China reafirma apoio à Venezuela e invoca direito internacional em críticas aos EUA

Em duas coletivas em Beijing, Mao Ning disse que Pequim manterá a cooperação com Caracas e rejeitou o uso “seletivo” de normas e do tema de direitos humanos

(Foto: Reprodução / Xinhua)

A China afirmou, em 9 de janeiro de 2026, que pretende aprofundar a cooperação pragmática com a Venezuela “não importa como a situação política evolua”, reiterando que seu posicionamento permanecerá inalterado. A declaração foi feita pela porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Mao Ning, ao comentar uma publicação da presidente interina venezuelana, Delcy Rodríguez, sobre um encontro com o embaixador chinês no país. Segundo Mao, Beijing atribui “grande importância” aos laços bilaterais e seguirá apoiando a Venezuela na defesa de sua soberania, dignidade, segurança nacional e “direitos e interesses legítimos”.

Um dia antes, em 8 de janeiro de 2026, a mesma porta-voz vinculou a crise venezuelana a um debate mais amplo sobre a “autoridade do direito internacional” e o multilateralismo. Questionada sobre críticas feitas pelo Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, e por especialistas do Conselho de Direitos Humanos da ONU a uma operação militar dos Estados Unidos na Venezuela, Mao declarou que a China se opõe à politização de temas de direitos humanos e à “aplicação seletiva” do direito internacional, além de rejeitar o uso do tema como pretexto para interferir em assuntos internos de outros países.

As declarações chinesas ocorreram no rastro de manifestações do sistema ONU que apontaram risco de erosão de princípios centrais da Carta das Nações Unidas. Em nota de 6 de janeiro e em artigo publicado em 5 de janeiro, Volker Türk afirmou que a operação militar dos EUA na Venezuela contraria um princípio fundamental do direito internacional — a proibição do uso da força contra a integridade territorial ou independência política de um Estado — e advertiu contra narrativas que buscam justificar intervenção armada com base no histórico de direitos humanos do governo venezuelano. Em paralelo, um grupo de especialistas da ONU divulgou comunicado condenando a ação e classificando-a como violação do Artigo 2(4) da Carta da ONU.

A China tem usado as coletivas diárias para reforçar uma linha de ação que combina defesa de soberania, crítica a sanções e rejeição a condicionantes externos. Em 7 de janeiro, Mao já havia afirmado que exigências norte-americanas relacionadas ao destino do petróleo venezuelano violariam o direito internacional e a soberania do país, acrescentando que a cooperação sino-venezuelana é protegida por normas internacionais e que os interesses legítimos chineses devem ser resguardados.

No plano diplomático, esse enquadramento tende a manter a Venezuela como um tema de alta sensibilidade na agenda internacional, ao mesmo tempo em que preserva, do ponto de vista de Beijing, a justificativa jurídica e política para sustentar vínculos econômicos e institucionais com Caracas. Para a região, a discussão também amplia o foco sobre como conciliar transições políticas internas com pressões externas e com o respeito a regras multilaterais — um ponto que líderes como o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva têm ressaltado ao defender uma saída negociada e conduzida por venezuelanos.

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