não atendem às exigências de desempenho para veículos podem ser redirecionadas para aplicações estacionárias, especialmente em sistemas de armazenamento de energia. O segundo é a reciclagem de materiais, com processos industriais que desmontam, tratam e recuperam insumos para reinserção na produção de novas células e componentes. Esse segundo caminho tem ganho tração porque transforma descarte em matéria-prima e cria receitas diretamente vinculadas ao valor dos metais recuperados.
A consolidação do setor também passa por maior institucionalização e padronização. A própria CATL, por meio de sua subsidiária Brunp, divulgou em 2025 que lidera ou participou da formulação de mais de 80% dos padrões nacionais chineses ligados à reciclagem de baterias de íons de lítio, sinalizando o esforço de regular e organizar um mercado que cresce rápido e tende a atrair operadores informais. A imprensa chinesa também tem destacado o endurecimento de regras e a ampliação de redes de coleta e rastreabilidade, com participação direta de montadoras e fabricantes de baterias. A China Daily, por exemplo, registrou iniciativas de coleta e “segunda vida” e citou estatísticas sobre pontos de serviço para reciclagem de baterias no país.
Empresas como CATL e BYD aparecem como protagonistas por atuarem em múltiplas etapas: produzem baterias e, ao mesmo tempo, estruturam canais de recolhimento, triagem e reciclagem, além de parcerias com outros setores intensivos em energia. Para a indústria global, a lição central é que a transição para veículos elétricos não termina na linha de montagem: ela exige uma infraestrutura industrial completa para fechar o ciclo de materiais, reduzir riscos de fornecimento e evitar que o passivo ambiental vire gargalo econômico.













